Inspirado pelo fenómeno japonês das agências rent-a-friend — serviços onde é possível alugar pessoas para desempenhar papéis sociais temporários — Pfau (Peacock) acompanha Matthias, um homem que, ao viver de representar vidas alheias, acaba por perder o acesso às suas próprias emoções. Entre a sátira e o drama psicológico, o estreante Bernhard Wenger constrói um retrato mordaz de uma sociedade obcecada com a aparência e o desempenho — um espelho contemporâneo onde todos, em maior ou menor grau, se reinventam para serem aceites.
A propósito da sua indicação como candidato austríaca ao Óscar de Melhor Filme Internacional, estivemos à conversa com Bernhard Wenger, sobre este filme sobre a solidão moderna e a fragilidade da identidade.

O filme é o candidato austríaco ao Óscar de Melhor Filme Internacional. Essa nomeação exige uma intensa promoção e, de certa maneira, vestir uma máscara de aparências. Como se sente nesse papel?
Assumir papeis na vida quotidiana é algo a que estamos habituados. É perfeitamente normal não sermos a mesma pessoa no trabalho e em casa. Mas quando começamos a ter demasiadas personas para agradar a públicos diferentes — ser uma pessoa com um grupo de amigos e outra com outro grupo — isso torna-se um problema.
Durante esta campanha para o Oscars, continuo a ser o mesmo Bernhard Wenger do trabalho. Só tenho de reunir energia para cada reunião e entrevista, quer sejam oito da manhã ou sete da noite. É uma espécie de papel de quem tem de estar sempre a 100%.
Essa necessidade de promoção e o marketing mudam o seu olhar como autor?
Não. Sempre penso muito na reação do público. Nunca quis fazer filmes apenas para mim ou para uma região, país. Quero fazer filmes universais, que possam ser entendidos e sentidos em qualquer lugar.
Não forço uma ideia de ser “internacional”; procuro uma linguagem e um humor que funcionem em qualquer sociedade. A fase de promoção e distribuição pode não ser a mais agradável para o artista, mas faz parte da nossa indústria — e, no fundo, é também estimulante poder fazê-lo.
O filme nasceu do conceito de rent-a-friend no Japão. Como tudo começou?
Tudo começou com o fenómeno das “friend-to-friend agencies” — empresas onde se paga para alugar amigos. Quando fui ao Japão, em 2018, fazer pesquisa, conheci pessoas que trabalhavam nessas agências e recolhi muitas histórias.
Uma delas marcou-me: um homem disse-me que, por representar pessoas diferentes todos os dias — pai, filho, parceiro — já não sabia ser ele próprio. Tinha perdido o acesso às suas emoções reais. Cada vez que voltava para casa, não conseguia voltar a abrir-se emocionalmente, porque no dia seguinte já tinha de representar outra vida.
Foi daí que nasceu a ideia da personagem principal e a história satírica sobre alguém que perdeu o acesso às suas próprias emoções.
Isso também se pode refletir na carreira de ator, especialmente aqueles ligados ao method acting….
Sim, mas um ator tem sempre a “quarta parede” — sabe que, quando acaba o take, pode voltar a ser ele próprio. Porém, estas pessoas, que trabalham a representar vidas reais de outros, não têm essa parede de proteção. Só o cliente sabe que tudo é um papel; elas têm de ser totalmente outra pessoa. É por isso que é tão perigoso perder-se nesse trabalho.
A personagem de Matthias é inspirada em pessoas reais?
Sim, no homem japonês que conheci e noutras pessoas que encontrei. Fui juntando fragmentos para construir o Matthias.
Humor e sátira são muito importantes no seu trabalho?
Precisamos de humor, especialmente em tempos difíceis. Rir das nossas falhas é muito mais saudável do que tratá-las com seriedade amarga. Eu não olho para as minhas personagens com cinismo, mas com empatia e calor humano.
A sátira é uma forma poderosa de falar de temas sociais sérios enquanto se entretém o público.
Parte do filme decorre em ambientes de alta sociedade. O que quis explorar aí?
O filme passa-se sobretudo nesse meio, onde as pessoas têm o luxo de se preocupar com aparências. A alta sociedade sempre viveu de autoapresentação — antigamente eram perucas e corsets; agora é o Instagram.
Quando o básico está garantido, há tempo para se preocupar com o “como pareço”. E, claro, a arte e o discurso sobre arte sempre foram um palco para se parecer culto. É um meio onde a autoironia cabe bem.
E o Matthias tenta libertar-se desse meio falso..
Sim, mas a sociedade não lho permite. Quando ele finalmente tem um gesto verdadeiro, físico e brutal, ninguém acredita que seja real. Acham que é performance artística. Como não o deixam libertar-se, só lhe resta uma saída: pela janela.

O cinema austriaco tem uma grande tradição – Seidl, Haneke, etc. Como é ser um jovem realizador a surgir dentro de uma certa tradição. Sente pressão?
Sim e não. É bom crescer num país com uma tradição cinematográfica forte, mas o cinema austríaco é conhecido pela sua escuridão e tragédia. Quero romper com isso. Há uma nova geração — chamam-lhe a Nova Vaga Austríaca — que olha para a vida com mais otimismo. É aí que me situo.
Essa mudança vem também de uma geração diferente?
Acho que sim. A minha geração aprendeu a valorizar o que tem. Os austríacos tendem a queixar-se do país, mas, na verdade, é um ótimo sítio para viver. Essa gratidão traz um olhar mais positivo sobre a vida.
O equilíbrio entre humor e reflexão é natural em si?
Completamente. É assim que vejo o mundo. Para mim, o verdadeiro desafio foi outro: criar uma personagem principal passiva e filmar com 90 atores e 30 locais em 29 dias. Isso sim, foi difícil.
Pode contar algo sobre os próximos projetos?
Estou a trabalhar numa série e em dois filmes. Ainda não posso revelar muito, mas todos giram em torno de personagens, relações humanas e absurdos do cotidiano. E volto sempre ao tema das separações — porque os grandes temas do cinema são o amor e a morte, e o fim do amor é a morte simbólica do amor.
Pensa primeiro em cinema ou hoje em dia já pensa em streaming e séries?
Ambos. O cinema é insubstituível: ver um filme no grande ecrã é a experiência total. Mas as séries permitem criar um mundo narrativo mais longo e detalhado.
E acha que o seu filme poderia ser refeito nos EUA?
Acho que tudo pode ser refeito, embora eu normalmente prefira os originais. Se houvesse um remake do meu filme, teria curiosidade em saber quem o realizaria e quem o interpretaria.
O Haneke realizou o remake do Funny Games. Estava disposto a realizar uma nova versão do seu filme?
Bem, tenho muitas ideias que não foram usadas no filme. Mas agora prefiro concentrar-me nos projetos futuros.

