Realizador de filmes como “Forest” (2003), “Womb” (2010), “Apenas o Vento” (2012) e “Forest: I See You Everywhere” (2021), o húngaro Bence Fliegauf tem atravessado o mundo do cinema com um naipe eclético de projetos frequentemente sombrios e difíceis de categorizar que têm deixado uma fina marca autoral. “Jimmy Jaguar”, o seu último projeto, estreado na competição ao Globo de Cristal em Karlovy Vary, não é exceção, embarcando o cineasta no universo das possessões demoníacas através da construção de um falso documentário, que conta a história de dois homens que, na Hungria rural, foram detidos por raptarem e matarem um velho eremita, que se vem a descobrir ser um criminoso de guerra sérvio. Questionados e filmados pelas autoridades, eles afirmam que foi um demónio chamado Jimmy Jaguar, ou Jagu, que sequestrou as suas almas e os levou a fazer isso.
“Estávamos a testar um formato de pseudo-documentário e simplesmente não conseguimos parar de filmar — mesmo sem orçamento”, disse o realizador ao C7nema, numa entrevista por email, no rescaldo da estreia mundial do filme. “O nosso objetivo era criar um episódio piloto que, de alguma forma, funcionasse também como uma longa-metragem independente. ‘Jimmy Jaguar’ tornou-se um pseudo-documentário estranho e com um formato áspero. Penso que funciona a alguns níveis, mas o que é certo é que é material muito promissor para uma minissérie sobre um demónio da vingança — um anti-herói incorpóreo que caça aqueles que estão vivos apenas porque é contra a lei matá-los”.

Foi num desastre industrial no final dos anos 1970, na Hungria, que inspirou o cineasta a construir “Jimmy Jaguar”. Esse desastre, materializado na saída de gás dos solos e enormes labaredas, foi testemunhado por trabalhadores, que mencionaram ter tido a visão da presença de uma entidade sombria junto às chamas. Bence ouviu um bombeiro contar a história do desastre a outra pessoa, detalhando a visão dessa entidade. Um homem próximo, potencialmente com distúrbios mentais, ou talvez possuído pelo demónio, começou a falar no nome ‘Jimmy Jaguar’, enquanto se ouvia no recreio infantil uma rima que evocava essa figura. Esse memória do cineasta permaneceu na mente do realizador durante muitos anos, tendo agora explodido na forma de filme. “Considero-me um escritor que ocasionalmente realiza filmes”, diz Bence. “Por vezes, as ideias são como parasitas mentais. Tomam conta da minha mente e não consigo livrar-me delas até as expressar de alguma forma. Às vezes funciona, outras não. ‘Jimmy Jaguar’ é uma das possessões [mentais] mais perversas e poderosas que já tive — e ainda me incomoda”.
Admitindo que “Margarita e o Mestre”, de Bulgakov, “influenciou definitivamente o tom” de “Jimmy Jaguar“, “com a sua atmosfera lúdica, diabólica, e desenvolvimento apocalíptico”, Bence frisa que a sua produção funciona como uma espécie de “esboço, teste para alguma coisa” que poderá ter vida em diferentes formas, incluindo um remake noutras paragens, como os EUA: “Nunca o refaria cena a cena, como vemos no ‘Funny Games’ (uma obra-prima na minha opinião), mas ficaria feliz em atuar como showrunner ou argumentista principal e desenvolver algo a partir do seu conceito básico.“

Quando questionado em Karlovy Vary se a narrativa de alguma forma tinha qualquer ligação ao estado político atual que se vive na Hungria, com Viktor Orbán no poder, Bence diz que neste momento é impossível não relacionar o presidente do país a tudo o que se faz, já que ele é “dono de todos“. “Há muitos filmes independentes na Hungria a tentar expressar a tensão que assola este país”, explica-nos, acrescentando que todos sentem que algo está prestes a mudar radicalmente no seu país: “O clima político está realmente a fervilhar. Onde quer que este país acabe, estes anos refletir-se-ão na arte — a não ser que os intelectuais cometam suicídio mental. Mas não sou um pessimista. Acredito que as coisas estão a mudar, os tempos estão a mudar — esta é a verdadeira natureza do mundo. Nós, enquanto artistas, só precisamos de perspectiva e tempo para refletir sobre tudo isto. Jimmy Jaguar, sobretudo o final, é um reflexo direto e radical da realidade em que vivemos”.
O Festival de Karlovy Vary decorre até dia 12 de julho.

