Chegada hora de fazer as contas do que afinal se passou no cinema em 2012, o C7nema vai apostar numa série de artigos envolvendo os mais diversos aspetos da Sétima Arte no ano que se encerra. Cinema português, festivais de cinema, box-office, blockbusters, cinema de autor… Enfim, um panorama geral que visa abordar todos os aspetos envolvendo a arte cinematográfica.
Cinema português invade escadarias de São Bento (10/05/2012)
Foto: Fernando Vendrell (Facebook)
Foto: Fernando Vendrell (Facebook)
A crise geral da economia portuguesa é um elemento adicional nada desprezível ao já por si problemático quadro do cinema produzido em Portugal. Sempre às voltas com o eterno divórcio com um público mais alargado e sem que a sua própria relevância artística seja evidente o país, no entanto, viu surgir algumas obras que ficaram acima dessas duas condicionantes.
Tudo isto num ano de visitas recorde ao cinema, onde mais de 700 mil pessoas foram ao cinema ver produções ou co-produções nacionais (como «Cosmopolis», «Capitães de Areia» ou «Bonsai»). Este número é quase dez vezes maior que o do ano passado quando, fora as curtas-metragens, o cinema português nem sequer chegou a ter 80 mil espectadores.
Paradoxalmente, este foi o ano em que parte do cinema português – o subsidiado – parou, à espera por uma nova lei do cinema que tarda a entrar em vigor. Até lá não há concursos nem novas produções, com especial perda para o cinema de autor, mas não só.
Nota: apesar de considerados pelo ICA como produções portuguesas, os filmes “Cosmopolis”, “Capitães de Areia” e “Bonsai” não são considerados para esta avaliação. Também não entra a obra “A Última Vez que Vi Macau” pois, apesar da sua presença em festivais, não teve estreia comercial no país.
“Tabu”, de Miguel Gomes
Pelo seu alcance em termos criativos, a sua repercussão em Portugal e no exterior e um público aceitável, “Tabu” será, eventualmente, o mais importante filme português do ano. O filme de Miguel Gomes começou uma carreira extraordinária no Festival de Berlim, em fevereiro, e depois circulou um pouco por todo lado, arrancando elogios e alguns prémios (em Ghent na Bélgica, ou em Paris). No final do ano, começa a colecionar aparições em listas de melhores do ano, quer na Cahiers du Cinema, quer na Sight and Sound. Em Portugal, 21 mil espectadores assistiram à história de Ventura e Aurora com o período colonial português em pano de fundo.
Filmes importantes pelo seu valor artístico e por ter alcançado um público superior a 40 mil espectadores
“O Cônsul de Bordéus”: a obra sobre Aristides de Sousa Mendes protagonizada por Vitor Norte surpreendeu pelo público que alcançou (50 mil pessoas). O “Schindler” português, riscado dos manuais escolares até os anos 90, ganha aqui uma merecida biografia pela mão dos realizadores Francisco Manso e João Correia.
“As Linhas de Wellington” reuniu um grande elenco, nacional e internacional, para recriar o período das invasões francesas. Com John Malkovich no papel do general que constrói uma linha de fortificações nas proximidades de Torres Vedras, o filme de Valeria Sarmiento fez parte da seleção principal do Festival de Veneza e foi o quarto mais visto do ano entre as produções nacionais.
“Florbela”: a poetisa Florbela Espanca ganhou uma colorida biografia que recriou alguns momentos da sua vida, particularmente aqueles de cunho revolucionário para a época, conectados às profundas mudanças que Portugal experimentava no final da década de 20. “Florbela” foi realizado por “Vicente Alves do Ó” e protagonizado por Dalila Carmo.
Cinco projetos que merecem atenção
O longevo e controverso Manoel de Oliveira apareceu com um dos seus mais elogiados e bem-sucedidos (quase 6 mil espetadores) obras dos últimos anos, “O Gebo e a Sombra”. Ainda assim, e tratando-se do cineasta português vivo, mais conhecido e vangloriado pela sua obra, estes 6 mil espectadores soam a pouco.
O documentarista Gonçalo Tocha viu o lançamento comercial do seu inventário sobre a vida da Ilha do Corvo, “É na Terra, não É na Lua”, ser lançado nas salas e atingir um público de quase 4 mil assistentes. Lá fora, venceu alguns prémios importantes, como em São Francisco ou na Argentina, no BAFICI. A par de «Tabu», e de «A Última Vez que Vi Macau» (inédito nas salas) de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, foi claramente o nosso maior representante no exterior.
“Assim Assim”, de Sérgio Graciano, foi uma boa tentativa de se fazer cinema acessível com qualidade, unindo pequenas histórias e muitos nomes conhecidos para discutir questões diversas, com predileção pelos relacionamentos.
“Estrada de Palha”, de Rodrigo Areias, vai buscar inspiração nos ambientes do velho género Western e também sai-se com um registo interessante, que lhe valeu a seleção para Karlovy Vary.
“Linha Vermelha”, de José Filipe Costa, vencedor do prémio para Melhor Filme de Longa-Metragem Portuguesa no Indie Lisboa 2011, foi outro documentário elogiado, que recupera as memórias de um congénere seu, “Torre Bela”, para reconstruir parte da história do Ribatejo durante o 25 de Abril.
Nas bilheteiras, duas performances arrasadoras
“Balas e Bolinhos”, no seu terceiro capítulo, mostra a força de um projeto surgido sem recursos e sem apoios e que demonstra a falta de uma perspectiva industrial ao cinema português. 255 mil espetadores assistiram o filme.
“Morangos com Açúcar” aproveitou o apelo do público teen e a força de uma série que já há vários anos ocupa a televisão portuguesa. Cinema para adolescentes tem sido uma receita infalível para Hollywood já há alguns anos e, no caso da produção portuguesa, não foi diferente: alcançou 236 mil espectadores.
A grande promessa
Merece destaque ainda o realizador João Salaviza, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim com “Rafa”. Com seu primeiro trabalho tinha ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mesmo com a conjuntura incerta, é possível que venha a público sua primeira longa-metragem em 2013. Para já, a expetativa é enorme.
Desilusões do ano
“A Teia de Gelo” foi um dos fracassos de 2012. Nicolau Breyner ambicionava algo na linha de “Contrato” (45 mil espectadores), mas o filme conseguiu pouco mais de 5 mil. Paralelamente à versão portuguesa foi filmada uma em inglês. Porém, lá fora o filme não existe…nem se fala…
“Operação Outono”: assim como Florbela Espanca e Aristides de Sousa Mendes, também Humberto Delgado teve a sua biopic, vindo a ser a única personagem da história nacional levada ao cinema que não conseguiu vingar. O filme vai com pouco mais de 7 mil espectadores, o que demonstra que algo correu mal na sua divulgação e apresentação.
“Em Câmara Lenta”: o falecido Fernando Lopes ainda viu seu último trabalho chegar aos cinemas. A obra teve um resultado escasso nas bilheteiras: pouco mais de 1000 espectadores. A forma tímida como foi distribuída também não ajudou.
Um OVNI na tabela
Caso o c7nema não tivesse falado com Bruno Santana [ler artigo] sobre o seu filme “Desalinhado”, este seria um verdadeiro OVNI na tabela do box-office. Apresentado numa sala em Leiria, sem qualquer máquina de distribuição por trás, e com apenas 9 sessões, o filme conseguiu 774 espectadores, mais do que por exemplo «Cartas de Angola» ou «Swans», filmes com presenças em Festivais…
Outras obras lançadas em 2012
“O que Há de Novo no Amor?” (vários realizadores), “Deste Lado da Ressurreição” (Joaquim Sapinho), “A Moral Conjugal” (Arthur Serra Araújo), “A Vingança de uma Mulher” (Rita Azevedo Gomes), “Paixão” (Margarida Gil).

