Guel Arraes leva a Tallin o “Grande Sertão” de Guimarães Rosa

(Fotos: Divulgação)

Duas décadas depois de lançar um dos maiores sucessos de bilheteiras do Brasil nos anos 2000 (a comédia romântica “Lisbela e o Prisioneiro”, vista por mais de 3 milhões de espectadores em 2003), Guel Arraes volta ao grande ecrá, fazendo do Tallin Black Nights Film Festival, na Estónia, o ponto de partida para a estreia do seu esperado “Grande Sertão”. Também realizadores, Caio Blat e Luisa Arraes (filha do cineasta) assumem os papéis centrais – Riobaldo e Diadorim – desta releitura em tons distópicos e futuristas do romance mais festejado de João Guimarães Rosa (1908-1967). Adaptado para a televisão por Walter Avancini (1935-2001) em 1985, com Tony Ramos e Bruna Lombardi, “Grande Sertão: Veredas” foi publicado em 1956, pela editora José Olympio, e virou um marco da reinvenção da língua portuguesa a partir da incorporação da fala coloquial dos sertanejos de Minas Gerais – estado natal do escritor.

Um dos mais inventivos realizadores de televisão na América Latina, responsável por programas e séries seminais como “TV Pirata” e “Armação Ilimitada”, Guel encheu salas em 2000 com “O Auto da Compadecida”, que terá uma parte dois, a ser lançada em 2024. Antes disso, “Grande Sertão”, fotografado por Gustavo Hadba, faz carreira na Europa. Em Tallin, a projeção da longa-metragem conta com a presença do produtor Manoel Rangel, da realizadora de 2ª unidade e produtora artística Flávia Lacerda e do ator Luis Miranda. Essa nova imersão do audiovisual no corolário estético de Rosa é produzido pela Paranoïd Filmes, em coprodução com a Globo Filmes, e distribuição da Paris Filmes, está a concorrer em Tallin na categoria Critics’ Picks. Lançado em solo estoniano na sexta, o filme terá sessões este domingo e na segunda-feira.

Apoiado num elenco estelar, que inclui Mariana Nunes, Luellem de Castro, Rodrigo Lombardi, Eduardo Sterblitch, o já citado Luis Miranda, o guião (escrito por Guel em dupla com o habitual parceiro Jorge Furtado, realizador da mítica curta-metragem “Ilha das Flores”) transpõe o texto de Rosa para uma realidade digna de “Mad Max”. Nele, encontramos o universo da violência do chamado “banditismo social” noutro território, o da periferia urbana. O tempo histórico da narrativa parece indeterminado, mas o tom é épico, e segue a trajetória de Riobaldo, professor que se juntou ao bando por amor a Diadorim.

A estreia de “Grande Sertão” em salas comerciais está prevista para maio de 2024.

Como foi a descoberta de Guimarães Rosa na sua história como leitor e de que forma a prosa dele afetou o seu olhar sobre a literatura? O quanto, daquele leitor em formação que você foi, regressa nessa imersão audiovisual na obra do escritor?

Desde o primeiro livro que li, “Primeiras Estórias”, fiquei deslumbrado e, ainda bem jovem, li tudo dele, menos “Grande Sertão: Veredas”, que fui ler bem mais tarde e que é o maior livro brasileiro que conheço. Esmiuça-lo para fazer esta adaptação foi um travessia.

Qual seria o lugar para o banditismo social, para a violência, na sua imersão no Sertão de Rosa? Que distopia existe no filme?

Guimarães fez um livro do ponto de vista dos jagunços/cangaceiros e em tom épico. O Jorge Furtado e eu seguimos esta trilha na nossa transposição para os bandos urbanos.

De que maneira a sua longeva troca com Jorge Furtado se refina e se reforça nessa nova empreitada, tendo Rosa como mediador?
Nós dois sempre partilhamos a mesma paixão pelo livro de Guimarães. O Jorge sabe grandes trechos de cor. Depois de trinta anos de parceria, achamos que valia a pena tentar.

Há 20 anos, o “Lisbela e o Prisioneiro” fez sucesso nas bilheteiras e consagrou-o como um cineasta de prestígio no trato com as plateias. Duas décadas depois, como avalia o lugar do cinema na sua trajetória?

A maioria do meu trabalho foi para a TV e o cinema foi uma fonte de inspiração, que me deu recursos narrativos. Quando vou fazer cinema, é claro que carrego também a minha bagagem na televisão.

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