Morreu ‘Pino’ Solanas, figura de proa do “Terceiro Cinema”

"O cinema argentino não tem contato com a realidade”, refletiu o cineasta nos últimos anos.

(Fotos: Divulgação)

Figura de proa do apelidado Terceiro Cinema, ao lado de cineastas como Glauber Rocha, Luis Ospina e Med Hondo, movimento que surgiu na década de 1960 em oposição a uma linguagem cinematográfica dominante, comercial e ditada principalmente pelos Estados Unidos, o cineasta e político argentino Fernando Ezequiel ‘Pino’ Solanas faleceu hoje em Paris aos 84 anos, vítima do novo Coronavirus. Internado a 16 de outubro, o realizador ainda chegou a publicar no Twitter, no passado dia 21 de outubro, que a sua situação clínica era “delicada”, apelando a todos que cuidassem bem das suas saúdes.

Nascido em  Olivos, na província de Buenos Aires, a 16 de fevereiro de 1936,  ‘Pino’ Solanas estudou literatura, música, dança e direito e estudou artes cénicas no Conservatório de Artes Dramáticas. 

Foi em 1962 que realizou a sua primeira curta-metragem de ficção, “Seguir andando”, presente no Festival de San Sebastián, tendo criado para o efeito a sua própria produtora de filmes. No ano seguinte filmou “Reflexión ciudadana”, mas viria a chamar a atenção  em 1968, quando juntamente com amigo e colega Octavio Getino, grava secretamente “La hora de los hornos: Notas y testimonios sobre el neocolonialismo, la violencia y la liberación”, um documentário sobre o neocolonialismo e a violência na Argentina e na América do Sul, dividido em três partes.

Sempre comprometido com a sua visão política,  entrevista o exilado Juan Domingo Perón e materializa “Perón: Actualización política y doctrinaria para la toma del poder em 1971. Com “Los hijos de Fierro” – que começa a filmar em 1972, mas só completa em 1978 na Europa, onde também se exilou – Solanas prossegue na sua primeira longa-metragem de ficção a visão peronista da história entre o outono de 1955 e o triunfo eleitoral de 1973, usando uma metáfora do poema “El Gaucho Martín Fierro“.

Em 1985 é premiado em Veneza com “El exilio de Gardel (Tangos)” e recebe o prémio de melhor realizador no festival de Cannes pela sua longa-metragem “Sur”, em 1988. Segue-se “El Viaje”, prémio ecuménico em Cannes em 1992, e em 1998 apresenta em Veneza “El Nube”. Pelo meio, em 1992, é  eleito senador pela cidade de Buenos Aires e em 1993 foi deputado pela Frente Grande, afigurando-se como um dos grandes críticos do presidente argentino Carlos Menem, que implementou uma política neoliberal profunda no país de 1989 a 1999.

A partir de 2004, quando estreou “Memoria del saqueo” (2004), o documentário transformou-se na única forma de trabalhar até ao final dos seus dias, deixando inacabado “Tres en la deriva del caos” , um diálogo íntimo com dois amigos do mundo das artes: o pintor Luis Felipe “Yuyo” Noé e o dramaturgo “Tato” Pavlovsky. 

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