Ciro de Caro: “Adoro John Cassavetes e espero ter aprendido qualquer coisa com ele”

(Fotos: Divulgação)

Presença habitual no Festival de Veneza e em particular na barra paralela Giornate degli Autori, Ciro de Caro continua a mostrar-se uma das vozes mais singulares do cinema italiano. E depois da estreia de “Giulia” no certame em 2021, cabe agora à sua quarta longa-metragem, “Taxi Monamour” voltar a fazer parte do programa. 

Mais uma vez com a atriz e argumentista Rosa Palasciano ao seu lado, de Caro conta-nos agora a improvável amizade entre duas mulheres: Ana (Rosa Palasciano), uma italiana que padece de uma condição médica delicada; e Cristi (Yeva Sai), uma ucraniana emigrada para Itália após a invasão russa. Entre as duas nasce uma cumplicidade que o cineasta captura com todas as suas influências e marcas pessoais, sobre as quais falou ao C7nema.

Quando falámos há 3 anos, aquando da estreia do seu filme “Giulia”, falou como John Cassavetes era importante para a construção do seu cinema. Neste seu novo filme, “Taxi Monamour”, essa influência ainda se sente mais…

Adoro o John Cassavetes e comecei a ter interesse nele quando comecei a estudar cinema. Tinha um professor que me instigava a ver os seus filmes. Mas é um nome demasiado grande para me colocar ao seu lado. Adoro o seu cinema e espero ter aprendido qualquer coisa com ele. Da mesma maneira que adoro Godard, Truffaut, Rohmer, Cristian Mungiu, Alfonso Cuáron. Tento sempre aprender algo dos mestres do cinema. Mas realmente comecei pelo Cassavetes.

Ciro de Caro

 Qual foi o ponto de partida para este filme?

Tudo começou quando eu e a Rosa estávamos a passear à beira da água, na praia, e vimos duas mulheres que estavam lá a almoçar. Não fazíamos ideia como se conheceram ou porque razão estavam juntas. Pareciam completamente diferentes, até de partes distintas do mundo. Começámos então a pensar em todas as coincidências, todas aquelas pequenas coisas que tornam possível que aos 20, 30, 40 e 50 duas pessoas se conheçam e transformem em amigas. O curioso desses encontros, dessas coincidências, é que só uma pequena quantidade delas realmente acontece. Isso levou-me a pensar em oportunidades desperdiçadas que todos temos em conhecer pessoas que realmente causam impacto nas nossas vidas. Pegámos assim em duas mulheres,olhamos para de onde vêm e que vida vivem. Começámos a escrever ideias em post-its, que colocámos numa caixa. Foi aí que percebemos que tínhamos uma história para contar.

Mas como criou individualmente cada uma dessas personagens, onde de um lado temosuma italiana com uma doença complexa e do outro alguém que veio da Ucrânia?

Escolhemos mulheres com um grande problema nas suas vidas, mas que aparentemente encontram-se num momento de segurança. A Ana tem uma doença, mas tem uma família rica, o que lhe traz algum conforto. Será essa condição médica que a faz olhar para a realidade: com a desculpa da proteção e do amor, as pessoas que vivem à sua volta colocaram-na numa jaula de segurança. Esse conforto é abalado com a noção de que não se tem ideia de quanto mais tempo se vive. Já a outra jovem, a Cristi, vem de um palco de guerra, mas encontra-se numa situação segura pois está geograficamente longe do conflito. Porém, essa zona de conforto é igualmente um cárcere. O que as duas vão fazer é arriscar as vidas, mas vivê-las na plenitude. Ambas querem sair da zona de conforto e o seu encontro é como um olhar ao espelho.

O título está associado a uma cena específica em que ambas estão à espera de um Bus que nunca chega. Ao invés, aparece uma dupla de rapazes que lhes oferece uma boleia. Como criou essa cena e porquê este título para o seu filme?

Na vida, nós estamos sempre assustados com algo ou alguém. Há sempre um medo do que não seconhece. Muitas vezes, essas coisas que tememos são oportunidades. Quis assim colocar duas personagens numa situação que não era emocionante e perigosa, mas de estranheza que as levaria onde não costumam ir. São dois tipos egípcios que saem do nada. Alguns amigos meus contam-me histórias assim, de como as pessoas olham para eles e pensam que se calhar até são terroristas.  A ideia do título vem muito de isso, do táxi, da viagem de um sítio ao outro. Quando fechas a porta de um táxi nunca mais vês o condutor. Com estas mulheres é igual. As duas encontram-se em determinado ponto das suas vidas e depois separam-se, provavelmente, para sempre.

Taxi Monamour

Por falar nessa separação, a cena final do filme é bastante intensa. Porque escolheu a música do Serge Gainsbourg e o La Javanaise para essa cena?

Não gosto de colocar música nos meus filmes e quando a sentimos é meramente diegética. Não gosto de cenas acompanhadas por música, mas nesta última cena quis fazê-lo para mostrar a Ana a ouvi-la no carro, enquanto tentava alcançar o autocarro da amiga que tinha partido. Claro que a música e a letra casam bem com a história a que assistimos, mas neste caso queria juntar as duas personagens através de algo, mesmo que entre elas existisse uma separação física. É como se entrássemos numa outra dimensão, em que elas estão juntas, mas separadas. Foi uma espécie de prenda que quis dar às duas personagens.

Olhando para a sua cinematografia – “Spaghetti Story” (2013),  “Acqua di marzo” (2016), “Giulia” (2021) e “Taxi Monamour” (2024) – denota-se que começa a escrever mais sobre personagens com mais idade. Essa progressão vai continuar nos seus próximos projetos? 

Toda a gente me pergunta se tenho um novo projeto, mas realmente não tenho nenhuma ideia em marcha. Tenho notas, pedaços de papel escritos, onde estão pensamentos. Mas sim, provavelmente o meu cinema vai envelhecer com as personagens, pois estou – como todos nós- a envelhecer. Sabe, quando avanço para um filme nunca escrevo a sinopse ou um conceito elaborado. Começo logo pela escrita do guião, pois não quero saber para onde vai o filme. Durante a escrita, quero manter essa curiosidade. 

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