Morreu Kirk Douglas (1916-2020)

(Fotos: Divulgação)

O ator faleceu aos 103 anos

É com uma tremenda tristeza que os meus irmãos e eu anunciamos que Kirk Douglas nos deixou hoje aos 103 anos (..) Para o mundo, ele era uma lenda, um ator da Era de Ouro que teve a oportunidade de viver os seus anos dourados, um humanitário cujo compromisso com a justiça e as causas em que acreditava estabeleceram um padrão que todos nós aspiramos”, escreveu Michael Douglas na sua conta no Instagram.

Nomeado a três Óscares (O Grande Ídolo; Cativos do Mal; e A Vida Apaixonada de Van Gogh), Kirk ganharia um prémio honorário da Academia em 1996.

Nascido a 9 de dezembro de 1916 em Nova York, com o nome Issur Danielovitch Demsky, Kirk Douglas (trocou legalmente de nome quando se inscreveu na Marinha durante a 2ª Guerra Mundial) era filho de imigrantes judeus de Chavusy (agora Bielorrússia). Cresceu num bairro pobre, mas mostrou ser um grande aluno e atleta, tendo mesmo chegado a praticar boxe. Para conseguir uma bolsa de estudos, entrou para um grupo de atuação, tendo sido consagrado com a bolsa juntamente com quem viria a contracenar em Duas Mulheres, Dois Destinos (1950): Lauren Bacall.

Esteve na Marinha dos Estados Unidos até ao final da Segunda Guerra Mundial e depois do conflito voltou para Nova Iorque, onde trabalharia na rádio e em anúncios de TV. Foi através da insistência da antiga colega Lauren Bacall que o produtor de filmes Hal B. Wallis testou e escolheu Kirk para o papel principal em O Estranho Amor por Martha Ivers (1946). A sua atuação foi marcante e abriu-lhe as portas de Hollywood para uma carreira com quase 100 filmes. 

No ano seguinte, em Lábios Que Sangram (1947), trabalhou pela primeira vez ao lado de Burt Lancaster, com quem atuaria em sete filmes, como o western Duelo de Fogo (1957), o thriller político Sete Dias em Maio (1964) e a comédia gangster Os Duros (1986). Sobre o final da sistemática parceria com Lancaster, Douglas brincou: “Finalmente afastei-me dele. A minha sorte mudou para melhor. Agora tenho mais mulheres bonitas nos meus filmes“.

Com Jacques Tourneur filmou O Arrependido (1947) e com Joseph L. Mankiewicz o drama Carta a Três Mulheres (1949). Foi contudo com O Grande Ídolo (1949) que teve a sua primeira nomeação aos Oscars, conquista que lhe abriu inúmeras portas, entre elas a colaboração com Vincente Minnelli, que lhe valeram duas novas nomeações (em 1953 e 1957). Ainda na mesma década, participou em Ulisses (1954), Vinte Mil Léguas Submarinas (1954), e no estrondoso Horizontes de Glória (1957), filme de Stanley Kubrickcom quem voltaria a trabalhar em Spartacus (1960)Sobre esta última colaboração, publica já em 2012 ‘I Am Spartacus!: Making a Film, Breaking the Blacklist’, um livro onde detalha o período em que trabalhou quando o House Un-American Activities Committee (HUAC), comité responsável pela denuncia de indivíduos e organizações com supostas ligações comunistas, ditava quem podia trabalhar na indústria. Da famosa lista negra, constava Dalton Trumbo, o guionista contratado pelo produtor Edward Lewis para trabalhar em Spartacus. O livro de Douglas detalha com grande precisão as manobras de bastidores da época, funcionando também como um retrato preciso da rodagem daquele que é um dos filmes mais icónicos da sua carreira.

Em Fuga Sem Rumo (1962) foi um cowboy rebelde e em 1963 teve sucesso no teatro com Voando Sobre um Ninho de Cucos. Tentou, sem sucesso, convencer os estúdios a adaptarem o trabalho ao cinema. Não conseguiu, mas os direitos sobre a obra permaneceram na sua família e, uma década depois, o filme chegaria às salas, com o sucesso que se conhece.

Ainda nos anos 60, atuou várias vezes com John Wayne, como em A Primeira Vitória (1965)A Sombra de um Gigante (1966) e Assalto ao Carro Blindado (1967), mas deu igualmente nas vistas em Paris Já Está a Arder? (1966), filme de René Clément que contava no elenco com Jean-Paul Belmondo e onde o norte-americano surgia como “convidado” para interpretar Patton. Sobre trabalhar com “Duke“, disse: “Fiz quatro filmes com [John Wayne]. Nós éramos uma combinação estranha. Ele era republicano e eu democrata. Estavamos sempre a discutir“. 

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Na década que se seguiu, a sua carreira perdeu fôlego, mas ainda teve tempo para surgir em (agora) clássicos como A Fúria (1978), de Brian De Palma, e em Scalawag (1973)Cavalgada dos Destemidos (1975), dois filmes realizados por si, e as únicas experiências na cadeira de realizador que teve em toda a carreira.

Progressivamente com cada vez menos papéis no cinema nas décadas que se seguiram, particularmente depois de em 1991 ter um acidente de helicóptero (que lhe deixou marcas de queimaduras no corpo) e sofrer um AVC em 1996 (que afetou parcialmente a sua capacidade de falar), Kirk teria a última participação como ator no falso documentário Meurtres à l’Empire State Building, de 2008.

Outros factos menos conhecidos da sua vida incluem a sua dedicação a causas humanitárias, sendo embaixador da boa vontade do Departamento de Estado dos EUA desde 1963. O seu trabalho neste campo foi recompensado com a Medalha Presidencial da Liberdade (1981), com o Prémio Jefferson (1983) e com a distinção de cavaleiro da Legião de Honra do estado francês (1990).

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Kirk Douglas nos Globos de Ouro, em 2018

Em 1998 lançou a sua autobiografia, The Ragman’s Son, onde narra a sua história de vida, desde o principio como o único filho numa família de seis meninas nascidas de um pobre imigrante judeu, até à luxúria de se tornar ator. Sobre essa obra literária, comentou: “Quando me tornei ator de cinema e de repente tive que lidar com a fama, dinheiro e interpretar tantos papéis, perdi-me. E disse: ‘Quem sou eu?’ Escrevi o meu primeiro livro para lidar com isso, ‘The Ragman’s Son‘.

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