Fiume ou Morte!: Igor Bezinović e o cinema como arqueologia da identidade

(Fotos: Divulgação)

Com uma obra que cruza documentário, ficção e experimentação, Igor Bezinović tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais singulares do cinema croata, por entre curtas-metragens, ensaios visuais e duas longas – The Blockade (2012) e A Brief Excursion (2017) – que funcionaram como terreno de maturação artística, o realizador apresenta agora Fiume ou Morte (2025), o seu projeto mais ambicioso e exigente.

Exibido recentemente no Festival do Cairo e com passagem assegurada na edição 2025 do Porto/Post/Doc, Fiume ou Morte foi desenvolvido ao longo de dez anos e mergulha na história esquecida de Rijeka, atual Croácia, e no período em que Gabriele D’Annunzio (1863-1938) — poeta, proto-fascista e figura tão contraditória quanto mitificada — tomou a cidade (setembro de 1919-dezembro 1920). Combinando investigação histórica, arquivos, reencenações e a participação direta das próprias habitantes, Bezinović constrói um objeto onde a memória coletiva, a identidade local e a manipulação narrativa se confrontam constantemente.

Na entrevista a seguir, realizada na capital egípcia, Igor Bezinović fala do processo de construção do filme, da relação com a comunidade, das suas opções formais e de como Fiume ou Morte! acabou por se tornar inesperadamente atual.

Igor Bezinović

Ao ver o filme, temos uma clara sensação de que este era um projeto que desejavas fazer há muito tempo. Quando decidiu que era o momento certo para avançar?

Trabalhei durante dez anos neste filme. Foi um processo muito, muito longo. Ouvi falar da história pela primeira vez no início dos meus vinte anos, e comecei a trabalhar no filme aos 32. Agora tenho 42. Portanto, são dez anos desde que recebi o primeiro financiamento para desenvolvimento do guião até à estreia.

Não consigo indicar o momento exato em que soube que era a altura certa para fazer este filme, porque ele esteve sempre lá. Não foi como se estivesse a seguir notícias e de repente pensei: ‘ah, tenho de fazer um filme sobre este assunto‘. Era algo tão ligado à minha cidade natal que esteve sempre lá como tema, algo que mais cedo ou mais tarde eu iria filmar.

E, quando comecei, em 2015, quando escrevi a primeira ideia de guião, não fazia ideia do que seria o filme. Só sabia que existia este acontecimento e que tinha energia suficiente para o abordar. Depois passei anos e anos a pensar como o apresentar cinematograficamente. Assim nasceu este estilo que combina várias coisas.

E a figura do Gabriele d’Annunzio, um proto-fascista e poeta, que atraía muito as mulheres… Como cresceste a ouvir falar dele? Quão forte é a sua presença em Rijeka?

Nada forte. Não aprendi nada sobre ele na escola, nem no básico nem no secundário. Não falava disso com os meus pais porque era algo que tinha acontecido muito antes. Sabia que ele tinha ligação ao fascismo, mas não sabia de que forma.

E acho que as pessoas em Rijeka nem sequer têm consciência da história da cidade antes da Segunda Guerra Mundial. A história ficou sobretudo na comunidade italiana que permaneceu lá. A grande maioria dos italianos partiu depois da guerra, quando o croata se tornou língua oficial e deixaram de ser bem-vindos por causa do fascismo.

O sistema mudou completamente: do capitalismo para o socialismo, do Reino de Itália para a Jugoslávia. Foi um caos. Muitos levaram as suas histórias para Itália. Os que ficaram não queriam falar sobre isso para não recordar o fascismo na cidade.

É uma história muito complexa, quase escondida — excepto em Itália, onde todos os anos se publicam livros sobre o tema. Se pesquisarmos na Amazon Gabriele D’Annunzio e Fiume, encontraremos dezenas e dezenas de livros novos. Mas eu diria que esta foi a primeira vez que a história foi contada da perspectiva dos próprios cidadãos, não das autoridades.

E houve muita investigação da tua parte, no plano histórico?

Muita. Em dois níveis. Primeiro tive de perceber o que realmente aconteceu, ou pelo menos o que podia encontrar que servisse a história que queria contar.

Depois houve a investigação de Rijeka hoje. Encontrar os edifícios onde tudo aconteceu. E a parte mais complicada: encontrar pessoas dispostas a participar no filme. Investigação histórica e contemporânea.

Quanto aos arquivos, foi fácil encontrá-los?

Muitos arquivos já tinham sido publicados. Tivemos dois investigadores: um francês, responsável pelo arquivo de vídeo e filme; e um croata, a viver em Itália, responsável pelo arquivo fotográfico. Colaborei também com dois excelentes historiadores jovens: o italiano Federico Carlo Simonelli e o croata Ivan Jeličić.

Rodeei-me de muitos investigadores, e ia sempre cruzando tudo entre Itália e Croácia para confirmar os factos. Claro que a seleção final é minha, porque escrevi o guião. Muitas coisas que alguns gostariam de ver no filme não cabem — a duração é limitada. Contei a história com fatos verdadeiros.

E é claro que é uma história parcial. Não se pode contar uma história completa. Mas é uma história que reflete os meus valores.

E temos “um filme” dentro do filme, com as reencenações…

Nunca quis esconder que estamos a construir a narrativa. Quando vês um documentário histórico, aceitas como verdade. Com muitos documentários acontece isso. Apenas pensas: ok, isto é o que aconteceu.

Queria lembrar o espectador de que toda a história é uma construção. Podemos tentar ser objetivos, mas no fim aquilo que escolhemos dizer e como o dizemos é determinado pelos nossos valores. Não quis esconder isso. Quis lembrar o público de que está a ser manipulado de certa forma — dirigido — porque esse é o meu trabalho.

O processo de filmar é, para ti, uma manipulação da verdade?

Acho que qualquer forma de expressão o é. Quando um compositor escreve uma música, está a manipular emoções e sabe como quer conduzir o público.

Um arquitecto, ao desenhar um edifício, manipula a forma como te moves dentro dele. E a narrativa funciona da mesma forma.

Entre Itália, Jugoslávia e Croácia, existe na cidade uma verdadeira questão sobre a identidade.

Absolutamente. E acho que este filme ajudou as pessoas a recuperar um pouco da sua identidade local, a compreendê-la melhor.

Cresci na Croácia nos anos 1990, durante a guerra, a dissolução da Jugoslávia, a guerra entre a Croácia e a Sérvia, e depois na Bósnia-Herzegovina. Cresci num ambiente fortemente nacionalista, de construção da nação croata.

E Rijeka era sempre uma excepção, porque a sua história não encaixa em narrativa nenhuma — nem croata, nem jugoslava, nem italiana.

É um lugar muito específico, com muitas identidades, e mesmo assim é a única cidade que tem, em termos croatas, a reputação de ser a mais à esquerda do país.

É um filme que fala muito com o presente, com o que vemos hoje na Europa, especialmente com o crescimento do fascismo.

Espero que sim. Não era a intenção. Voltando à tua pergunta: a intenção era reconstruir o acontecimento. E por acaso o filme sai em 2025, num momento em que a militarização está a aumentar cada vez mais.

Os países europeus decidiram investir cada vez mais em forças armadas e cada vez menos em cultura e educação. É assustador ver como o filme acabou por ser tão oportuno.

E a forma? Já tinhas essa ideia desde o início?

Não. No início havia apenas a ideia. Demorei uns quatro ou cinco anos a ler.

Os primeiros cinco anos não foram de trabalho intenso — eram leituras, conhecer pessoas, viajar, visitar monumentos, encontrar pessoas… sobretudo ler. Precisava de ler as fontes italianas e croatas para perceber que história queria contar. E depois, por volta de 2018 ou 2019, comecei a pensar intensamente em como contar a história.

E decidi três elementos que manteria sempre:

— a cronologia, mesmo resistindo inicialmente à sua simplicidade;
— basear tudo em factos e arquivos e reencenar esses arquivos nas ruas;
— e pedir às cidadãs e aos cidadãos que interpretam papéis, tornando-se narradores do filme.

Quando defini estes elementos, comecei finalmente a pensar na construção audiovisual. Até aí, era apenas um nerd da história a ler livros.

Os momentos em que se recriam as fotografias do passado, não fazes meramente um exercício de cópia, mas recrias com algum humor e transgressão. Existe liberdade e provocação nesse ato?

Sim. Muitas dessas fotos são ridículas. O arquivo fotográfico celebratório é enorme. E a maioria das fotos são desfiles, medalhas, champanhe, quartéis, poses com amigos — tudo muito descontraído. E passaram meses a enviar essas fotos para Itália para criar a sensação de que Rijeka era amistosa. Há muito poucas fotos de dominação, agressão, dor, sofrimento — que atingiram profundamente os habitantes locais.

Como vês no filme: D’Annunzio só foi bem-recebido no início, durante três meses. Depois cancelou eleições e ficou claro que não tinha apoio local. Não existem fotos disso.

Hoje temos repórteres que procuram histórias subversivas. Na altura era pura propaganda. Usar essa propaganda contra o próprio D’Annunzio foi uma intenção clara nas reencenações.

Havia uma ideia clara sobre o D’Annunzio ou deixaste que o filme falasse por ti?

Nunca quis que o filme fosse didático. Existem imensos livros sobre D’Annunzio. Muitos ainda hoje o veneram como grande líder militar, herói italiano, grande poeta. Isso continua nos manuais escolares italianos.

Para muitos historiadores da literatura, ele é realmente um grande poeta. Talvez seja. Eu não sou grande fã do seu trabalho. Mas não quis impor a minha opinião. Acho que no filme é claro que não tenho grande simpatia por ele, mas não quis forçar isso.

Tens já muitos trabalhos — entre curtas e longas. Onde se insere este filme na tua obra?

Vejo-o como uma combinação de tudo o que fiz antes. Os trabalhos anteriores foram um desenvolvimento pessoal e profissional. Existe muita coisa amadora, vídeos curtos no meu YouTube, exercícios. Decidi não ser demasiado crítico com o que fiz antes, porque acho que fiz sempre o melhor possível em cada fase da minha vida.

Agora estava simplesmente pronto para investir dez anos, colaborar com centenas de pessoas e fazer uma coprodução internacional. Antes disso, recolhia detalhes, fazia curtas, fiz duas longas muito simples. Este é o meu primeiro grande filme, sério, que está a ser exibido mundialmente. É uma grande mudança.

Qual foi o maior desafio que encontraste pelo caminho? Presumo que o processo de montagem tenha sido muito complexo…

A montagem foi muito desafiante. Significa muito para mim mencionar o nome da nossa montadora: Hrvoslava Brkušić. É uma grande montadora e amiga. Montou também as minhas duas longas-metragens anteriores. Trabalhamos juntos há 15 anos.

E decidimos montar até estarmos satisfeitos. Investimos imensa energia para que toda a história funcionasse. Tenho muito orgulho no resultado final.

Envolver a comunidade local também foi um grande desafio: ter a responsabilidade de contar a história com as cidadãs e depois montá-la de forma que se reconhecessem. O mais bonito é que muitas pessoas de Rijeka veem esta história como a sua história e o sucesso do filme como o seu sucesso pessoal.

As pessoas que aparecem em cena, gostaram do filme?

Adoram. Quando lhes digo que somos candidatos aos Óscares, nomeados para os Prémios da Academia Europeia, e quando veem as notícias, sentem esses sucessos como seus — e são. Enviam mensagens, celebram, organizam festas.

Tens um novo projecto?

Vou apontando notas no telemóvel. Recebo muita inspiração porque as reações ao filme são muito motivadoras. Sinto que poderia fazer muitos filmes. Mas ao mesmo tempo não sinto pressão nenhuma. Sou professor de cinema em Zagreb, tenho salário fixo, não preciso de correr por razões financeiras. Se um projeto acontecer, acontece. Não estou a correr atrás.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/uh9v

Últimas