IndieLisboa’12: Entrevista a Dominga Sotomayor, realizadora de «De Jueves a Domingo»

(Fotos: Divulgação)

Com o triunfo no prestigiado Festival de Roterdão na bagagem, De Jueves a Domingo chegou agora ao IndieLisboa em competição, sendo mesmo um dos principais candidatos ao Prémio principal.

Nesta road trip pelo Chile, assistimos à desintegração de uma família como se estivéssemos do banco de trás da viatura.  O c7nema teve a oportunidade de falar com Dominga Sotomayor, a realizadora que nos explicou as dificuldades em filmar uma obra deste tipo e a forma como as suas experiências pessoais contribuíram para alimentar a narrativa. 

Este é o teu primeiro filme, foi muito difícil fazê-lo? Tanto a nível de financiamento, como a nível de credibilidade, porque ontem (na exibição do filme no festival) disseste que tinhas feito algumas curtas, mas esta é a tua primeira longa. 

Foi muito diferente das curtas, porque as curtas foram todas exercícios da universidade, da escola, com amigos, grátis… então foi difícil conseguir todo o financiamento, porque é um filme um pouco diferente, na sua estrutura, então conseguir os fundos foi um pouco difícil e para além disso, apesar de parecer um filme pequeno (e é um filme pequeno e íntimo), havia toda uma grande equipa atrás e não era tão barato fazê-lo, porque tínhamos de viajar com toda a equipa, tínhamos de pôr uma câmara sobre um carro. Por outro lado, esta era uma dificuldade que me interessava, ou seja, como objetivo, era fazer um primeiro filme todo o tempo dentro de um carro e com crianças. Todas as pessoas me diziam: estás louca! É melhor filmar numa casa … Então, foi complicado, mas tinha o desafio. Finalmente conseguimos financiamento fora do Chile, primeiro, e terminei de escrever o guião na Residência da Cinéfondation do Festival de Cannes e isso como que validou o projecto.

Os planos no carro, foi muito difícil? Tinhas ideia de que ia ser tão complicado filmar o filme ou não são tão complicadas como parece? 

Sim, é complicado, mas há um sistema. Pensámos tudo muito bem e tínhamos um grupo de grip, portanto, sim, foi complicado, mas havia um bom sistema. Ou seja, é muito mais complicado do que filmar numa casa ou em qualquer outro lugar, mas tínhamos dois carros idênticos e idealizámos uma forma para filmar… não foi rápido, foi muito lento.

Mas já tinhas experiência de antes, nas tuas curtas?

 Não, foi algo novo, mas muito planificado e dentro do carro eu tinha uma lógica de ter poucos planos. Desenhei um esquema com (creio) seis posições de câmara e toda a equipa já o conhecia, conhecia a A1, A2, B2, B1… todo o sistema.

E não houve problemas de estar a filmar enquanto guiavam? Perigos, dificuldades?

Todas as dificuldades! [risos] Para além disso, por vezes, tínhamos de voltar atrás e demorávamos muito, e não havia ar condicionado no carro, porque era um carro velho… uma série de coisas, mas fomo-nos adaptando e metía-mos-nos todos dentro do carro para filmar, todos apertados.

Trabalhar com crianças, foi muito complicado? 

Sim, mas o filme é sobre isso mesmo. A maior dificuldade foi que queria que estes miúdos fizessem uma viagem real, mas também não queria tirar-lhes um mês da sua vida. Aterrava-me a ideia de usar crianças num filme para adultos, por isso toda a energia pu-la em fazer com que fosse uma viagem agradável para eles, o mais cronológica possível, para que o fossem sentindo como a passagem real do tempo, para isso também se ver na evolução da personagem. Mas, sim, foi complicado. Trabalhei com uma coach durante a rodagem que me ajudou a tomar conta deles e fomos preparando cena a cena, porque eu não queria que eles tivessem o guião. O rapaz era mais complicado porque era muito imprevisível, muito pequeno, muito louco. Por outro lado, claro, valeu a pena porque ele traz muita vida. Foi interessante, não sei se muito difícil.

Como os encontraste? 

À rapariga encontrei-a a brincar com a minha irmã mais nova, na piscina.

Viste-a e disseste: esta miúda sabe representar? 

Não estava à procura de crianças atores, estava à procura de crianças que tivessem uma certa complexidade genuína e daí levá-los a um tom, a uma personagem. Creio que não estava à procura muito longe da personagem, estava à procura de algo mais próximo. Apesar da personagem dela não ser como ela, mas está perto. Aconteceram-lhe coisas parecidas e pareceu-me interessante como pessoa. Foi tudo muito intuitivo. Encontrei-a um ano antes da rodagem e fiquei com a ideia que tinha de ser ela, mas quando chegou às filmagens estava maior. A personagem tinha de ter 9/10 e ela tem 11. Então, fiquei com muitas dúvidas, não sabia se havia de fazer um casting. Finalmente, decidi trabalhar com ela. Não conseguia imaginar o filme com outra e, para além disso, senti que, se fosse um pouco mais velha, faria sentido. Assim estaria numa etapa mais crítica, mais distante da do irmão. Este conflito de estar a deixar de ser uma criança e compreender melhor o que se passa. No caso do rapaz, a minha mãe – que é atriz no Chile – ajudou-me com o casting. Portanto, a Santi [Ahumada] encontrei-a eu . A ele procurámo-lo dentro do bairro, porque procurávamos alguém sem nenhuma experiência. Creio que o vimos e pensámos que poderia ser ele. Quanto aos carros velhos, é curioso porque, apesar de se passar por volta dos anos 90, com os carros mais velhos fica-se com a ideia que é mais antigo e tu consegues misturar muito bem a tristeza do que se passa, a nostalgia e a ilusão de se ser criança. Com o carro reforça-se essa ideia de que, apesar de não se ter passado tanto tempo, parece mais longínquo. 

 Ontem perguntavam-me: como conseguiste recriar os anos 70? Eu fiquei espantada: 70? É muito curioso o que se passou, porque todas as pessoas me dizem que é como a sua infância, desde a senhora de 80 anos, até às crianças. Acho que, um pouco inconscientemente, o meu objectivo era fazer como que o genérico da infância, um genérico do passado. Então, não queria ter uma época muito definida, apenas uma sensação de algo do passado, sempre recordando o tempo presente. É isso: é como uma memória em tempo presente. Então, está a nostalgia das minhas viagens, está a nostalgia de todos estes elementos de diferentes épocas, tal como a nostalgia de muitos elementos juntos num mesmo momento. Tinha vontade que não fosse nem nenhum lugar, nem nenhuma época. Há alguns automóveis modernos na estrada, mas este carro, parece-me que há famílias que têm carros assim porque os herdaram e havia algo diferente com estes automóveis antes. Eram como uma casa. Queria fazer do carro uma personagem que se fosse transformando também, porque parte muito limpo e também termina tão desestruturado como eles.

Como conseguiste equilibrá-lo? Porque, como a filha se vai apercebendo de que os pais se vão separar, podia acabar algo muito pesado, mas conseguiste equilibrar muito bem a ilusão da brincadeira com o irmão e o compreender que os pais se vão separar. 

Eu acho que a ideia original do guião era como que chegar ou antes ou depois das situações, um pouco como se o que estivesse no meio não fosse importante. Não queria chegar a um momento de crise, jogar com as transições e chegar antes do momento. Isto tem que ver com a forma como os miúdos se dão conta das coisas, pegando no que não se diz e adicionando pequenos elementos, ao mesmo tempo que o espectador se vai dando conta como a rapariga. Por outro lado, também queria jogar com essa leviandade, com essa espécie de perigo, como que há um equilíbrio entre esta loucura de estar em cima do carro e poder cair e estar a divertir-se.. Acho que tem a ver com a forma como são as crianças, de ter todas as emoções ao mesmo tempo.

Foi muito difícil escrevê-lo? 

Não. Estive muito tempo a pensá-lo. Como uma vida [risos]. Não, mas pensei-o muitos anos e depois escrevi-o muito rápido. 

É autobiográfico? 

Tem alguns elementos autobiográficos: as viagens, está cheio de pequenas observações que fiz de muitas viagens, de muitas pessoas. Tudo, de alguma forma, vem da realidade, mas coisas diferentes, como se metesse tudo numa bolsa e as estruturasse. 

O prémio que ganhaste em Roterdão ajudou a distribuir o filme? 

Foi um bom começo para o filme, porque era a estreia mundial e é um festival super importante, então acho que ajudou a chamar a atenção para os outros festivais. O que queria é que fosse o mais visto possível e que chegue às pessoas. Ajudou,mas é um filme difícil de estrear comercialmente. Agora vai estrear no México, mas no Chile ainda não temos distribuição.  

Mas achas que não há público? 

É mais simples fazer o circuito dos festivais, a seguir vamos estrear em alguns países, França, Chile, mas não é um filme de bilheteira. Tem o seu ritmo.Por outro lado, ainda que, entre aspas, possa ser um filme autoral, todos esses termos que se usam, também é um filme muito simples e tem que ver com as recordações de infância de todos. Estão sempre a dizer-me que as pessoas se ligam emocionalmente a ele.

Planos para o futuro? 

Sim, muitos planos! [risos] Estou a escrever outro filme que se chama Tarde para morrer jovem. É um filme que vai seguir um pouco a linha deste, mas é um pouco maior, tem muitas personagens, é numa comunidade. Entretanto quero fazer outros projetos mais pequenos.

Curtas ou longas? 

Não sei. Concretamente este é o meu próximo projeto mais formal e tenho outras coisas para ver, porque me convidaram para um filme mais pequeno em Copenhaga e talvez filme na Europa.

 
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