Lisboa recebeu Artavazd Pelechian com sala cheia e muitos aplausos

(Fotos: Divulgação)

Estava completamente cheia a sala Felix Ribeiro na Cinemateca Portuguesa para receber o cineasta arménio Artavazd Pelechian, o qual marcou presença e foi celebrado no final com uma grande salva de palmas pelo público após a apresentação de quatro dos seus trabalhos, registos mudos em diálogos mas repletos de poesia em imagens e registos sonoros deliciosamente selecionados*Os Habitantes (1970); As Estações (1972); Fim (1992) e Vida (1993).

Nascido em 1938, Pelechian começou por trabalhar como operário e desenhador numa fábrica, entrando na escola de cinema de Moscovo aos 25 anos. Documentarista e teórico do cinema, sem nunca negar a tradição clássica soviética, Pelechian afasta-se em termos teóricos dos grandes nomes da década de 1920 (Eisenstein; Vertov), ficando conhecido por desenvolver um estilo de perspetiva cinematográfica conhecido como montagem à distância, combinando perceção de profundidade com entidades que se aproximam: “Para mim, a montagem à distância abre os mistérios do movimento do universo. Eu posso sentir como tudo é feito e montado; Eu posso sentir seu movimento rítmico (…) Vertov e Eisenstein não foram o meu ponto de partida; em vez disso, cheguei a formular princípios semelhantes como resultado do meu próprio trabalho. No fundo, sinto que não repito nem imito os seus princípios, mas tento fazer algo de minha parte.”

Nos quatro trabalhos hoje apresentados, Os Habitantes reflete a relação entre animais (alguns selvagens e livres, outros enjaulados) e humanos através de um conjunto de imagens que iludem o espectador com um reenquadrar rápido dos planos (ver acima, a sequência inicial do cisne e esta homenagem de Patti Smith ao cineasta). O tema tem um impacto maior em As Estações, obra que mostra mais uma vez o homem em permanente conflito com a natureza num registo de sobrevivência de um povo bravo, o arménio, transformando os contrastes em estados entre a harmonia e a salvação: “Pensei em tudo. Não pensei especificamente nas estações do ano ou nas pessoas: é tudo.

Seguiu-se Fim, um registo de paisagens e rostos num comboio observados de forma aparentemente desordenada e ativa que criam a própria ilusão do movimento; e finalmente Vida, que forma um díptico com o anterior, e se assume como um registo tocante onde mais uma vez as contradições surgem em registos faciais e sensoriais – onde a dor, prazer e harmonia se conciliam no princípio das coisas, no nascimento.

O ciclo em torno da obra Pelechian – cujo trabalho foi introduzido em Portugal na segunda edição do Curtas Vila do Conde em 1994 – prossegue amanhã na Cinemateca e terá como ponto alto a próxima quarta-feira, 29 de maio, dia em que o realizador terá uma conversa com o público e apresentará – em estreia mundial – o seu novo filme: A Natureza.

*“Não consigo imaginar nenhum dos meus filmes sem música. Quando escrevo um guião de um filme, imagino, desde o início, a estrutura musical…”

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