Após “Titane”, Julia Ducournau celebra o matriarcado em “Alpha”

(Fotos: Divulgação)

Ao ouvir de um jornalista que “Alpha“, em concurso pela Palma de Ouro de Cannes de 2025, é um filme superior a “Titane“, Julia Ducournau rejeitao o tom de provocação nas entrelinhas do elogio e saiu por uma tangente delicada: “A ideia é mesmo essa, é progredir“. A longa-metragem citada na conferência de imprensa da realizadora francesa nesta terça-feira ganhou o prémio máximo do festival em 2021 e só fez dividir opiniões desde então, com apaixonados e detratores. Era um guião ousado, 100% original, sobre uma mulher com uma placa de titânio na cabeça que engravida de um… automóvel. Era um body horror, com mortes e vísceras. O novo exercício narrativa de Julia mantém a linha autoral de tramas ligadas ao organismo, a veias e órgãos. Se no seu escandaloso sucesso de antes havia um drama sobre paternidade (com um bombeiro que se injetava testosterona), na atual película fala-se de “frátria” e “mátria”, ou seja, irmãos e mães.

Eu retrato uma realidade pós-industrial em que o capitalismo segregou as pessoas, a ponto de jogar umas contras as outras, o que me leva a dividir ‘Alpha’ em dois tempos, com cores distintas, saturadas de um modo distinto” disse Ducournau ao C7nema.

Uma vez mais, Ducournau rachou os sensos na Croisette. A única unanimidade em relação ao que se viu em “Alpha“, em seu jorro imagético devastador, é o desempenho da jovem atriz Mélissa Boros. Ela vive uma adolescente de 13 anos que descobre o desejo sexual, sob a recorrente tentação de um colega de escola, num momento em que uma doença transmitida pelo sangue destrói multidões, sobretudo dependentes químicos. A peste se chama Vento Vermelho. É difícil não pensar na SIDA ao ver como o contágio se deflagra, por meio de agulhas infectadas.

A nossa preparação, bem intensa, passou pelo corpo, com a prática de desporto“, disse Mélissa, que tem uma comovente interação com Golshifteh Farahani e Tahar Rahim.

Os dois interpretam irmãos. A médica chamada só de Maman precisa ajudar o mano Amin (Rahim, em impecável atuação), que está com os sintomas do tal Vento Vermelho. A sua carne endurece e esfacela, em meio a uma fraqueza crónica. Alpha testemunha o seu calvário ao mesmo tempo em que corre o risco de estar contaminada após ter feito uma tatuagem sem a higiene adequada.

Emoções e medos estão à tona na tela, conforme eu convido a plateia a se colocar no lugar do outro. É o princípio do cinema que faço“, diz Ducournau, que se destacou pela primeira vez em 2016, com “Grave“.

Golshfiteh está a gravar um novo projeto o que impediu sua ida à Croisette. Sem ela, o carisma de Rahim, revelado em 2009 com “Um Profeta” (Grande Prémio do Júri em Cannes), tomou conta da roda de conversa com jornalistas.

Só tens a noção de como um/uma cineasta filma quando o set é aberto, mas tive a impressão de que a Julia e eu falamos a mesma língua quando li o guião. Estava tudo lá“, diz Rahim. “Amo desafios e a questão em ‘Alpha’ era explorar a minha relação com a irmã“.

Depois de impressionar o Palais des Festivals com uma sequência numa piscina na qual nadadores fogem de Alpha, Ducournau explica que fez o filme a fim de debater a maternidade. “O amparo amoroso é a única coisa que pode tornar as fraturas da vida toleráveis“, diz a cineasta. “Cresci no matriarcado e quero falar dele“.

Cannes segue até o dia 24 maio.

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