Cristina Câmara tem em Portugal SA a sua terceira participação no cinema. Atriz que não se assume como tal de forma séria, vinda do mundo da moda, admite ter tido a sorte de já contracenar com alguns dos nomes mais importantes do cinema português. Ao c7nema revelou que prefere o cinema popular ao de autor e que espera novos projetos para continuar a sua carreira de atriz.
Estreou-se em Tentação (1997), depois voltou a trabalhar em Inferno (1999). Seguiram-se quatro anos sem nenhuma aventura no cinema. Alguma razão especial para esta pausa tão grande?
– Não. Este filme foi feito há dois anos, apesar de só agora estrear nas salas.
Então houve um hiato desde há dois anos…
– Sim, mas de qualquer forma não estou aqui com a mesma postura de outros atores que nasceram para isto. Tive uma profissão [modelo], entretanto surgiu outra. A minha postura não é levar isto tão a sério como outros o fazem.
Mas espero que esteja a pensar em continuar…
– (risos) Se surgirem propostas, sim. Este filme surgiu porque li o guião e achei-o fantástico. A personagem pareceu-me muito interessante.
Acha que o nosso país é o retrato chapado do que se passa no filme?
– Acho que não é só no nosso país. Infelizmente, a ideia que tenho é que a política é um bocado assim. Que me perdoem os políticos se estiver errada, mas então que mostrem a verdadeira imagem (risos). O certo é que as pessoas sentem que a política hoje em dia é isto. Talvez quando tudo começou houvesse outro ideal, de mudar o mundo. Agora é uma luta pelo poder.
Até agora tinha trabalhado sempre com o Joaquim Leitão. Como foi esta experiência com outro realizador, e logo o Ruy Guerra?
– Porquê “logo o Ruy Guerra”?
Pelo seu historial dentro do cinema novo brasileiro.
– Ah, sim (risos). Foi importante trabalhar com outras pessoas, embora o Quim [Joaquim Leitão] seja especial para mim. Adorava voltar a trabalhar com ele muitas vezes. Filmar com o Quim foi como fazer um curso de atriz: trabalhava e aprendia ao mesmo tempo.
Quando falei com o Tino Navarro, ele referiu o novo projeto do Joaquim Leitão, Até Amanhã, Camaradas [série que estrearia na SIC no final de 2004]. Já recebeu algum convite?
– Não. Para já nem sei se existirá alguma personagem para mim. Sei apenas que esse projeto vem de trás, com outro realizador, mas mantiveram a equipa. É uma atitude de louvar.
Neste filme vi talvez uma das “femme fatale” mais bem retratadas do cinema português. Gosta desta etiqueta?
– Gosto, porque é suposto ela ser uma “femme fatale”: uma mulher bonita, mas “fatal” para os outros. Se a vê assim é porque atingi o meu objetivo.
Foi difícil entender aquele jargão da alta finança? Tiveram algum auxílio exterior ou limitaram-se aos diálogos?
– Pelo menos eu limitei-me aos diálogos. Mesmo que tivesse feito uma pesquisa aprofundada e descobrisse que não era nada daquilo, não ia mudar nada. O guião é para seguir estritamente.
Foi preciso muita coragem para retratar uma mãe solteira toxicodependente em Tentação, ainda por cima envolvida com um padre. Neste Portugal SA, acho que a sexualidade (ou sensualidade) é mais forte, embora com menos nudez. Concorda?
– Sim. Ela usa o sexo como arma. Não há nudez, mas há essa atitude de usar o sexo como ferramenta.
Provavelmente também não havia necessidade de mostrar o corpo…
– Sim. E também não vinha no guião, porque não se justificava.
Acha que temos mulheres como a Fátima [a sua personagem], em Portugal?
– Penso que sim. Já existem mulheres assim há várias gerações: independentes, inteligentes e poderosas. Até porque as mulheres ainda hoje têm de trabalhar mais e ser mais perfeitas para alcançar o mesmo que os homens. Mesmo na política acredito que seja assim. Basta ver o reduzido número de mulheres em cargos de liderança.
Já teve oportunidade de contracenar com alguns dos melhores atores portugueses…
– Tenho essa sorte. Apesar de ter poucos filmes no currículo, é como se tivesse feito muitos. Foram poucos, mas muito gratificantes: pelo guião, pelas personagens e pelos colegas.
E com o Diogo Infante? Foi fácil o vosso relacionamento profissional?
– Sim. Ele é um grande profissional. Quando as pessoas são assim, facilitam as coisas. A experiência dele nota-se e transmite segurança. Em cenas mais íntimas, esse profissionalismo faz toda a diferença.
E projetos para o futuro?
– Para já nada (risos).
Está à espera de algum convite?
– (risos) Ao contrário do que acontece lá fora, não tenho agente. Lá fora são os agentes que procuram personagens para os atores.
Leva isto “na desportiva”…
– É verdade. Mas quando faço os filmes, não. Tenho tido projetos que me entusiasmam muito. Agora estou aberta a propostas, mas não aceito qualquer coisa. Tem de ser um projeto aliciante.
Portugal SA poderá ser o grande “blockbuster” português de 2004. O que acha?
– Gostaria muito, obviamente.
A conjuntura de crise em que o país está mergulhado despertará a curiosidade dos portugueses para ver o filme?
– Espero que sim. Às vezes não desperta e o filme até é bom, mas as pessoas não vão ver. Este não é um filme parado: tem ritmo, estilo e uma história fantástica. Seria bom que fosse um sucesso, até porque o cinema português precisa de “um pontapé”.
Já foi ver Os Imortais?
– Já.
Gostou?
– Gostei. O António-Pedro [Vasconcelos] é um realizador com quem me identifico.
É um bom contador de histórias.
– E não é chato (risos).
Ou seja, presumo que seria alguém com quem estaria disposta a trabalhar.
– Sem dúvida, especialmente porque me identifico com a sua obra.
Não é aquele cinema de autor, é isso?
– Sim. Não quero dizer que goste das “americanadas”, que também acabam por ser chatas. Estou no meio termo.
Se lhe disser nomes como João César Monteiro ou Manoel de Oliveira, não são muito o seu estilo?
– Não. Confesso que não. Não é o tipo de cinema que me interessa como espectadora.
Gosta mais de “cinema de entretenimento”?
– Não só. Também já vi muitos filmes de que aprendi bastante. Tentação, sendo entretenimento, carrega uma mensagem, é didático. Há muitos filmes assim, que nos ensinam algo sobre a vida, factos ou história.
Entrevista realizada por Nuno Centeio

