“Figlia mia”: amor de mãe encanta a Festa do Cinema Italiano

(Fotos: Divulgação)

Jóias contemporâneas da terra de Fellini vão desfilar por Lisboa até o dia 14 de abril na 12ª edição da Festa do Cinema Italiano, incluindo o premiado filme de máfia Piranhas – La Paranza Dei Bambini, de Claudio Giovannesi, e Euforia, drama sobre fraternidade que traz Valeria Golino na direção.

Mas a pérola mais preciosa dessa seleção é um título revelado mundialmente na Berlinale de 2018: Figlia mia, de Laura Buspuri, com sessões no Cine São Jorge nos dias 7 (às 19h30) e 11 (19h). Sabe a passagem bíblica na qual o sábio Salomão precisa decidir quem é a real mãe de um bebé disputado por duas mulheres? É disso que trata a longa-metragem de Laura, uma jovem realizadora que passou a ser encarada como uma das maiores promessas autorais da Europa. O sucesso dela é parte de uma (re)oxigenação do cinema da Itália.

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Depois de anos tachado de decadente, entre as décadas de 1990 e 2000 (por conta do sucateamento de seus modelos de produção e de seu sistema de distribuição equivocado), aquela cinematografia voltou a alçar voos criativos com o sucesso de cineastas como Paolo Sorrentino (de Il Divo e A grande beleza), hoje na casa dos 40, 50 anos. Mas há uma turma mais moça: Laura é um dos destaques de uma novíssima geração de cineastas egressos da pátria de Lina Wertmüller, Antonioni e Pasolini.

A Itália tem um universo muito plural de locações, que se difere pelos dialetos, mas que se aproxima pela música e pela tradição do cinema. Eu escolhi a Sardenha para poder filmá-la com as cores quentes do melodrama. Cores que o cinema da tradição neorrealista não tinha“, disse Laura Bispuri ao C7nema em Berlim. “Explorar uma paisagem humana contrastando atrizes profissionais com habitantes locais é sempre um exercício à margem do risco”.

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Comovente, Minha filha trouxe a sequência mais catártica de todo o Festival de Berlim deste ano: a brilhante atriz Alba Rohrwacher e a pequena Sara Casu, de 11 anos, depositam toda a energia que têm a cantar Questo Amore Non Si Tocca, hit da canzione italiana, gravado por Gianni Bella. As duas cantam como se brincassem de karaoke, diluindo as fronteiras de idade e hierarquia familiar que as separam. Alba é a alcoólatra Angélica, uma mulher afeita ao prazer. Sara é Vittoria, uma menina de 9 anos que tem duas mães: Angélica de um lado; e a pudica e possessiva Tina (vivida pela já citada Valeria Golino, de Rain Man) do outro. As duas adultas disputam, cada uma à sua maneira, o coração da menina.

Esta é a história de um renascimento, a partir da evocação da moral salomônica: na disputa pelo coração de Sara, as duas se reinventam e nos conduzem a essa reinvenção, enquanto implodem na tela“, diz Laura, antes conhecida por Virgem Prometida (2015), também com Alba Rohrwacher, uma das atrizes mais populares da Itália hoje, adorada pelos cineastas de autor de lá. “Temos já uma parceria sedimentada, que nos ajuda na investigação dos sentimentos“.

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