Boris Gerrets tinha 72 anos

Morreu no passado dia 26 de março o holandês Boris Gerrets, um documentarista, montador e artista visual cujos trabalhos foram exibidos algumas vezes em Portugal, como em 1989, na Fundação Calouste Gulbenkian, ou no Festival Avanca em 2014, onde exibiu e foi premiado pelo documentário Shado’man.
Nascido em Amsterdão em 1948, filho de diplomatas, Boris cresceu entre a Holanda, Espanha, Alemanha e Serra Leoa, trabalhando igualmente como dançarino, antes de se estrear na realização em 2004 com Garden Stories (2004), uma ode à agricultura urbana, com hortas em São Petersburgo e Detroit como pano de fundo. Em Droomrijders (2006), o seu segundo documentário, Gerrets viajou pelas estradas, postos de gasolina, estacionamentos e lavagens de carros para mostrar a forma anónima destes locais, isto num trabalho que nasceu depois da notícia de um homem que morrera após ser atingido numa estrada com uma pedra.

Em 2010 levou ao Festival Internacional do Documentário em Amesterdão (IDFA) People I Could Have Been and Maybe Am, projeto todo executado com recurso a um telemóvel, e em 2013 regressou à Serra Leoa para retratar os sem-abrigo, mendigos e párias da capital Freetown no ja falado Shado’man.
Gerrets lecionou e ministrou masteclasses em vários certames e universidades internacionais, sendo recordado pelo Festival Visions du Réel numa mensagem no Facebook publicada hoje.
O diretor deixou ainda terminado este ano um novo documentário, The Lamentation of Judas, projeto com o apoio do Arte France que acompanha a recriação da história de Judas Iscariote com recurso a ex-combatentes do chamado Batalhão Búfalo (ou “Os Terríveis”, como ficaram conhecidos em Angola), um batalhão de infantaria do exército sul-africano, do tempo do regime do apartheid, que interveio na Guerra Civil Angolana.
No meio da recriação da história bíblica, e segundo a descrição escrita pelo cineasta, “o filme coloca em foco o paradoxo de ser perpetrador [de crimes] e vítima. Reflete sobre a noção de traição e livre-arbítrio, ao mesmo tempo que fornece uma visão convincente daqueles à margem da história”, e que atualmente definham nas ruínas de Pomfret, uma antiga cidade mineira situada à beira do deserto de Kalahari.

