Karavan: “parece que toda a gente do mundo é expert em maternidade”, diz Zuzana Kirchnerova

(Fotos: Divulgação)

Inspirada na sua própria vida pessoal e com “Vagabond” (Sem Eira Nem Beira) de Agnès Varda na mente, a cineasta checa Zuzana Kirchnerova leva-nos numa road trip por Itália na sua primeira longa metragem de ficção. Em “Karavan” (Caravan), que estreou no Festival de Cannes e chega agora a Karlovy Vary, seguimos Ester, uma mulher de 45 anos que não tem nada na vida a não ser cuidar do seu filho David (15), que tem uma grave deficiência intelectual. David não consegue falar e precisa de atenção constante. Ester ama-o, mas sente-se esgotada pela rotina e por ter de lidar com a situação sozinha. Na sua viagem de mudança de vida através de Itália, esta mulher vai perceber que pode ser mais do que uma simples mãe e que pode viver uma vida diferente. Pelo menos durante um curto período de tempo.

No filme queria mostrar que, apesar da maternidade, uma mulher continua a ser um ser sexual”, disse Zuzana Kirchnerova ao C7nema. “Por isso temos cenas eróticas no filme. Queria fazer um filme sobre maternidade, lidar com o problema da incapacidade. São temas pesados que tento aligeirar via o estilo dos road movies, mostrando assim uma viagem de transformação”.

Anna Geislerová em “Karavan”

Para Zuzana, ser livre é viver a vida que se quer sem pensar nos outros e nos seus julgamentos: “Eles podem achar que és louca, estranha, ou até uma má mãe, mas deves sempre fazer o que realmente acreditas. Se não o fizeres pagarás um custo elevado. Talvez seja mais fácil e confortável a escolha do suprimir desejos, mas se não fores autêntica e viveres a vida que precisas isso vai-te perseguir para sempre”.

Filmado na região italiano de Emilia-Romagna, a cineasta encontro no clima o seu maior contratempo, especialmente porque a região foi afetada pelo maior número de cheias em 17 anos. “Quase 90% das locações que tínhamos estavam inundadas. Foi um pesadelo”, diz-nos, acrescentando que ainda assim gosta muito do país e das pessoas, muitas das quais participaram no seu filme. “Muitas vezes quando filmo documentários, as pessoas dizem que os filmo como ficção. Quando faço ficção, dizem que parecem documentários. A verdade é que gosto muito de estar entre os dois campos e de trabalhar com não-atores”, explica a cineasta, confessando que há no seu filme um lado bastante terapêutico: “É terapêutico entender que alguém pode achar seu sou uma má mãe. Às vezes isso incomoda-me, mas na maioria das vezes não. Hoje em dia, com o jornalismo e as redes sociais, parece que toda a gente do mundo é expert em maternidade. Todos te dizem como devemos educar os filhos, amamentar, ou ser mais dura, gentil ou restrita. Creio que isso tem a ver com o poder da sociedade sobre as mulheres, de lhes dizer como devem ser e agir. Creio que na Europa existem muitos avanços na igualdade das mulheres enquanto elas não têm filhos, mas depois de seres mãe, chovem opiniões sobre tudo o que deves ou não fazer com a tua vida. Quando fui mãe, senti isso como uma prisão, mas aprendi a não me importar com essas coisas. Foi uma decisão de pura liberdade”. 

Karavan

A preparar uma minissérie de televisão sobre a violência doméstica, Zuzana diz que pela primeira vez vai filmar algo que não escreveu. Além disso, ela tem um novo guião na mente, focando-se agora sobre o envelhecer e nas mudanças corporais, principalmente femininas. “Vou falar de sexo acima dos  oitenta anos. A  meu ver, as mulheres depois dos 50 e 60 anos desaparecem da perspectiva social”. 

O Festival de Karlovy Vary decorre até dia 12 de julho.

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