Morreu o cineasta José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão

(Fotos: Divulgação)

Morreu aos 83 anos o ator, realizador e argumentista José Mojica Marins, famoso pela criação da personagem Zé do Caixão.

Segundo a imprensa brasileira, Marins faleceu vítima de uma broncopneumonia. A morte foi confirmada pela sua filha, a atriz Liz Marins.

Embora tenha trabalhado em géneros tão diferentes como a aventura, o drama, o western e até a denominada pornochanchada, foi através do terror que Mojica se destacou, especialmente pela criação da personagem Zé do Caixão, que surgiu em “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964), exibido no MOTELx em 2017. Devido ao sadismo da personagem, os seus filmes foram proibidos pela ditadura militar brasileira.

Mojica é também considerado como um dos inspiradores do movimento marginal, um movimento cinematográfico brasileiro, entre meados de 1968 e 1973, que teve como principais produtoras a Boca do Lixo em São Paulo e a Belair Filmes no Rio de Janeiro.

Sórdido, imundo e satânico

Os baixíssimos orçamentos com os quais Marins tentava dar vida ao seu alter-ego nunca permitiram grandes voos visuais – mas em termos de vilania moral a personagem foi longe.

À Meia-Noite Levarei sua Alma” trazia a história de um coveiro capaz de atos de uma infâmia inacreditável. Ele vivia numa pequena localidade não identificada do interior do Brasil, onde conseguia a façanha de ser temido e odiado por todas as razões e mais algumas: ultraviolência, assassinatos, violações, pactos demoníacos e crueldade generalizada. A sua autoconfiança só começa a ser abalada, no entanto, quando “forças do além” parecem conspirar contra ele…

Epopeias e telenovelas

Tudo chegou num sonho – num período complicado da sua vida: depois de um fracasso retumbante com a sua segunda longa-metragem (“Meu Destino em tuas Mãos”), ele tentava arranjar recursos para produzir um filme policial. Numa noite sonhou que uma imagem diabólica dele próprio vinha buscá-lo da cama e arrastá-lo através das campas de um cemitério até o local da sua própria cova. Acordou assustado, não conseguiu mais dormir; interpretou como um aviso e abandonou o filme que incluía criminosos e perseguições.

A realização do projeto foi, por si só, uma epopeia. Conforme contam os seus biógrafos em “Zé do Caixão – Maldito, a Biografia”, André Barcinski e Ivan Finotti, o cineasta abriu mão de tudo o que tinha; num gesto de drama de telenovela, disse à esposa que pensava em matar-se se não conseguisse concretizar o projeto! Resultado: eles ficaram sem casa e a mulher foi viver com os pais; a seguir ele vende toda a mobília – incluindo a própria roupa. Ficou com duas peças.

O lançamento do filme proporcionou a Marins alguns dos momentos mais felizes neste período de angústias: num belo dia, deu com filas enormes para ver o seu filme! Infelizmente, não ganhou muito dinheiro, pois a penúria era tal que vendeu os direitos antes do projeto estrear. Mas esse foi apenas o primeiro capítulo da história do homem que atingiria os mercados internacionais, onde se tornaria o Coffin Joe…

Anedotas contemporâneas

Um facto anedótico ocorrido no início de 2017 demonstra por si o quanto José Mojica Marins transcendeu a um início de extrema miséria e insegurança para inscrever o seu nome na história. Com 81 anos, experienciou o facto de tornar-se viral na internet. O motivo: uma foto onde, ao que tudo indicava, Zé do Caixão tinha-se convertido… à religião evangélica!

Seria possível? O homem que inventou o satanismo no cinema brasileiro? Bom, ao que parece nada disto aconteceu: quem foi “batizada” na referida igreja foi a esposa do ator/realizador; conforme desmentido da própria instituição…

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