Vicky Krieps e as contradições profundas do Japão

(Fotos: Divulgação)

Conhecida do grande público pela sua presença em filmes como Phantom Thread (Linha Fantasma, 2017) e Old (Presos no Tempo, 2021), a luxemburguesa Vicky Krieps, que também brilhou em Corsage (2022) e Os Três Mosqueteiros (2023), tem tido um ano intenso no que toca à sua presença em diversos festivais de cinema. Em fevereiro, surgiu em Berlim com Hot Milk. Em maio, chegou a Cannes com Love Me Tender. Em agosto, foi a vez de Locarno, com Yakushima’s Illusion, e ainda este mês — e setembro — vai brilhar em Veneza no novo filme de Jim Jarmusch, Father Mother Sister Brother. Pelo meio, recebeu um prémio pelo percurso da carreira em Karlovy Vary.

Foi por ocasião da estreia do novo filme da japonesa Naomi Kawase na Suíça, Yakushima’s Illusion, que conversamos com ela, descobrindo que não tínhamos apenas diante de nós uma atriz a falar de um filme, mas uma mulher sem medo de se desvendar. E, mais curioso ainda, sentada à mesma mesa da entrevista estava a mãe da atriz, que apenas esboçou uma pequena reação (de aparência patriótica) às palavras da filha quando esta disse que, sendo originária do Luxemburgo, nunca pensou que pudesse ser atriz: “Na altura, pensava que os atores nasciam em Hollywood, Paris ou Londres. O Luxemburgo era um país pequeníssimo para isso.”

Vicky Krieps no Japão

Em Yakushima’s Illusion, que compete ao Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, a atriz luxemburguesa desempenha o papel de Corry, coordenadora pediátrica de um serviço de transplantes cardíacos em França, que é enviada para um hospital no Japão com o objetivo de melhorar o departamento de transplantes, num contexto onde os transplantes de órgãos ainda são um tema tabu. Durante a sua estadia, convive com Jin, um fotógrafo originário da ilha de Yakushima, no sul do Japão, mas o seu desaparecimento, associado à resistência japonesa aos transplantes, levará esta mulher à frustração emocional.

Yakushima’s Illusion

Ainda antes de ser convidada por Kawase, Krieps já tinha decidido que gostaria de filmar no país do sol nascente. Tudo começou com um impulso quase místico. Após a estreia de Corsage no Japão — o último território onde o filme chegou —, Vicky sentiu algo. Não era uma curiosidade turística, nem um fascínio exótico. Ela fala num “chamamento”: “Preciso de ir ao Japão”, disse ao agente. “Há qualquer coisa lá. Não sei o quê, mas sei que tenho de ir.” E foi.

Aceitando participar no filme, o que Vicky encontra não é o Japão dos postais, nem o da tradição estetizada. “É um país de contradições profundas”, diz-nos, acrescentando que, por um lado, encontrou uma cultura que venera a natureza, a poesia do gesto simples, o respeito pelo outro e a aceitação da morte como parte da vida — valores que, diz ela, reconhece serem também os seus. Por outro lado, descobriu uma sociedade rígida, hierárquica, quase medieval, onde as classes se separam por muros invisíveis, mas intransponíveis, especialmente nas cidades. Aí, a humildade é exaltada — mas também pervertida. Enquanto uns vivem a modéstia e a humildade como virtude máxima, outros usam essa mesma modéstia para explorar, dominar e calar.

Foi nesse ponto que a experiência se tornou dolorosa, pois, como nos confessa, foi criada numa ética de “questionar hierarquias, acreditar na igualdade entre géneros e entre classes sociais”. Confessando ser uma pessoa muito sensível, Krieps diz que, quando estava na floresta, sentia-se profundamente ligada a tudo — às árvores, aos espíritos, à natureza. Mas, assim que entrava na cidade, sentia-se ferida: “Vejo milhares de pessoas a viver com quase nada, porque o orgulho delas está na humildade — uma ideia que adoro. Adoro a simplicidade, a felicidade na modéstia, como se viu em Perfect Days, de Wim Wenders (…) O problema é que descobri que essa humildade não é universal. Há uma pequena elite que se aproveita de todos os outros. E ninguém fala disso. Tudo é silenciado. Nunca tinha estado no Japão, não li muito sobre ele. Descobrir isso foi doloroso, mas também me levou a um Japão mais profundo, mais verdadeiro — e, nesse sentido, também bonito.

Confessando que não esperava sofrer tanto e que pensava que era, de alguma forma, imune — dada a sua formação de viver o momento e não se preocupar se as pessoas gostam de si ou não —, Vicky sabia que iria trabalhar com uma das poucas realizadoras japonesas com uma carreira internacional. E isso foi um grande impulso.

Naomi Kawase e Vicky Krieps em Locarno

O método de Naomi Kawase

O método de Naomi Kawase exige imersão total. Vicky tem de viver como a personagem: dormir no chão, apanhar o comboio sozinha, repetir gestos antes da câmara rolar. É um cinema que se aproxima do ritual, na busca da autenticidade. Mas Vicky resiste, por vezes: “Acredito na atuação, sim, até no método, mas também acredito que é importante lembrar que estamos a fingir. Que estamos a recriar a realidade. Eu sou real, a Vicky, e estou no Japão. Isso é real. Não preciso de viver a vida da personagem.

Mesmo assim, passou muito tempo no hospital e teve de fazer todas as ações da Corry antes das filmagens. Se ela fizesse um passeio, Vicky tinha de o fazer antes, várias vezes. Tinha de apanhar o comboio sozinha, encontrar o sítio, tudo em japonês. “A Naomi gosta de isolar os atores para criar aquela realidade intensa. É quase como um método de atuação, mas vindo da realizadora e não de mim. Foi a única coisa com que me senti desconfortável. Tinha de me libertar, de vez em quando. Dizia: ‘Olha, há uma câmara. Sabemos que está lá. Diz-me onde vai estar, para eu saber para onde me posso mover, para não repetirmos cinco vezes porque a câmara estava virada para o lado errado.’ Mas ela prefere: ‘Não falamos disso. Vamos ver o que acontece.’

Uma das cenas do filme de Kawase envolve uma série de especialistas reais a falar sobre transplantes e como a morte cerebral no Japão não é considerada morte. A morte, efetivamente, está diretamente ligada ao bater do coração. “Chorei mesmo, porque estava diante de médicos reais, pessoas boas, mas tão presas às regras da sociedade. Cheguei a sentir que falava com uma parede. Só queria dizer: ‘Somos todos iguais!’ Mas, mesmo quando sorriem, a porta está fechada. Deixam-te entrar aqui” — aponta para a cabeça — “mas nunca aqui” — aponta para o coração.

Father Mother Sister Brother

Certamente já preparada para falar em Veneza da sua colaboração com Jim Jarmusch, Vicky não perdeu muito tempo a falar do filme, mas ainda assim deixou escapar o fascínio que nutre pelo cineasta e o que podemos esperar da fita: “O Jim é maravilhoso. Ele não está a tentar reinventar o cinema, não se preocupa com Cannes ou com a hierarquia dos festivais. Ele faz filmes simplesmente para partilhar cinema, amor pelo cinema. Este filme é assim — simples, honesto, fala da família como uma criança falaria. Fala de como nunca conseguimos acertar com a família, de como é impossível ser um bom pai ou mãe, de como é difícil fazer tudo funcionar na perfeição. O filme é sobre isso. E é lindo.

O Festival de Locarno termina a 16 de agosto.

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