A irrealista e distorcida imagem da vida rural no cinema documental

(Fotos: Divulgação)

A Raia

Um comentário sobre a Competição Nacional do Doclisboa

Depois de mais uma edição do Doclisboa, convém agora fazer um balanço sobre o festival e sobre a seleção dos filmes, especialmente a da Competição Nacional. Para além de se manter a tendência de filmes que se limitam a mostrar, sem explicar ou fornecer contextos, surgiu este ano uma nova, mais preocupante: a de documentários de uma vida rural idealizada e irrealista.


O êxodo rural do século XX fez com que a maior parte da população saísse das suas terras e se dirigisse às grandes cidades tendo, pela primeira vez na História, em 2007, a população urbana ultrapassado a população rural. Não pretendendo discutir aqui as consequências deste facto, interessa-me mais a ideia de que grande parte dos habitantes das cidades mantêm ainda uma ligação a esse ambiente rural por parte de familiares que viveram ou ainda vivem aí. Se, enquanto todos fomos caindo na mentira do neoliberalismo e do crédito fácil, ninguém estava interessado em voltar para esta vida e para a dureza que a caracteriza, agora que este sistema económico falhou de novo surge uma imagem distorcida da vida rural como forma de subsistência “honesta” e “natural”, sustentável e quase que revolucionária.

Claro que esta imagem não é real: a vida rural é uma vida muito dura, onde o “suor do rosto” nem sempre dá o pão pelo qual é derramado e onde o trabalho de meses pode perder-se devido às inclemências do tempo. Se queremos uma resposta realista quanto à vida no campo, pode ver-se o filme que ganhou o festival: “San Zimei”, onde para além da dificuldade da vida e da insuficência dos resultados, vemos a comunidade a ser ameaçada pela entidade estatal que cobra impostos que a população não consegue pagar.
 
Arraianos 

Mas não é esta visão que “Arraianos”, “Sobre Viver” ou a “A Raia” mostram. Ficam-se por uma construção idílica da vida rural, onde os resultados do trabalho não são importantes e onde a tradição oral contém um corpo de saberes milenar que se opõe ao individualismo e egoísmo da cidade e do Capitalismo. São de tal forma irrealistas que até na sua construção, alternando cenas rurais, com conversas “profundas” e coros de canções, mostram uma seleção do que pensam ser a vida rural, como uma forma de “bons velhos tempos”, onde a noção de comunidade e entreajuda ainda não se tinham perdido.

Há uma ligação óbvia entre estes filmes e os filmes que o Secretariado Nacional de Informação quis fazer durante o Estado Novo, quer pela estrutura, quer pelos conceitos, opondo ao mundo de vícios e crime que era a cidade, o estado natural e honesto que era o campo. Salazar disse: “a faina agrícola, sujeita à torreira do sol ou à impertinência das chuvas, é acima de tudo uma vocação de pobreza; mas o seu orgulho vem de que só ela alimenta o homem e lhe permite viver. Quando se governa um país, e se nos deparam os mercados difíceis, os mares impraticáveis, as bocas famintas sem saber de onde há-de vir um bocado de pão, a terra pobre, a terra humilde, sobre então à culminância dos heroísmos desconhecidos e dos valores inestimáveis.” É este mesmo o raciocínio que parece espreitar por detrás destes filmes agora apresentados, mas há que lembrar que foi durante o Estado Novo (como o mostrou bem “O Pão que o Diabo amassou”, evitando cair no mesmo erro dos outros) que muitas pessoas morreram de fome no interior e que houve migrações maciças para a indústria mineira, para os latifúndios alentejanos e para o estrangeiro (nem sempre de forma legal). Há que não esquecer a repressão que havia, a PIDE, os desaparecimentos, a tortura, o exílio, os prisioneiros políticos, os milhares de delatores cujos motivos acabavam por ser mais questiúnculas pessoais do que ideológicos…
 
 
O Pão que o Diabo amassou

Em Portugal a vida rural nunca chegou para cobrir as necessidades da população, nunca fomos autossuficientes. A ponto de no século XV termos ido conquistar praças-forte no norte de África à procura de novos campos para cultivar e mercados para explorar. Durante os últimos  séculos a vida rural mostrou-se ainda mais difícil com uma série de pragas que assolaram as colheitas e com o desenvolvimento económico a deslocar-se para as indústrias e para os serviços. Se argumentam que destruímos sistematicamente a agricultura quando entramos para a Comunidade Europeia e que nos pusemos numa posição de ainda maior dependência por causa disso, concordo. Se me sugerem reconstruir essa indústria agrícola, também concordo. Mas é essencial compreender que isso implica que alguém o faça: se ainda há pequenos agricultores no interior norte, no sul os latifúndios continuam nas mãos de alguns poucos e a reforma agrária não passou de um sonho. Muitos dos campos que estão neste momento a ser explorados no sul de Portugal estão nas mãos de alemães, espanhóis e ingleses, encontrando-se os que estão nas mãos de portugueses em situações ruinosas depois de lutas legais durante anos depois de se tentar efetuar alguma reforma (como é o caso de Torre Bela, alvo de outro filme há anos) ou transformados em campos de golfe.

Defendo que se tem de apoiar a agricultura para tentar reduzir a dependência de Portugal de outros países, mas há que perceber o que é a vida rural: difícil, trabalhosa, continuamente ameaçada pelos custos de produção e pelos valores da concorrência, incerta, ainda mais com todas as mudanças climatéricas que vamos vendo. Estes filmes apresentados não o fazem e parecem dedicar-se mais a alguém que se lembra da sua “querida avózinha” que vivia “lá na terra” e que ao fim-de-semana vai plantar o seu talhão da horta comunitária enquanto se sente muito bem consigo mesmo. O que estes filmes apresentam é mentira. Pior, é uma mentira perigosa, que lembra fantasmas do passado ainda demasiado recente e contra os quais, na conversa que se seguiu a um outro filme apresentado no festival, Marco Gastine nos avisou, exemplificando com a situação grega e a subida dos neo-nazis a segunda força política do país.
 
Sobre Viver 

Num ano em que o festival se queria definir como resistência, alguns foram os bons exemplos disso, mas a competição nacional estava minada com filmes protofascistas que denotam uma corrente de pensamento na comunidade cinematográfica muito negra e feia. Se a produção cultural mostra quais as preocupações e as ideias que surgem para as ultrapassar e se os filmes que fazem o percurso dos festivais estão ainda à margem do “mainstream” é de esperar que não falte muito para que se vejam formas mais abertas e mais virulentas desta corrente ideológica na produção mais “popular”. A noite aproxima-se, usando as palavras de Dylan Thomas: “Rage, rage against the dying of the light.”

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