Les Amandiers leva Valeria Bruni Tedeschi ao passado

Com um pé em Itália, a sua pátria natal, e outro em França, o país onde se estreou no cinema, em 1986, Valeria Bruni Tedeschi, nascida em Turim há 60 primaveras, conquistou Veneza há poucos dias, no papel principal do drama de época Duse, prestes a correr mundo no momento em que a mais recente (até agora) das suas sete incursões pela realização, Les Amandiers – Jovens para Sempre, chega finalmente às salas de Lisboa. A estreia em Portugal acontece três anos depois da sua projeção mundial, em competição pela Palma de Ouro de 2022. Até o Brasil já acolheu esta reconstituição afetiva de uma França “Ploc” (termo usado para os anos 1980), sob o título Jovens Amantes. A trama inspira-se em episódios da vida da realizadora e atriz, nos seus dias de estudante de Artes Dramáticas.

“Uma vez que este nosso mundo está repleto de violência, nas mais variadas situações, polarizado entre ódios, processos violentos de prática artística revelam formas de resistir ao desamparo. Na juventude, as experiências brutas soam ainda mais fortes e, algumas vezes, podem mesmo ser constitutivas”, afirmou Valeria ao C7nema, em encontro recente em Cannes.

Chamado Forever Young no mercado anglófono, numa evocação ao êxito musical dos Alphaville, de 1984, Les Amandiers – Jovens para Sempre transporta-nos até ao final da década de 1980. Nessa altura, Valeria foi aluna do curso de representação criado pelo encenador Patrice Chéreau (1945-2013), vencedor do Urso de Ouro em 2001 com Intimidade. Na narrativa, marcada por perfumes autobiográficos, um grupo de jovens de 20 anos — Stella, Victor, Adèle e Étienne — faz as provas de acesso à escola, no Théâtre des Amandiers em Nanterre, e enfrenta o exigente método de ensino de Chéreau. Louis Garrel, antigo companheiro de vida de Valeria, interpreta o cineasta e professor.

Bruni Tedeschi

Há coisas que sobem-me à garganta, cortam-me a respiração e precisam sair das minhas palavras para irem para a realização, entre elas a vivência do calor humano e da brutalidade da juventude. A solidão é a base do meu trabalho como atriz, porque é no estado de maior conexão interna, livre de vetores sociais dispersivos, que encontro a temperatura existencial certa para as minhas personagens. O mesmo acontece com as personagens que crio como cineasta e ofereço aos parceiros de cena. Representar é o instante em que estamos mais íntimos da nossa dor e da nossa poesia. Relembrar é um verbo que nos impõe sensações semelhantes”, disse Valeria. “O maior desafio deste projeto foi escrever a figura de Chéreau, que foi tão importante para mim, de modo a encontrar a dose certa de aspereza e também de doçura, para traduzir as suas aulas e a sua relevância.

Sites de apostas sobre os Óscares apontam Valeria como potencial candidata a prémios (ao Globo de Ouro, no mínimo) em 2026, pelo seu desempenho como Eleonora Duse, aplaudido como um exercício de maturidade da estrela, aquando da sua passagem por Veneza. O filme de Pietro Marcello acompanha a trajetória de uma diva que se reinventa sob a sombra do fascismo. Ao transformar a sua arte numa arma, desafia o tempo e o desencanto, convertendo cada palavra e cada gesto num ato revolucionário. Foi o que aprendeu com Chéreau e pôs em prática nas colaborações com nomes como Claire Denis (Nenette e Boni), Ridley Scott (A Good Year), Steven Spielberg (Munique) e François Ozon, com quem rodou 5×2 – Cinco Vezes Dois, papel que lhe valeu o prémio Pasinetti de melhor interpretação no Festival de Veneza, em 2004. Representar é uma questão de disciplina para uma artista que procura encontrar uma voz autoral quando realiza longas-metragens.

Sinto-me parte de uma família com a qual não tenho laços de sangue, mas sim estéticos: a família dos profissionais de cinema”, disse Valeria ao C7, num encontro na Berlinale. “Gosto de narrativas com muitos atores, porque é uma herança das velhas comédias italianas, como as de Dino Risi, que eram doces e cruéis na sua ironia. Mas gosto também de explorar o lugar de fragilidade que leva alguém a procurar o seu berço.”

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