Julian Schnabel: «Porque uma pessoa branca não pode contar a história de uma pessoa negra?»

(Fotos: Divulgação)

 

O pintor e realizador nova-iorquino Julian Schnabel (O Escafandro e a Borboleta; Miral) sempre foi conhecido por afirmações controversas e numa entrevista ao The Guardian produziu declarações que podem levantar alguma celeuma. 

Pegando na controvérsia em torno do quadro Open Casket da autoria de Dana Schutz, Schnabel contraria a visão de que um artista branco não tem o direito de usar um tema “negro” na sua arte. Voltemos atrás, para se perceber melhor do que falamos: em 2016, alguns segmentos da comunidade afroamericana exigiram a destruição da pintura Open Casket, a qual representava um adolescente negro morto por supremacistas brancos em 1955. Inspirada nas fotografias de Emmett Till, esta obra de arte veio a reacender o debate sobre apropriação cultural.



Porque um branco não pode contar a história de um negro?”, pergunta Schnabel ao jornalista do The Guardian, acrescentando: “Fiz um filme sobre Jean-Michel Basquiat. Estava a explorá-lo ao fazer esse filme sobre ele? Acho que fiz-lhe um favor ao fazer esse filme. É como a minha filha Lola diz: ‘Toda a gente é cor de rosa por dentro.’

O realizador embarcou então por outros temas, igualmente polémicos e sensíveis: “O Robert Mapplethorpe teve uma mostra no Museu Whitney onde se viam uma série de tipos com o pénis à mostra ou lá o que era (…) Agora parece que se você é transsexual tem mais chances de conseguir uma exposição num museu“, continuou. “Todas essas tendências políticas e atuais sobre as coisas são …“. Silêncio, relata o jornalista do The Guardian, pois Schnabel “parece perceber que está a aproximar-se de um precipicio com as suas palavras“.

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Ainda assim, prossegue: Acho que todos devem ter uma forma pessoal de se relacionar com o mundo e é muito difícil fazer generalidades sobre qualquer uma dessas coisas. E atacar uma instituição por ter dinheiro de alguma fonte que pode ser suspeita de alguma forma, se você quiser gastar o seu tempo a fazer isso, ótimo. Esse é um problema seu. Para mim é completamente desinteressante“. Estas últimas palavras eram uma referência ao protesto de algumas pessoas contra as doações a instituições artísticas feitas pela família Sackler, dona do fármaco Oxicodona, um opioide analgésico que tem sido acusado de ser o grande responsável pela nova vaga de toxicodependência nos EUA.

O realizador abordou ainda nesta conversa os Oscars©, afirmando que não lhe interessa quem ganhou o prémio de melhor ator este ano, pois Willem Dafoe – do seu À Porta da Eternidade – apresentou “o melhor desempenho“: “Se você tem um filme como o Bohemian Rhapsody, que rendeu 900 milhões de dólares, não pode comparar. Acho o filme parvo e a performance do Rami Malek era a de alguém a passar-se por outra pessoa. Acho que a marca ‘Oscar’ já não vale muito'”.

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