Com mais duas sessões no Festival do Rio — nesta segunda-feira, 5 de outubro, às 14h, no CineCarioca José Wilker 1, e quinta-feira, dia 8, às 21h30, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 1 —, Jaripeo, de Rebecca Zweig e Efraín Mojica, desconstrói o imaginário viril associado ao western, aos rodeios e ao homem do campo. No lobby do Grand Mercure, em Copacabana, os realizadores conversaram sobre a experiência de regressar cinematograficamente a Penjamillo, no estado mexicano de Michoacán, transformando memórias, desejos queer e códigos de masculinidade num documentário que cruza Super-8, observação cinéma vérité, encenação e experimentação.
No centro dessa viagem estão os vaqueiros Noé Margarito Zaragoza e Joseph Cerda Bañales e uma pergunta: o que acontece quando homens educados para controlar os sentimentos começam a permitir-se desejar?
“Foi um exercício de descontrolo”, resume Rebecca Zweig acerca da forma encontrada para entrar no universo de Jaripeo. Em vez de abordar Penjamillo com uma tese documental previamente definida, a dupla permitiu que o filme permanecesse “maleável e vivo” durante a rodagem. Essa liberdade combina um olhar de dentro, ligado às memórias de Mojica, com outro vindo de fora. A intenção, explica Rebecca, era chegar a algo “mais sincero, mais íntimo e mais sensível”, libertando-se de um controlo rígido sobre géneros e estruturas narrativas.
Há chapéus, cavalos e homens que testam publicamente a coragem. Por baixo dessa iconografia clássica do western, porém, Jaripeo procura aquilo que durante décadas permaneceu escondido nesse imaginário: a fragilidade, o afeto e o desejo entre homens. O rodeio natalício de Penjamillo atrai habitantes que emigraram para os Estados Unidos e regressam durante as festas, transformando-se num espaço de reencontro com a terra e com códigos masculinos que atravessam gerações.
A associação ao western agrada a Mojica precisamente porque o género que ajudou a cristalizar a imagem do homem capaz de dominar cavalos, armas e natureza possui também uma tradição queer subterrânea. “O western tem uma tradição queer”, afirma, lembrando que até as narrativas clássicas das décadas de 1940 e 1950 comportavam elementos capazes de suscitar outras leituras daqueles corpos masculinos.
Para Mojica, existe uma contradição particularmente fértil na transformação do homem rural em mercadoria cultural. Trabalhadores do campo existem no México, no Brasil e em muitos outros países, mas os Estados Unidos transformaram o cowboy num ícone global através do cinema e da publicidade. Jaripeo apropria-se dessa imagem para lhe retirar a couraça. O corpo deixa de funcionar apenas como emblema de força e transforma-se em território de desejo e conflito.

em Copacabana – Crédito: Rodrigo Fonseca
É aí que machismo e controlo passam a funcionar quase como palavras irmãs. Mojica lembra que existe uma educação masculina que determina desde a infância como um rapaz se deve sentar, comportar, crescer e apresentar perante o mundo. Jaripeo procura precisamente as fissuras desse modelo: “Nasci menino, mas a minha natureza é outra, a minha natureza é ser eu próprio, ter essência e, sobretudo, ter presença”.
Joseph Cerda Bañales materializa essa rutura dentro de Penjamillo. Figura expansiva e respeitada na comunidade, ligado à igreja local, à dança e à maquilhagem, representa uma possibilidade de existência que outras gerações dificilmente tiveram. Ao falar das mudanças ocorridas entre um século e outro, Joseph recorda que houve um tempo em que assumir quem se era significava passar praticamente toda a vida escondido. “No século XXI decidimos abrir essa rede e falar sobre aquilo que somos e aquilo que sentimos. Jaripeo é uma demonstração disso”, afirma.
Essa libertação não significa, contudo, que o silêncio tenha desaparecido. É precisamente nele que o filme encontra uma das suas matérias dramáticas mais poderosas. Para Mojica, calar pode significar repressão, mas pode também ser uma forma de observação e escuta: “O silêncio tem muito a ver com escutar. Não tanto estar silenciado por não poder levantar a voz, mas guardar silêncio para poder ouvir e observar aquilo que está a acontecer”.
A dificuldade de falar ultrapassa a sexualidade. Nas tradições rurais atravessadas pelo filme, torna-se muitas vezes difícil conversar com o próprio pai sobre sentimentos, independentemente de estes estarem ou não relacionados com uma identidade queer. Gerações de homens foram educadas sem autorização para a sensibilidade.
Por isso, Jaripeo não anuncia ingenuamente o fim dessa repressão. Rebecca lembra que o silêncio continua presente “nos corpos, nas pausas entre perguntas”. A diferença é que começa a perder terreno. O filme situa-se precisamente nessa passagem, entre aquilo que ainda não consegue ser dito e uma geração que decidiu conquistar a própria voz.
Entre a montaria e o toque clandestino, entre o chapéu de cowboy e um olhar que se prolonga, Jaripeo encontra assim outro México possível. Não destrói os símbolos do macho rural. Abre-os para revelar desejos que sempre estiveram lá dentro.
O Festival do Rio 2026 termina no próximo dia 11.

