Pandora da Cunha Telles : “corremos o risco de ter o cinema português enfiado num gueto”

(Fotos: Divulgação)

 

Pandora da Cunha Telles, responsável pela produção de filmes como Al Berto, Soldado Milhões e Vazante (através da Ukbar Filmes), afirmou num debate organizado pela 5ª edição da Guiões – Festival do Roteiro em Língua Portuguesa que o cinema nacional vive um período dramático, isto após no ano passado a quota de espectadores de cinema português ter sido apenas de 1,9% em relação a todos os consumidores de cinema nas salas comerciais.

A produtora frisou que, apesar de “temos uma incrível quantidade de bons filmes e bons realizadores a trabalhar“, a nossa cinematografia é pouco diversa, correndo assim o cinema português o perigo de apenas ser visto em festivais ou em poucas salas : “Estamos a caminhar para uma espécie de precipício e toda a gente está a dizer que está tudo bem e que não há nenhum problema com o nosso cinema. Há um problema. Há um problema de diversidade, na minha opinião.


Pandora da Cunha Telles

Para Pandora da Cunha Telles, a solução terá de ser apoiada em duas estratégias concertadas, à semelhança do que é feito na Suíça, em Espanha, nos países nórdicos e em França: “Uma estratégia para cinema de alta qualidade do ponto de vista criativo, que aposta em novos talentos, que aposta em projetos que tenham a capacidade de marcar presença em festivais de categoria A, capacidade de exportação; e termos uma segunda frente que incentiva realizadores, argumentistas e produtores que façam espectadores em sala.

Reconhecendo que o primeiro ponto tem funcionado bastante bem no país, com vários prémios em certames internacionais e bons números nas vendas internacionais de filmes portuguesas, a produtora diz que no que toca à segunda estratégia “está-se a fazer muito pouco“, quer a nível de incentivos junto das salas, distribuição e exibição, quer a nível dos junto dos realizadores, argumentistas e produtores, para que estes trabalhem mais para projetos que tenham narrativas e que estejam próximas do grande público.


O jornalista Paulo Portugal moderou o debate

O debate na Universidade Lusófona, na passada sexta-feira, 29 de março, juntou ainda Elsa Mendes (Plano Nacional de Cinema), Paulo Gonçalves (ICA), Saúl Rafael (NOS) e o produtor Luís Urbano (O Som e a Fúria), de quem vieram as maiores críticas às palavras e estratégias de Cunha Telles.

Acho que tudo o que a Pandora disse passa ao lado [da questão], é falacioso e não tem uma sustentação intelectual“, afirmou Urbano, que menciona como prioritário um sistema que permita uma produção regular de Cinema: “Só nesse sistema sustentado é que nós vamos ter uma produção com regularidade, mas sobretudo – muito importante – com perspetivas de crescimento. É importante dizer que a quota de mercado do cinema português, que no ano passado andou nos 2%, também corresponde a uma quota de mercado de filmes portugueses que estreiam em sala, que não anda além dos 7%. (…) O primeiro problema é nós estarmos de facto na cauda da Europa em função da quantidade de filmes” produzidos e lançados”.

Já o segundo problema, que o produtor considera “complexo”, tem a ver com a distribuição e “com mudança de hábitos das pessoas“, provocada principalmente pela “concorrência enorme que existe no fenómeno da transmissão das imagens em movimento, seja pela Internet, seja através da televisão”: “O cinema tem sido bastante ameaçado relativamente aquilo que é o seu futuro. É um problema que tem de ser equacionado.


Luís Urbano

Outra questão, segundo Luís Urbano, é perceber até que ponto o poder público considera isto ou não um problema e uma prioridade. Falando da importância que a RTP teve na sua adolescência e que o levou a querer ser produtor de cinema, Urbano menciona a importância central das entidades públicas no processo, dando como exemplo o Plano Nacional de Cinema, que segundo ele tem de se desenvolver e tornar-se mais ambicioso: “A França tem um programa nacional de cinema que faz com que o cinema faça parte do currículo obrigatório de todos os alunos desde o 1º ciclo até ao final do liceu e superior. Esse plano nacional do cinema funciona (…) Todos os anos, há várias comissões que selecionam em função do escalão etário e, a partir de certa altura, em função do grau de especialidade dos alunos, selecionam um conjunto de filmes que são de visionamento obrigatório. Não há nenhum estudante do ensino secundário em França que não tenha acesso a diversidade, a propostas do cinema contemporâneo, à História do Cinema.

Outro problema levantado pelo produtor de obras como Tabu, Cartas da Guerra e Hotel Império, está ligado à perda de espaços de exibição, com as salas do centro da cidade e de bairro a desaparecerem: “Há uma ou duas experiências contracorrente: no Porto, o cinema Trindade; e em Lisboa, o Ideal. O Nimas também, mas esse já existia. (…) Existe também este problema dos espaços de exibição.

Por tal, Luís Urbano diz que não basta o ICA financiar mais filmes pelo conteúdo, mas que tudo só se “vai resolver com o tempo e com uma política articulada que envolva várias instituições, que passe essencialmente pelo reforço do papel da educação naquilo que é o acesso ao cinema e às outras linguagens. O cinema como linguagem audiovisual está fortemente ameaçado pela linguagem, pelo código televisivo, e linguagem do código, eu diria, Youtuber, concluiu.

Últimas