“Não quero ser a protagonista feminina forte”: o incisivo texto de Brit Marling

(Fotos: Divulgação)

Num artigo de opinião, Brit Marling fala das limitações dos papéis oferecidos em Hollywood

“Na cultura pop, as mulheres são frequentemente objetivadas e descartadas.
Mas mesmo quando não somos vitimizadas, a alternativa deixa muito a desejar.”

A atriz, produtora e argumentista Brit Marling, mais conhecida pela série The OA, escreveu um artigo de opinião no New York Times sobre os poucos papéis femininos verdadeiramente inovadores oferecidos em Hollywood, destacando principalmente a comummente chamada “protagonista feminina forte”, que agora surge frequentemente nos guiões, mas que se limita a aplicar nas mulheres aquilo que é considerado forte no universo masculino.

No artigo, com elementos da sua vida bastantes pessoais, como o facto de ter sofrido violência por parte de um namorado, Marling aprofunda a questão dos papéis femininos no cinema, sublinhando que no início da sua carreira a oferta de emprego circulava em volta dos mesmos arquétipos: “magra e atraente”; “a esposa de Dave”; “mulher robô, um feito notável da engenharia”; “os seios dela são enormes e veste uma suéter vermelha”.

A atriz entra depois na questão da quantidade de mortes femininas em grandes produções, dando o exemplo recente de Blade Runner 2049,  “onde a femme fatale holográfica é apagada e as demais mulheres são esfaqueadas, afogadas e estripadas como um peixe“. Marling lamenta o facto de que quando aparecem personagens femininas livres, como Antígona, corajosas como Joana d’Arc, ou indomáveis, como Thelma e Louise, a única solução são consequências brutais para essas mulheres: “Elas encontram fins trágicos em grande parte porque são espirituosas, corajosas e irrestritas. Elas podem desafiar reis, recusar a beleza e defender-se contra a violência. Mas é um desafio para um escritor imaginar um mundo em que essas mulheres livres possam existir sem consequências brutais.

A “protagonista feminina forte”

Brit lamenta que hoje em dia ainda não se veja a “feminilidade em si – empatia, vulnerabilidade, capacidade de escuta – como caracteristicas de força.“, afirmando posteriormente que a denominada “protagonista feminina forte” é apenas e só uma reflexão do que é considerado elevado no universo masculino: “Quanto mais eu agia como a protagonista feminina forte, mais tinha consciência da estreita especificidade dos pontos fortes das personagens: as habilidades físicas, a ambição linear, a racionalidade focada (…) o que realmente queremos dizer quando dizemos que queremos fortes protagonistas femininas é: “Dê-me um homem, mas no corpo de uma mulher que ainda quero ver nua.

Contando a sua história pessoal, quando foi a “forte protagonista feminina” na vida real antes de ser atriz (trabalhou como analista da Goldman Sachs), Marling dá exemplos dos papéis “fortes” que Hollywood tem destinados para as mulheres: “Ela é uma assassina, uma espia, um soldado, uma super-heroína, uma CEO. (…) Ela tem a engenhosidade do MacGyver, mas fica melhor noutra roupa“. Contra essa oferta limitada, a atriz conclui: “Eu não quero ser a miúda morta, ou a esposa de Dave. Mas também não quero ser a forte protagonista feminina, se o meu poder for definido em grande parte pela violência e dominação, conquista e colonização.

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