“Floresta Do Fim Do Mundo”: a metafísica da escuta

(Fotos: Divulgação)

Um sonho do artista visual amazónico Denilson Baniwa sobre os perigos que o mundo enfrenta, no seu desdém perante a necessidade de escutar a Natureza, ecoa esta segunda-feira na Berlinale, na secção Forum Expanded. Floresta do Fim do Mundo (2026) é o título dado à materialização cinematográfica dessa experiência, traduzida em imagens a quatro mãos por Baniwa e Felipe M. Bragança (Animal Amarelo, 2020).

Baniwa já apresentou trabalhos em instituições como a Pinacoteca de São Paulo, a 22.ª Bienal de Sydney e o Museu Getty, em Los Angeles. Em 2024, foi um dos curadores do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza.

Floresta do Fim do Mundo, a sua primeira incursão na realização para Cinema (em parceria com Bragança), acompanha Suely (Iracema Pankararu), uma mulher indígena que vive numa grande cidade brasileira. Passa os dias num apartamento. Nos sonhos, comunica com uma floresta e liga-se aos segredos de um mundo em transformação radical.

A ideia do filme surgiu de um sonho que o Denilson me contou numa conversa de bar e da filosofia do italiano Emanuele Coccia. Dessas conversas e da leitura de A Vida das Plantas, mergulhámos na jornada de uma mulher que é simultaneamente protetora do nosso tempo e arauto da destruição; entidade e gesto quotidiano; ação e espera; raiva e doçura. Pensámos a ideia de uma revolução vegetal, de uma revolta das plantas perante as dores do mundo”, explica Bragança ao C7nema, sobre o processo criativo com Baniwa, que tem despertado curiosidade na Berlinale.

O teor ecológico é um dos atrativos do filme, mas há nele uma poesia que se cruza com a política. Em entrevista, Baniwa reflete sobre as investigações metafísicas de Floresta do Fim do Mundo.

Que ancestralidades atravessam a saga de Suely?

A saga de Suely é atravessada por múltiplas camadas de ancestralidade. Existe uma presença indígena amazónica muito forte, não como ornamento folclórico, mas como modo de existir e perceber o mundo. Essas ancestralidades manifestam-se na relação com a floresta, com os espíritos vegetais, com o tempo não linear e com a memória coletiva. Suely carrega memórias que a antecedem: mulheres indígenas, caboclas, ribeirinhas, mas também figuras que já não estão fisicamente presentes e continuam a agir no mundo. É uma entidade que caminha entre mundos, entre o visível e o invisível, entre o que foi interrompido e o que insiste em continuar.

Denilson Baniwa

Que ideia de “fim do mundo” o filme propõe?

O “fim do mundo” não surge como um evento apocalíptico único, mas como um processo contínuo. Para os povos indígenas, o fim do mundo já aconteceu várias vezes: com a invasão colonial, com a destruição dos territórios, com a violência sobre corpos e saberes. A floresta do fim do mundo fala desse colapso permanente, mas também da capacidade de recriar mundos a partir das ruínas. Não é um filme sobre o fim absoluto, mas sobre aquilo que sobrevive, se transforma e reaparece depois de cada tentativa de apagamento.

Como é o seu processo de trabalho com Felipe Bragança na realização?

O meu trabalho com o Felipe é profundamente colaborativo. Não há uma hierarquia rígida; há escuta, troca e risco partilhado. Eu trago o meu repertório visual, político e cosmológico; ele contribui com a experiência cinematográfica, a estrutura narrativa e a vontade de experimentar a linguagem. O filme nasce desse encontro, com alinhamentos muito intuitivos. É um processo aberto, em que a obra se revela gradualmente, sem a pretensão de controlar tudo, deixando espaço para o acaso, para o território e para as forças invisíveis que atravessam a criação, mas sempre com rigor técnico.

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