Um filme para cantar o Rio de Moacyr Luz

(Fotos: Divulgação)

Pedra preciosa no garimpo de expressões narrativas do Festival do Rio de 2024, o documentário Moacyr Luz, o Embaixador Dessa Cidade, de Tarsilla Alves, finalmente encontrou um lugar à altura do ruído que provoca, ao farfalhar emoção numa cartografia ao mesmo tempo antropológica e poética do Rio de Janeiro. A sua dramaturgia mapeia um Rio lírico, que insiste em sorrir e cantar apesar de o Tempo o ter cancelado. As letras de Moacyr estão grávidas desse Rio, mas o filme vai para além da placenta. A obra acompanha a trajetória deste ícone da canção através das suas andanças pela cidade, entre bares e rodas de samba, revelando momentos marcantes da sua carreira. A produção inclui um registo inédito da sua primeira vitória numa disputa de samba-enredo, na Mangueira (escola tradicional do carnaval brasileiro). Tarsilla desvenda ainda o processo criativo por trás da canção Coração do Agreste, um sucesso fruto da inspiradora parceria com Aldir Blanc (1946–2020).

A realizadora ouviu amigos e colaboradores ilustres de Moacyr, como Zeca Pagodinho, Maria Bethânia, Fafá de Belém, Teresa Cristina e Jards Macalé. Eles partilham histórias e percepções que ajudam a compor o mosaico da personalidade carismática e do talento inigualável do músico.

Na entrevista que se segue, Tarsilla detalha cada tijolo da sua construção estética.

De que forma a música de Moacyr Luz serviu de guia para a sua dramaturgia e de que modo o filme, para além de um retrato dele, é uma celebração do samba?

O Moacyr é um músico de várias fases, com uma abrangência enorme, multifacetado — desde as canções com Aldir Blanc, valsas, sambas, músicas de novela, até às composições de samba e carnaval. A partir deste vasto arco musical, Hugo Sukman e Gabriel Meyohas fizeram um mapa das parcerias e das canções emblemáticas, para que nenhuma fase dele ficasse de fora. O Moacyr compõe cerca de 200 músicas por ano. Houve um trabalho ingrato da nossa parte em deixar muita coisa de fora da dramaturgia e, depois, ainda mais na montagem. Assim, o filme é guiado por essas fases, por esses parceiros tão diferentes, pela Roda do Trabalhador (uma apresentação de samba popular no Rio), que atravessa todo o filme. Conseguimos assim salpicar cada fase do Moa, para dar conta dessa trajetória musical. É uma celebração da resistência do samba, não é? Algo que nunca morre. Está lá Beth Carvalho, está o Luís Carlos da Vila, está o Zeca Pagodinho e o Samba do Trabalhador, a fazer sucesso há vinte anos. Como diz a música que o Luís canta no filme: “O tempo que o samba viver, o sonho não vai acabar e ninguém vai esquecer Candeia”. É uma beleza cantar isso junto com o Da Vila no filme!

O ponto mais arrebatador do seu filme é a forma como ele mapeia um Rio entre tempos, um Rio do Presente que também está impregnado de nostalgia. Como foi captar a essência dessa cidade?

Sou devota do Rio de Janeiro. Desse Rio que defendemos e amamos. Esse Rio em que saímos de casa de dia, celebramos o céu, os botequins, o samba de roda, a praia, os amigos, os encontros. O Moacyr Luz é um cronista do Rio de Janeiro, e ele vive todo o Rio, de ponta a ponta, da cobertura ao churrasquinho no Aterro do Flamengo, em frente à casa dele. Assim, cabia ao filme mostrar esse Rio de encontros através do olhar do Moacyr, nesse trânsito que ele faz pela cidade. Está no Flamengo e vai para o samba no Andaraí. Vai para Laranjeiras, Benfica, Mangueira, Vila Isabel, Copacabana, Tijuca… Ele não pára e descreve não só a cidade, mas também as personagens que nela habitam, nos seus botequins. É um privilégio imenso conhecer o Rio do Moa.

De que forma, ao biografar Moacyr Luz, transborda a sua própria relação com a cultura musical que ele simboliza?

Acho que usou a palavra certa: é mesmo um transbordar da minha relação com a música, pois ela é cultural, familiar, afetiva, de amizades. O Augusto Martins, músico que aparece no filme a cantar uma música do Moa com Paulo César Pinheiro, é meu amigo pessoal. Vi as coisas acontecerem naquela laje. Houve muitos churrascos, muitas reuniões. O meu filho tinha um ano e pouco e já entrava naquela piscina. Foi ali que me tornei amiga do Moa, que também entra na piscina. Acho que este transbordar da minha relação cultural e musical é que faz o filme acontecer. Tudo ali é verdadeiro. As relações, as músicas, o Samba do Trabalhador, o bloco (de carnaval) do Boi Tá Tá, que frequento sempre. Estou muito enraizada neste contexto. Foi muito prazeroso viver isto como realizadora, para poder colocar no filme a nossa laje, que já está a tornar-se numa cena cultural, repleta de músicos a gravarem no Estúdio Laje. O Moa produziu um disco do Augusto com Hélio Delmiro lá. Agora, Augusto e Hugo estão a lançar um disco do MPB-4 com participações de muitos talentos cariocas. Enfim, é arte que transborda mesmo.

Se Luz é um cronista musical do real, qual é a essência da sua crónica?

Na crónica do Moa, ele olha e conta aquilo que ninguém vê, aquilo que não se quer dizer. A essência é um olhar real sobre o Rio de Janeiro, a colocar as suas dificuldades em foco, a exaltar o nosso jeito de ser, a dar importância às personagens anónimas tanto quanto às famosas. Acho que ele capta as nuances cariocas, e esse modo particular, que só aqui existe, de não termos vergonha de ir à praia numa segunda-feira; de irmos ao samba nas segundas, religiosamente; de nos sentarmos a beber num botequim na quarta-feira, às onze da manhã, e chamarmos os amigos para celebrarem o encontro. Ele faz isso de uma forma que não esquece o que vivemos. Ao dizer “Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar”, ele faz uma súplica e, ao mesmo tempo, traz um sopro de esperança. Este é um pedido que ele canta todas as segundas, mas ele sabe que “circo vive é de ilusão”.

Como desenhou o trabalho sonoro do filme?

Foi complicado. Desenhamos a narrativa a partir dos dias da semana, e depois fomos encaixando os factos. Tinha de haver música de novela, os grandes parceiros, os novos parceiros, o Samba do Trabalhador. Gravámos muitos mais clips e canções do que os que estão no corte final do filme, mas há o trabalho de montagem do Vinicius Nascimento, que foi encontrar um caminho em que, por vezes, é o encaixe da história. É o caso do Moa na casa do Aldir Blanc, onde ele fala de uma história com Maria Bethânia e passamos para ela, a partir do que ele disse. Acontece o mesmo com Fafá de Belém e Zeca Pagodinho. Optámos por usar apenas as falas dele. São coisas que vamos descobrindo ao longo do caminho e na montagem. Tenho clips lindíssimos de grandes músicos que acabaram por não entrar, e isso dói-me um pouco, mas, no cinema, no fazer, temos de nos desapegar. São 70 horas de filmagem para 90 minutos de filme. Depois, tivemos a ideia das rodas (de música) que vão passando ao longo do filme. São várias etapas e muitas escolhas… e renúncias. Após este desenho, contámos com os nossos finalizadores, Daniel Lopes e Caio Barreto, que nos deram uma finalização luxuosa. Filmar uma roda de samba é um desafio, ainda mais o Samba do Trabalhador, que lota. Lá, o público está sempre em primeiro lugar. Aliás, deixo aqui o meu agradecimento ao Samba do Trabalhador, à Roda Filmes… e aos meus coprodutores, Pedro Gui e André Garcia.

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