Entrevista a Lars Von Trier (Anticristo)

(Fotos: Divulgação)

Foi a quente, após as malditas sessões em Cannes onde o filme foi pateado e aplaudido. Uma forma de terapia, talvez. O dinamarquês assume a depressão e as práticas “shamanistas”“É o LSD, sem LSD!”, diz. A verdade é que tirou de Charlotte Gainsbourg a melhor interpretação da sua carreira, que lhe valeu o prémio de interpretação no festival. Um fenómeno de culto, isso sim.

O casal entrega-se totalmente à cena física de sexo. Na sala ao lado, o bebé, curioso, explora. O calor aumenta e o bebé trepa à cadeira. Dá-se o orgasmo e o bebé tomba da janela. Corte. O genérico chama-lhe “Anticristo”. O que se segue será um calvário retirado de uma tela de Brueghel ou Bosch, ou um lamento de Munch. As referências são dele, mas revêem-se no filme. Atravessá-lo significa acompanhar o calvário e a purga interior. Sim, há imagens violentas, de virar a cara. Mas também a mais pura emoção de ver um cinema que nos move e comove. Odeia-se ou entranha-se. Não há meio-termo.

Tinha-me preparado para a entrevista mais difícil, pois a fama de realizador duro com entrevistadores precedia-o. Puro engano. Lars parecia um cordeiro envergonhado após a valente depressão. A mão ainda tremia. O que vale é que disse tudo. Pelo menos.

O Lars referiu que a intenção de fazer este filme surgiu após um período de depressão. Qual a razão de colocar essa depressão no papel de uma mulher, a personagem de Charlotte Gainsbourg?
Sim, isso é verdade. Mas acho que fiz sempre isso em todas as minhas personagens femininas. Nos meus filmes, os homens tendem a ser estúpidos e dominadores (pausa)… Para mim, o percurso dela foi natural. E o retiro dele (a personagem de Willem Dafoe) foi algo que fiz há alguns anos.

O filme é bastante forte e tem algumas cenas particularmente chocantes. Acha que esta será a versão que veremos em Portugal?
Não lhe posso prometer isso. O que está no meu contrato é que, se houver censura, terá de ser mencionada. No entanto, muitos mais países do que supunha irão mostrar a versão original.

Estava à espera que o título “Anticristo” tivesse um fundo mais religioso, mas não é isso que sucede…
Acho que gostei do título (risos)… Tive a oportunidade de fazer algumas viagens “shamanísticas” que me deram os animais que vemos e algumas imagens estranhas.

…disse viagens “shamanísticas”?
Sim, é algo que se fazia em comunidades hippies, mas é também uma tradição em algumas comunidades primitivas. Existe um shaman, uma espécie de médico espiritual. Supostamente, viaja ao ritmo de um tambor até um universo paralelo onde se encontra com as profecias. O curioso é que se trata sempre do mesmo ritmo do tambor. Fiz essas viagens algumas vezes em transe. É extremamente divertido. É uma espécie de LSD, mas sem LSD. É muito esquisito. E legal.

Porque se sente mais à vontade com personagens femininas?
Digamos que é mais fácil parodiar o sexo oposto. Por outro lado, sempre me senti mais feminino, no sentido de ser muito sensível. Não sei bem porquê… Talvez porque Carl Dreyer fez muitos filmes com personagens femininas. Comigo funciona bem. Normalmente, tenho uma boa relação com as atrizes.

Durante este processo criativo, que tipo de obstáculos enfrentou?
Foi um momento pouco típico, pois senti-me sem poder. Estava presente apenas de uma forma física. Em circunstâncias normais teria construído uma plataforma para o filme. Desta vez não aconteceu. Foi bastante duro e houve muitas coisas que não consegui fazer. Por exemplo, não consegui segurar a câmara, tremia demasiado. Foi um pouco humilhante.

Estava com uma depressão, mas também doente do ponto de vista físico…
Sim, neste tipo de depressão estamos mesmo doentes. Quando olho para o que escrevi na altura, nem consigo decifrar.

Disse que os homens são normalmente mais agressivos, mas neste caso é a Charlotte quem é mais violenta. Concorda?
O que é que posso fazer? Gosto dela!… (risos) Acho que se percebe que, em tempo, maltratou a criança. Muitas mulheres não conseguem ser mães. Mas é verdade que puxei a Charlotte a fazer um papel mais duro. Acho que a culpa é muito importante na maternidade. Há mulheres que já não querem ter sexo com os maridos, porque a relação com os filhos tornou-se mais importante. A maternidade, o sexo e a morte são temas que andam aqui de mãos dadas. Talvez por isso, acho que a consigo compreender.

A própria Charlotte disse que o Lars conseguiu que ela não se impusesse a qualquer limite. Como conseguiu que fizesse cenas tão explícitas?
E ela até é bastante tímida. Eu cheguei a dizer-lhe: “como é que consegues masturbar-te na floresta sendo tão tímida?”, ao que ela me respondeu: “isso querias tu saber!” (risos).

Mas como foi que a sugestionou a esse ponto?
Acho que a apoiei. As mulheres têm algo biológico que as faz manterem-se firmes nas suas decisões. Desde cedo, ela decidiu que queria fazer o filme. Acreditava no projeto e em mim. Por isso avançou. Trabalhar com atores masculinos é mais difícil, porque haverá sempre uma necessidade de controlar. A minha experiência com atrizes é que confiam em mim.

Ela disse que você a colocava num pedestal… É verdade?
Sendo eu próprio uma mulher, tenho de dizer que sim… (risos). A sério, não sei o que foi. Apenas tento sobreviver.

Quer falar um pouco das suas influências visuais para o filme?
É verdade que me inspiro em várias coisas e, na maior parte dos casos, não sei dizer onde as roubei. É claro que Edward Munch faz parte da minha formação. Mas também Brueghel, Bosch… Não podemos fazer nada que não tenha já sido inventado.

E parece-me que tem também algumas influências de contos de fadas. É algo que gosta?
Detesto contos de fadas! Na Dinamarca, estamos sempre a ouvir falar de Hans Christian Andersen. Ele era um idiota tão vaidoso… queria conhecer o rei e a rainha e viver no campo. Mas a verdade é que passava os dias a masturbar-se… (risos).

Como reage ao facto de muita gente ter abandonado a sala e rido durante a projeção do filme?
Já assisti a projeções de filmes de terror em que toda a gente se ri. Isso é normal e não quer dizer que alguém se sinta ofendido. Mas há outras formas de riso que são mais hostis, sobretudo de pessoas que decidiram odiar o filme desde o início. De certa forma, isso abala-me. Projetar um filme é como convidar alguém a nossa casa. Mas já fui mais duro. Por exemplo, quando mostrei aqui em Cannes “O Elemento do Crime”, três quartos da sala abandonaram. Nada disso me afetou.

Isso afeta-o agora de forma negativa?
Não. Por princípio, acho que um filme pode e deve dividir as pessoas. Mas como indivíduo, não posso deixar de me afetar um pouco.

De certa forma deseja ser amado pelo público, é isso?
Sim, é isso. E é uma fraqueza. Mas não tão grande que possa influenciar o filme.


Publicado na revista GQ, janeiro/fevereiro

Link curto do artigo: https://c7nema.net/tjrm

Últimas