Berlim é a nova Meca das celebridades, na reformulação do festival

(Fotos: Divulgação)

Na sua 70ª edição, repleta de brasileiros, incluindo ‘Desalma’ e ‘Onde está meu coração’ do Globoplay, a Berlinale recebe estrelas como Johnny Depp, Elisabeth Moss e Javier Bardem

Javier Bardem, Salma Hayek e Elle Fanning têm um compromisso marcado na Alemanha por estes dias. Eles integram o rol de celebridades convocadas para desfilar pela Berlinale 2020, que vai ter ainda a badalada Elisabeth Moss (de “The Handmaid’s Tale“) e o eterno Jack Sparrow, Johnny Depp nas suas fileiras. Alguns vão estar na disputa oficial: Bardem, Elle e Salma vão se revezando no filme “The Roads Not Taken”, da inglesa Sally Potter, um dos 18 concorrentes ao Urso de Ouro deste ano.

Já Moss protagoniza “Shirley”, thriller com evocações ao universo do horror escolhido para a seção competitiva Encontros. Mas tem muita estrela do mais alto quilate em mostras paralelas. É o caso do atual titular do posto de Peter Parker na franquia “Homem-Aranha”, Tom Holland. Ele vai passar pelo 70º Festival de Berlim esta sexta-feira, ao lado de um dos galãs mais em voga em Hollywood na atualidade: Chris Pratt, o Starlord de “Guardiões da Galáxia”. Os dois estão na dianteira de uma equipa de estrelas que, há tempos… mas tempos mesmo… a maratona cinéfila alemã não via igual. Ao lado deles estará a vencedora do Oscar Octavia Spencer (de “As Serviçais“) e Julia Louis-Dreyfuss, a Elaine de “Seinfeld“.


Shirley

Basta notar que, no mesmo dia em que Holland, Pratt, Octavia e Julia aterram na capital da Alemanha – com a animação “Onward”, à qual os quatro emprestam as suas vozes, Johnny Depp aportará por lá, para mobilizar multidões de fãs. Ele vai defender o drama “Minamata“, baseado nos feitos do fotógrafo W. Eugene Smith, que será exibido no fim de semana. Mas a primeira celebridade a fincar os pés no evento foi Sigourney Weaver, eternamente lembrada como a tenente Ellen Ripley da saga “Alien“. Ela é a força motriz do belo “My Salinger Year“, radiografia irónica do mercado literário a ser exibida nesta quinta, na abertura da 70ª edição da Berlinale. O seu papel: uma agente literária avessa a computadores que cuida da obra de J. D. Salinger (1919-2010), autor de “The Catcher in the Rye“, nos anos 1990. A multidão de gente atrás de uma foto com ela faria inveja a muitos astros do presente.

Improvisei certas partes do filme contando com um diretor que confia nosseus atores“, disse Sigourney na conferência de imprensa de “My Salinger Year“.

É uma edição que aponta uma série de transformações para esta vitrine europeia de filmes e séries: aliás, duas produções do Globoplay – “Desalma”, da Ana Paula Maia, e “Onde Está Meu Coração”, de George Moura e Sérgio Goldenberg – integram a programação. Esses dois projetos reforçam uma equipa de brasilidades ao lado dos 19 filmes nacionais. Essa é a maior participação do país num dos grandes festivais da Europa.

Uma dessas produções concorre ao Urso de Ouro: “Todos os mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra. No seu elenco estão Mawusi Tulani, Clarissa Kiste, Carolina Bianchi, Gilda Nomacce e Andréa Marquee. A trama passa-se na São Paulo de 1899, onde os fantasmas do passado ainda caminham entre os vivos, quizilando as mulheres da família Soares. Elas são antigas proprietárias de terra, que tentam se agarrar ao que resta de seus privilégios. Para Iná Nascimento (papel de Mawusi), que viveu durante muito tempo escravizada, a luta para reunir seus entes queridos em um mundo hostil a conduz a um questionamento de suas próprias vontades. Entre o passado conturbado do Brasil e seu presente fraturado, cheio de in tolerância, essas mulheres tentam construir um futuro próprio.

Esse bloco de produções falantes da língua portuguesa procuram o prestígio internacional, a partir da Alemanha, num momento em que o Berlinale Palast, o centro nervoso das exibições e da luta pelo Urso, vai acolher uma esquadra de rostos famosos de diversas nacionalidades e idades. Não é por acaso que a presidência do júri foi confiada a um ator vencedor do Oscar: o inglês Jeremy Irons (de “O Reverso da Fortuna“). E entre os seus colegas do jurado está o realizador pernambucano Kleber Mendonça Filho, do premiado Bacurau. No júri, há ainda uma atriz indicada ao Oscar: a franco-argentina Bérénice Bejo (de “O Artista“), em cartaz em França com Le Prince Oublié. “O cinema brasileiro está a viver  um momento de desmantelo, mas, mesmo assim, conseguimos ter 19 filmes aqui, o que mostra o momento bom de nossa produção”, disse Kleber, ao ser questionado sobre as tensões políticas do Brasil de hoje.


Police

Ainda na linha dos rostos célebres… da França, vem um ator que virou sinónimo de salas lotadas: Omar Sy, um dos protagonistas de “Amigos Improváveispt/Intocáveisbr” (2011), filme visto por cerca de 20 milhões de espectadores no seu país. Ele vem divulgar “Police“, um filme de ação dirigido por Anne Fontaine. Um outro campeão de bilheteria da Europa que vai visitar a Berlinale é o italiano Roberto Benigni, vencedor de dois Oscars (o de melhor ator e o de melhor filme estrangeiro) por “A vida é bela” (1998). Ele interpreta o carpinteiro Geppetto em “Pinóquio”, uma superprodução de Matteo Garrone, diretor de “Gomorra” (2008) e “Dogman” (2018). Da América Latina hispânica, vem Cecilia Roth (atriz de Almodóvar em “Tudo sobre minha mãe” e “Dor e Glória“), que protagoniza a longa-metragem argentina “El Prófugo“, de Natalia Meta, em competição.

Nota-se, pela escolha das longas em disputa este ano, um sinal explícito de renovação do festival, que segue até 1 de março. É uma forma de espanar a poeira de decepção de suas edições mal curadas de anos recentes, carentes de rostos célebres. Dos realizadores de vasta ficha de bons serviços prestados às narrativas escolhidos para concorrer este ano, a marca de autor de maior respeitabilidade é a de Abel Ferrara (“Tommaso“). Aos 68 anos, o cineasta nova-iorquino é encarado sempre como um artista maldito, pelas abordagens viscerais da moral ocidental. Ele volta a campo agora com “Sibéria“, novamente com  Willem Dafoe no elenco.

Já que o diferencial do festival, desta vez, é a quilometragem dos famosos no palco do Berlinale Palast, vale a pena destacar que a homenagem deste ano será confiada à atriz inglesa Helen Mirren. Ela foi oscarizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, em 2007, por “A Rainha”. Aos 74 anos, ela vai receber o Urso de Ouro honorário no dia 27 de fevereiro, garantindo holofotes da imprensa internacional à sua carreira… e a um evento que, ao lado de Cannes e de Veneza, compõe a elite dos grandes festivais de cinema do mundo.

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