Preparada para estrelar um thriller do rei ibérico da bizarrice Álex De La Iglesia, chamado La Cuidadora (2025), a madrilena María del Carmen García Maura chegou aos 80 anos em setembro, em pleno processo de renovação de prestígio… e em latitudes variadas do planeta. Marrocos é o seu pouso atual. Este domingo, o maior festival daquele país, realizado em Marraquexe, foi ao delírio com o desempenho da veterana atriz ibérica em Calle Málaga (2025), projetado ali fora de competição.
Por onde passa, costuma sair premiado. Tem sido assim desde setembro, quando valeu uma distinção de júri popular em Veneza. Há cerca de duas semanas, a produção de origem marroquina venceu o Festival de Mar del Plata, em solo argentino, onde garantiu à sua estrela um prémio de interpretação. Maryam Touzani, a cineasta por trás de Blue Caftan (2022) e Adam (2019), assina a realização, extraindo uma estonteante interpretação da musa de Almodóvar dos anos 1980.
“Maryam não é uma realizadora fácil de trabalhar, porque repete os takes muitas vezes, mas ofereceu-me um guião muito bom, com um olhar positivo sobre a vida. Há um olhar sobre a solidão no enredo dela, mas estar só dá-me prazer. Imaginação não me falta, curiosidade também não. É bom ter uma história em que posso falar de um país, Marrocos, que fica perto de Espanha, tem uma cultura linda, uma comida deliciosa, mas que muita gente no meu país não conhece”, disse Carmen Maura ao C7nema, em Marraquexe.

Diva de Pedro Almodóvar nos anos 1980 e 1990, Carmen trabalhou com realizadores lusófonos no passado. Fez Querido Fotogramas (2018), de Sergio Oksman, e, no mesmo ano, filmou com o brasileiro Miguel Falabella, o Caco Antibes do humorístico noventista Sai de Baixo (1996). Falabella levou a atriz ao Uruguai para filmar Veneza (2019), baseado na peça teatral homónima.
“Nunca imaginei que um dia viria a ser conhecida, sobretudo quando comecei, no fim dos anos 1960, mas percebi rápido que as pessoas param-me na rua para comentar o que pensam dos nossos filmes. Tenho orgulho em ver que Espanha está a abrir espaço hoje para muitas mulheres realizarem os seus filmes”, afirma Carmen.
Quando tinha cerca de 20 anos, trabalhava como galerista, dividindo o tempo entre a galeria e os compromissos como mãe. Em 1969, foi a um evento teatral no Ateneu de Madrid e acabou por participar numa leitura dramática.
“Havia lá um crítico bastante famoso e temido, Alfredo Marquerie, que me viu e veio ter comigo para dizer que eu tinha talento. Sugeriu que me dedicasse integralmente à interpretação. Saí dali mordida e matriculei-me no Teatro Universitário, para desgosto do meu marido, que não gostou nada da minha escolha. Os meus pais gostaram ainda menos. Quando me profissionalizei, passei a ser tratada nas festas de família como uma pessoa doente. Para o meu pai, ter uma filha atriz era como ter uma filha com uma doença terminal. Tinha 25 anos quando passei por tudo isto, mas aguentei os contratempos, pelo encanto que era trocar coletivamente com aquele povo maluco que trabalhava no teatro e no Cinema espanhol dos anos 1960”, explicou Carmen numa conversa a partir de Espanha, lembrando que encontrou no cineasta manchego Pedro Almodóvar um parceiro de trabalho numa colaboração que durou quase duas décadas e recomeçou em 2006 com Volver (2006), melodrama coroado com uma láurea de interpretação coletiva para as suas atrizes.

Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) foi um dos seus acertos — talvez o mais rentável da dupla. “Pedro Almodóvar preparava uma montagem de um texto de Sartre, As Mãos Sujas, quando o conheci, ainda muito jovem. Aliás, éramos os dois jovens. Íamos buscar tudo emprestado para fazer os nossos projetos. A loucura dele foi a minha faculdade de Cinema”, diz a estrela, que enfrenta temperaturas bem ao estilo almodovariano nas cores de Calle Málaga.
Maryam deu à sua protagonista o papel de María Ángeles, espanhola de 79 anos que vive sozinha em Tânger, em Marrocos, e aprecia a sua rotina diária. No entanto, a sua vida vira do avesso quando a filha chega de Madrid para vender o apartamento onde sempre viveu. Determinada a ficar, María faz o que pode para recuperar a casa e os seus pertences e, inesperadamente, redescobre o amor e a sensualidade. “A luz marroquina é algo precioso”, comenta Carmen.
O Festival de Marraquexe decorre até 6 de dezembro, quando o júri presidido pelo cineasta sul-coreano Bong Joon Ho anunciará quem recebe a Estrela de Ouro.

