A segunda semana de filmagens está a encerrar quando, num dos últimos momentos de trabalhos do dia, as câmaras acompanham a chegada de uma limusina: lá dentro, o jogador Paulo Futre, a fazer dele próprio e que chega para “deixar as meninas malucas“, como diz o realizador Nicolau Breyner. Com previsão de duração em torno das cinco semanas, as filmagens estendem-se pelo mês de agosto, com data para lançamento da obra em 21 de novembro deste ano. Em termos de produção, é uma parceria entre a Cinemate, Cinecool e a Zon – com coprodução de Ana Costa.
O antigo jogador de futebol será uma das participações especiais no arraial de Curral de Moinas, local onde ganhará a vida a transposição para o grande ecrã do programa humorístico Telerural, veiculado pela RTP. O cantor Quim Barreiros e o próprio Breyner, a fazer de Deus, também marcam presença no filme.
Com o set todo montado no pátio dos estúdios da Cinemate, em Loures, a produção reunirá mais de 300 figurantes, para além de bandas de música e grupos folclóricos. Os protagonistas são João Paulo Rodrigues e Pedro Alves, também conhecidos pelos personagens de Quim Roscas e Zeca Estacionâncio, liderando um elenco composto ainda por Patrícia Tavares, José Raposo, Melânia Gomes e Alda Gomes.
No enredo, os dois protagonistas morrem depois de embaterem numas ovelhas, mas Deus vai lhes dar uma segunda oportunidade na Terra, desde que se redimam de sua vida libertina. Para isso terão que evitar cometer os sete pecados capitais. Pior ainda, quando vacilam, são chamados “la acima” ou o próprio ser divino faz uma intervenção terrena.
Humor popular e nonsense
O argumento foi escrito por Henrique Dias e o Frederico Pombares, responsáveis pelo texto do programa televisivo. Conforme relembram eles, o Telerural começou com uma pequena participação na Praça da Alegria, da RTP, em 2009. Programado para ser exibido durante 15 dias nas férias de Noémia Costa, o sucesso foi tal que gerou todo um universo que foi sendo construído pelos autores. Segundo eles, o segredo foi juntar paradigmas do humor popular, burlesco, com o nonsense da comédia mais sofisticada.
Videntes, bandalhos, polícias bêbados e muito “pimba”…
Em conversa com o C7nema na altura do lançamento de A Teia de Gelo, o realizador Nicolau Breyner tinha deixado bem explícito que seu próximo filme como realizador seria uma comédia. Um ano passou-se desde então, e aqui ganham vida os “7 Pecados Rurais”. “Foi o tempo que demorou para encontrar uma comédia que eu quisesse fazer, com pessoas com quem eu gostasse de trabalhar”, diz. “A ideia inicial não era trabalhar necessariamente com eles (do Telerural). Eu queria simplesmente fazer uma comédia“.
Já na altura observava que achava a comédia o género mais difícil de se fazer, o que veio a comprovar agora. E que tipo de comédia se terá aqui? “É quase uma farsa, uma comédia muito física, humor em que os dois fazem vários personagens. Também temos muitas caricaturas, há uma vidente que diz coisas inenarráveis, um presidente da Junta que é um grande bandalho, quatro guardas da GNR que estão sempre bêbados. Tem de haver graça. Humor e piada, sobretudo isso. E é totalmente pimba. Eu julgo que vai resultar”.
Os portugueses querem cinema comercial
“85% dos portugueses querem ver cinema comercial. Eu não estou a dizer se isso é certo ou errado. Eles têm o direito de querer ver esse cinema“, diz o cineasta, que continua um defensor de cinema para o grande público em Portugal.
Depois de um filme policial (Contrato) e outro de suspense (A Teia de Gelo) esta é mais uma aposta de Breyner na via popular. “Neste momento acho fundamental fazer cinema comercial. Esta é a porta para depois fazermos mais cinema de autor. Um cinema comercial forte, vendável, que traga dinheiro, possibilita fazer outro tipo de cinema. O contrário não é possível, pois os subsídios vão ser cada vez menores”.
E reforça: “Isso não tem a ver com não gostar de cinema de autor. Não gosto de todso eles, mas há muitos filmes que adoro. Sou grande fã de Orson Welles, François Truffaut, David Cronenberg, Pietro Gemi. Também adoro o João Canijo“.
Os maus resultados de “A Teia do Gelo” e os críticos
Apesar disto, o seu último esforço no género, uma história de casas assombradas protagonizado por Diogo Morgado e Margarida Marinha, ficou bastante aquém do esperado – reunindo menos 40 mil espectadores do que Contrato – sua longa metragem de estreia. Breyner não concorda que o resultado tenha sido mau.
“Eu acho que foi bom, dentro daquilo que costuma ser a realidade do cinema português. Eu gosto do filme, claro que tem coisas menos boas. Mas orgulho-me deste trabalho. Os críticos não gostaram, mas a isso já estou habituado. Eu não sou bem visto pelos críticos, mas isso também não me deixa preocupado. Eu nunca os leio, nem para o bem nem para o mal“.

