Vinte e cinco anos depois de Y tu mamá también (2001) o ter transformado, ao lado de Gael García Bernal, num dos rostos mais internacionais do cinema mexicano, Diego Luna continua interessado em trocar de pele. Astro de Rogue One, protagonista de Andor e presença habitual em grandes produções norte-americanas, regressou à realização com Ceniza en la boca, drama sobre imigração e desagregação familiar que teve estreia mundial nas Sessões Especiais de Cannes e passou depois pelos Horizontes Latinos de San Sebastián.
Neste domingo, dia 4, às 16h15, o filme é exibido no Cinesystem Belas Artes Botafogo 3, integrado na Première Latina do Festival do Rio, regressando ao ecrã no domingo, 11 de outubro, às 20h, no CineCarioca José Wilker 1. Foi em San Sebastián que Luna falou ao C7nema sobre um filme no qual procura aproximar a ficção da textura da vida.
Adaptado do romance de Brenda Navarro, Ceniza en la boca (Cinzas na Boca) acompanha Lucila, uma jovem que deixa o México com o irmão mais novo para reencontrar em Madrid a mãe, emigrada há oito anos e a trabalhar sem documentos para os sustentar. Aquilo que deveria ser a reconstrução de uma família transforma-se num confronto com as cicatrizes produzidas pela distância, pela precariedade e pela impossibilidade de recuperar simplesmente o tempo perdido.
Luna encontra aí um cinema distante da escala industrial que marcou boa parte da sua carreira recente, embora rejeite a ideia de que existam dois Diego Luna incompatíveis. “É tudo parte do mesmo caminho. Acho que o desconforto faz aparecer a melhor versão da criatividade. Passei a vida a tentar mudar de posição, a não me instalar num único lugar. Não procuro o conforto: interessam-me o desafio, o acidente e aquilo que pode nascer da procura”, disse ao C7nema em Donostia.
Essa lógica ajuda a compreender como o mesmo ator e realizador pode saltar de uma galáxia muito, muito distante para um drama íntimo sobre mexicanos deslocados na Europa sem ver nisso qualquer contradição. Luna contesta sobretudo a facilidade com que se estabelece uma oposição entre Hollywood e um suposto cinema “puro” realizado fora dos grandes estúdios.
A experiência nos Estados Unidos mostrou-lhe que dimensão financeira e independência artística não são necessariamente conceitos antagónicos. Para ele, a verdadeira independência reside na existência de uma visão capaz de organizar todas as decisões de uma obra. “Hoje gosto de usar a palavra ‘independente’ para falar de um cinema que persegue um ponto de vista. Pode ser grande ou pequeno. Andor era tão independente quanto Ceniza en la boca. O que dá integridade a um projeto não é o orçamento nem o país onde é feito, mas a fidelidade a um ponto de vista.”
No caso de Ceniza en la boca, essa perspetiva passa inevitavelmente pela experiência pessoal do realizador. A ausência materna é um assunto particularmente sensível para Luna, que perdeu a mãe ainda criança e cresceu com o pai, o cenógrafo Alejandro Luna. À volta dos dois formou-se, porém, uma estrutura afetiva mais ampla. Outra família vivia na mesma casa e tornou-se parte fundamental da sua educação.
Essa memória reaparece na maneira como o filme interroga quem cuida de quem — e, sobretudo, a facilidade com que sociedades economicamente privilegiadas tornam invisíveis aqueles a quem entregam o trabalho de cuidar.
“Depois da morte da minha mãe, o meu pai teve de pensar constantemente na ajuda de que precisava para continuar e exercer, de alguma forma, também a maternidade que me faltava. Cresci como parte de duas famílias. Por isso, interessa-me muito a reflexão do filme sobre a desumanização com que tratamos aqueles que nos ajudam e cuidam de nós. A personagem procura o abraço materno que não teve e, paradoxalmente, passa a vida a oferecer aos outros exatamente aquilo que lhe faltou”, explica.
É nesse terreno que Luna aproxima Ceniza en la boca de uma tradição contemporânea que dissolve deliberadamente as fronteiras entre ficção e documentário. A fotografia de Damián García evita embelezar a precariedade e a montagem de Sofi Escudé acompanha Lucila sem transformar a sua experiência num catálogo de desgraças.
Mais do que ilustrar a imigração, interessa ao realizador devolver individualidade às pessoas que as grandes cidades frequentemente reduzem a uma função: a mulher que limpa uma casa, acompanha um idoso ou empurra o carrinho de uma criança que não é sua.
“Interessa-me cada vez mais o cinema em que deixamos de encontrar a fronteira entre documentário e ficção, aquele que se aproxima de uma realidade que existe. Gosto de filmes que nos ajudam a compreender o mundo que encontramos quando saímos da sala. Gostava que, depois deste filme, ao vermos uma mulher a cuidar de um bebé num parque, pensássemos que existe ali uma história que talvez estejamos a ignorar”, diz Luna.
Há nesse desejo um fio que recua até Y tu mamá también, o filme de Alfonso Cuarón que, em 2001, projetou internacionalmente Luna e Gael García Bernal. Para o ator, aquela experiência ensinou-lhe que vida privada e criação podiam contaminar-se de forma produtiva. Não era apenas uma interpretação sobre amizade: era uma história realizada ao lado daquele que considera um irmão e com quem partilhava códigos, referências e uma intimidade construída muito antes da rodagem.
Essa descoberta continua a determinar as suas escolhas. Por trás do Cassian Andor de Star Wars, do ator requisitado por Hollywood e agora do realizador que olha para mexicanos empurrados para as margens de Madrid permanece a mesma necessidade: encontrar alguma coisa de pessoal dentro de cada projeto.
Cinzas na Boca talvez seja a manifestação mais exposta dessa procura. Se a imigração lhe dá a dimensão política, a ausência e a necessidade de cuidar revelam a ferida íntima.

