No seu elogiado “Um Fio de Baba Escarlate”, que acaba de receber uma Menção Honrosa do júri do Motelx, Carlos Conceição conta uma singular história de “serial killer” que anda num descapotável, com uma noite lisboeta iluminada por festas e luzes diversas ao fundo e sem diálogos desnecessários.
Sobretudo, emerge uma sólida crítica ao mundo das redes sociais (o assassino é apanhado pelos “voyeurs” a beijar uma suicida moribunda), onde o realizador observa que os seus ícones acabam “martirizados, beatificados, ou no lixo”.
Divulgado como um “giallo”, na verdade tem muito pouco deste subgénero que dominou a produção italiana na primeira metade da década de 70 com os seus assassinatos ritualizados e enredos rocambolescos. “Essa comparação é culpa minha”, diz o realizador – atualmente em Angola a rodar o seu novo projeto.
Esses são os temas principais desta entrevista ao C7nema, que também evita fazer parte de qualquer “contexto de cinema português” – seja o que isso signifique…
O “GIALLO”
“A comparação com o “giallo” é culpa minha mas está errada. No início do percurso do filme mencionei algures que o título era inspirado no estilo de nomes que os “gialli” tinham, tipo “A Lizard On a Woman’s Skin”, “Four Flies On Grey Velvet”, etc. Mas a relação termina aí. O “giallo” é um género muito específico, com regras muito marcadas que nada têm a ver com o que eu aqui fiz.”
OS GÉNEROS CINEMATOGRÁFICOS
“Na verdade, muito embora haja algumas opções que apontam para determinados géneros ou escolas, prefiro pensar que o único género que o filme tem é justamente não ter um género específico.
Para mim, os géneros servem para sugerir ao espectador que possa estar num território que conhece e domina, e isso pode servir para criar a ilusão de que, assim, possa estar em controlo do que está a ver. Mas essa posição é tão mais interessante quanto mais passível ela for de ser subvertida. Se isso originar confusão, desconforto ou falta de consenso, tanto melhor.“
AUSÊNCIA DE DIÁLOGOS
“A ausência de diálogos foi uma opção tardia. Simplesmente percebemos que os diálogos que existiam não tinham utilidade real e, uma vez que as freiras no final estão em voto de silêncio, era interessante que essa escolha fosse mantida desde o início. Também acho que essa opção reforça a dicotomia “kiss me”/”kill me”, únicas palavras importantes do filme, que, por sinal, são ditas demasiado distantes para as distinguirmos.”
A FAMA DE “INSTAGRAM”
“Creio que o filme é sobre isso, sobre interpretações divergentes, e sobre a distância que a fama-de-Instagram coloca sobre os contextos, e como isso acaba por ser uma adulação masturbatória que mais diz sobre quem adora do que sobre quem é adorado.
A ideia surgiu justamente nesse prisma: o de que certos fenómenos de “zeitgeist” são radiografias do presente, do social, e não se articulam sobre o valor concreto dos ícones que, por sua vez, acabam martirizados, beatificados, ou no lixo.”
A PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA PORTUGUESA
“Não o situo o filme dentro deste contexto. Tento fazer o que quero e como gosto e sem nunca pensar em compartimentação. O que faço tem a ver com os meus gostos, que são internacionais o suficiente.“
NOVOS PROJETOS
“Estou a rodar uma longa com a Terratreme, da qual ainda faltam 3 semanas de rodagem em Angola. É uma coprodução com França e fala um bocado sobre este ressurgir do fascismo pelo mundo fora, à luz dos fantasmas da guerra colonial que ainda estão tão presentes na relação que Portugal tem com Angola e vice-versa. Tenho um outro projeto, de outra natureza, já pronto para ser partilhado mas ainda não senti que fosse o momento.”

