Morreu esta segunda-feira, 8 de fevereiro, aos 89 anos, o escritor, dramaturgo e argumentista Jean-Claude Carrière.
Com mais de 150 créditos na escrita para cinema e televisão, e cerca de 40 na atuação, sempre em pequenos papéis ou figurações, Carrière nasceu a 17 de setembro de 1931 em Colombières-sur-Orb, sul de França, numa família de viticultores que viviam num local “sem água corrente, sem livros e sem imagens“, como contou em “Le Vin bourru” em 2000. Um curioso início para um homem que teve como primeiro romance “Lézard“, publicado em 1957. Também escreveu alguns romances de terror sob o pseudónimo de Benoît Becker, e conheceu Jacques Tati, com quem colaborou na novelização de “As Férias do Sr. Hulot” e, posteriormente, na de “O Meu Tio“.

Tornou-se parceiro de trabalho de Pierre Etaix, primeiro com a curta-metragem “Rupture” (1961), que correaliza, e depois em filmes como “O Apaixonado” (1962), “Entretanto Haja Saúde” (1966) e “O Grande Amor” (1969). Pelo caminho ainda adaptou ao cinema “Diário de Uma Criada de Quarto” (1964), realizado por Luis Buñuel, com quem mais tarde voltaria a trabalhar em “A Bela de Dia” (1967), “A Via Láctea” (1969), “O Charme Discreto da Burguesia” (1972), “O Fantasma da Liberdade” (1974) e “Este Obscuro Objecto do Desejo” (1977).
“Buñuel era como um equilibrista na corda bamba sobre um fio. Não queria cair na banalidade, nem no extraordinário no sentido de delírio gratuito. O seu trabalho era um equilíbrio muito mais delicado do que parecia. Para encontrá-lo, uma de nossas técnicas consistia em imaginar um casal de franceses comuns, chamados Henri e Georgette, que participavam de todo o processo. De vez em quando, falávamos com eles. E quando uma vez ofereci a Buñuel uma ideia que considerou extravagante, juntou os papéis, levantou-se e, antes de sair da sala, voltou-se para mim e disse: ‘Venha Georgette, vamos embora, este filme não é para nós.‘”, explicou Jean-Claude Carrière numa entrevista ao L’Obs, em 2018, onde também destacou a melhor decisão que alguma vez tomou na vida. “A melhor decisão que tomei na vida foi nunca ser realizador. Foi sugerido desde o início, mas sempre fiz da escrita uma prioridade: não só os argumentos, mas também o teatro e a literatura. O grande problema do realizador é que você é o único responsável pelas suas falhas. E quando você está a realizar filmes, não podes mudar de atividade: esta função tem precedência sobre tudo o resto e ficas preso nisso. Jean Renoir escreveu alguns livros muito bons, mas nunca interessaram a ninguém.“
Na sua carreira, o francês também trabalhou com filho de Luís Buñuel, Juan Luis Buñuel, em “Leonor” (1975) e “A Mulher das Botas Vermelhas” (1974), e com a antiga esposa deste, Joyce Buñuel, em “Salsa” (2000), somando-se ainda diversas colaborações com Louis Malle (O Ladrão de Paris, 1967; Viva Maria!, 1965), Jesús Franco (Cartas na Mesa, 1966; Miss Muerte, 1966), Marco Ferreri (Liza, a Submissa, 1972), Milos Forman (Os Amores de Uma Adolescente, 1971; Valmont, 1989; Os Fantasmas de Goya, 2006), Luis García Berlanga (Tamanho Natural, 1974), Alain Corneau (França, Sociedade Anónima, 1974), Patrice Chéreau (A Rapariga da Orquídea, 1975), Philippe de Broca (Que faria você no meu lugar?, 1977), Volker Schlöndorff (O Tambor, 1979; A Paixão de Swann, 1984; O Ogre, 1996; Ulzhan, 2007) e Jean-Luc Godard (Salve-se Quem Puder, 1980).

Na década de 1980, apesar de continuar muito ativo no cinema, escrevendo o guião de filmes como “Antonieta” (1982), de Carlos Saura, “O Caso Danton” (1983) e “Os Possessos” (1988), de Andrzej Wajda, “Max, Meu Amor” (1986), de Nagisa Ôshima, e “A Insustentável Leveza do Ser” (1988), de Philip Kaufman, a TV começou a conquistar cada vez mais a sua atenção, voltando a encontrar um dos seus mais longos parceiros na 7ª arte, Jacques Deray (A Piscina, 1969; Borsalino, 1970 – entre muitas outras), com quem escreveu o telefilme “Credo” (1983).
Para Jean-Paul Rappeneau adaptou “Cyrano de Bergerac” (1990) e “O Hussardo no Telhado” (1995); com Hector Babenco trabalhou no guião de “A Brincar nos Campos do Senhor” (1991); com John Amiel colaborou em “Sommersby, o Regresso de Um Estranho” (1993) e com Jonathan Glazer desenvolveu “Birth – O Mistério“. Não fica por aqui a “coleção” de grandes nomes do cinema com quem colaborou, já que temos de adicionar ainda Wayne Wang (Chinese Box, 1997), Fernando Trueba (El artista y la modelo, 2012), Atiq Rahimi (Syngué sabour, pierre de patience, 2012), Julian Schnabel (Até à Eternidade, 2018), e até a adaptação da obra de Gabriel García Márquez, “Memoria de mis putas tristes” (2011), realizado por Henning Carlsen. Para Michael Haneke, serviu como consultor do guião de “O Laço Branco“.

A Piscina 
O Tambor 
Cyrano de Bergerac 
A Insustentável Leveza do Ser“ 
Valmont 
Chinese Box
Finalmente, e nos últimos anos, acompanhou de perto o cinema de Philippe Garrel, trabalhando em guiões como “O Amante de Um Dia” (2017) e “O Sal das Lágrimas” (2020). Jean-Claude Carrière deixa ainda por estrear dois filmes baseados nos seus escritos: “La croisade“, de Louis Garrel, com quem já tinha trabalhado em “Um Homem Fiel” (2018), e “Land of Dreams“, de Shoja Azari e Shirin Neshat.
Apesar de ser vencedor de um Oscar Honorário em 2015 e de ter contado com várias nomeações aos Césars, Baftas e até Goyas, Carrière recusou a maioria dos convites para participação nos eventos, mantendo-se fiel à sua recusa desse tipo de notoriedade. Ainda assim, esteve presente na noite mágica do cinema de Hollywood, tendo dito no seu discurso de aceitação: “Gostaria de dizer algo sobre o facto deste Oscar ir para um argumentista. Fico muito feliz com isto, porque muitas vezes os roteiristas são esquecidos ou ignorados. São como sombras que passam pela história do cinema. Os seus nomes não aparecem nas avaliações.Mesmo assim, são cineastas. É por isso que esta noite gostaria de compartilhar esta pequena estátua de valor inestimável com todos os meus colegas, os que conheço, e os que não conheço, de todo o mundo.“


