Entrevista a Radu Mihaileanu

(Fotos: Divulgação)

O realizador franco-romeno de origem judia vai acumulando uns tantos sucessos de crítica e público com seus títulos – entre os quais Vai e ViveO Concerto e A Fonte das Mulheres – em cartaz em Portugal no ano passado depois de ter feito parte da seleção principal do Festival de Cannes.

Ao passar por Lisboa durante a Mostra do Cinema Judaico, Radu Mihaileanu falou com C7nema sobre o seu segundo filme, Comboio da Vida, lançado no já longínquo 1998 e que foi a obra de abertura da mostra. Ao mesmo tempo, o cineasta revelou um novo projeto a ser rodado em inglês, uma adaptação do livro The History of Love, da escritora norte-americana Nicole Krauss.

“Comboio da Vida” foi lançado em 1998. O que lembra sobre a conceção do filme?

Foi há muito tempo atrás. Comecei a trabalhar nele em 1995 e o filmei em 1997. Eu lembro que foi meu segundo filme de longa-metragem e que eu andava já há bastante tempo à procura de um assunto. Então alguém disse-me: ‘tens de contar a história da tua vida, alguma coisa próxima a ti’. E eu tentei, de uma forma “escondida”, contar a história do meu pai e a sua “shtetl” (aldeia, em hebreu). Então este filme é mais sobre a terra “yiddish” do que sobre o holocausto – diferente do que muita gente pensou. Este tema não é o centro do filme, é periférico. O centro é a terra “yiddish”, a “shtetl”, sua cultura, o seu significado, o espírito daquelas pessoas.

Ao mesmo tempo, o filme tem uma abordagem cómica de um assunto muito sensível. Teve medo de incomodar as pessoas com este enfoque na altura?

Por causa da comédia? Não, porque na cultura judaica o cómico, o riso, são apenas outras formas de chorar. Não é uma comédia para fazer graça com a tragédia, antes baseia-se num ditado judeu que diz que “choramos com um olho e rimos com outro” (risos). O riso é parte da tragédia. Em toda a nossa história nós vivemos tragédias e nos mantivemos vivos por causa do nosso humor. É uma forma de sobrevivência. Quanto mais sofremos, mais tragédias vivemos, mais tentamos nos defender através do humor. Mas todo ele faz parte da tragédia. Foi por isso que escolhi esse caminho para o filme, porque eu sabia muito bem brincar com isso.

Houve pessoas, não judias, que viram este filme como uma forma muito leve de retratar aquela história (do holocausto). Para mim, era a única maneira – mostrar às pessoas aquela vida que tínhamos e que os nazis não puderam matar – pois eles não podiam eliminar todo um período histórico. E, no final, nós lembramos o que aconteceu – desaparecendo num segundo com toda aquela vida, toda aquela cultura da “shtetl” e aquelas pessoas que nós adoramos durante o filme. Mas nós as adoramos porque elas estavam vivas, com seu humor, sua inteligência, seu espírito e, claro, também com a sua estupidez e a sua imperfeição. Essa era a única linguagem que eu concebia para dizer ‘olha como a nossa vida era, quão divertida e tão próxima de si – e que o holocausto levou assim (estala os dedos)… num segundo’.

Como foi a receção na altura?

Foi ótima, foi o meu primeiro grande sucesso, percorreu o mundo todo. Virou um filme de culto em alguns países, como o Brasil e os Estados Unidos. Também teve os seus prémios e ainda é exibido em redes de televisão.

E houve reclamações?

Sim, sem dúvida. Mas, olhe, em todos os filmes há reclamações, por isso não devemos ter medo delas. Neste caso, houve pessoas que não entenderam o humor. Mesmo alguns judeus, que achavam que não se devia tocar neste assunto. Eu disse: “por que? meu pai foi morto no holocausto, por que não posso tocar nisto?’ Mas também houve queixas de pessoas que perderam familiares lá, era algo doloroso. Eu entendo a atitude delas – em reagir a um filme que tratava disso com humor.

Mas este também é o meu direito de lidar com o assunto – que de resto não é o tema principal, está presente apenas no começo e no fim. É sobre “shtetl” e eu nunca tinha visto um filme satisfatório sobre isso. Tudo o que havia eram os filmes em preto-e-branco e eu não queria fazer um filme triste sobre isso. Tudo o que eu tinha ouvido sobre as “shtetls” me dizia que elas eram cheias de vida. Era isso o que queria reproduzir.

O que pode adiantar sobre novos projetos?

Não posso dizer muito porque sou supersticioso, mas eu estou a terminar de escrever uma nova história que se passa em Los Angeles. É uma adaptação de um livro belíssimo, de uma escritora norte-americana de descendência judia muito talentosa, Nicole Krauss, chamado “History of Love”. É uma história muito bonita.

Será feito em inglês?

Sim. Mas antes disto ainda vou produzir filmes que não serei eu a realizar.

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