Morreu aos 91 anos a atriz francesa Brigitte Bardot, ícone do cinema francês. A informação foi confirmada pela Fundação Brigitte Bardot à agência Associated Press, que acrescentou que a atriz morreu na sua casa, no sul de França.
Estrela internacional após o sucesso de E Deus Criou a Mulher (1956), de Roger Vadim, Bardot tornou-se símbolo de uma nova representação feminina no ecrã e trabalhou, entre outros, com realizadores como Julien Duvivier (A Mulher e o Fantoche, 1958), Henri-Georges Clouzot (A Verdade, 1960), Jean-Luc Godard (O Desprezo, 1963; Masculino Feminino,1966), Édouard Molinaro (Uma Encantadora Idiota, 1964) e Louis Malle (Viva Maria!, 1965).

Paralelamente à carreira no Cinema, cantou ao lado de Serge Gainsbourg em temas como Bonnie and Clyde (1967) e, a solo, em canções como Je reviendrai toujours vers toi ou Harley Davidson. Participou ainda em filmes como As Noviças (1970) e Se D. Juan Fosse Uma Mulher (1973), onde reencontrou Vadim. Foi também um ícone de moda do período, associada a marcas como a Dior e a Pierre Cardin.
Em 1973, Bardot abandonou o cinema e seu status para se dedicar inteiramente aos direitos dos animais. “A primeira parte da minha vida foi como um rascunho da minha existência “, a segunda parte trouxe “as respostas para as perguntas que eu vinha me fazendo até então “, disse, então com 83 anos, no seu livro, Larmes de combat, em 2017.
Figura polémica nas últimas três décadas, Brigitte Bardot casou-se com Bernard d’Ormale, conselheiro de Jean-Marie Le Pen, que permaneceu seu marido até ao fim da vida. Foi condenada cinco vezes por incitamento ao ódio racial, em particular contra muçulmanos, tendo sido durante cerca de trinta anos uma exceção na cultura francesa: a única estrela a assumir publicamente a extrema-direita gaulesa.

Defensora acérrima dos direitos dos animais, descreveu a espécie humana como “sanguinária” e financiou, através da sua fundação, campanhas de denúncia contra os maus-tratos a animais, em particular contra a caça. Numa dessas campanhas, os cartazes exibiam a frase “Caçadores, salvem vidas, fiquem em casa”, acompanhada de dados estatísticos relativos a 2019 e 2020: 141 acidentes de caça, incluindo 11 mortes, e cerca de 30 milhões de animais abatidos em França.
Nesse mesmo ano, numa carta aberta dirigida ao responsável local da ilha da Reunião, departamento ultramarino francês no oceano Índico, Bardot acusou os habitantes de maus-tratos a animais, descrevendo a situação como uma “barbárie” e classificando a população como “degenerada”, afirmando ainda que a ilha seria um espaço “demoníaco”. Na carta escreveu que “os nativos mantiveram os seus genes selvagens”, associando-os a reminiscências de “canibalismo dos séculos passados” e a “tradições bárbaras”.
Criticou igualmente o Papa Francisco por, segundo afirmou, nada fazer para melhorar as condições dos animais, considerando “aberrante” a decisão de permitir o consumo de carne durante os 40 dias da Quaresma, e foi uma defensora feroz do fim das touradas.
Noutra carta pública, Bardot agradeceu aos movimentos juvenis internacionais mobilizados pela defesa do planeta. “Viva! Bravo! Obrigado! A toda a juventude internacional que, como um vulcão, se revolta para salvar um planeta que está a morrer. Todos os governos mundiais têm sido cobardes e enfiaram a cabeça na areia durante muitos anos”, escreveu numa mensagem publicada no Twitter.
Quando o movimento #MeToo ganhou força a nível internacional, em especial em França com o #BalanceTonPorc, Bardot criticou as suas orientações, afirmando, numa entrevista, que muitas das denúncias tinham um caráter “ridículo, hipócrita e sem interesse”. Criticou ainda atrizes que, segundo ela, “provocam os produtores para obter um papel”, acrescentando: “Em relação às atrizes, e não às mulheres em geral, [o assédio sexual] é, na grande maioria dos casos, hipócrita, ridículo e sem qualquer interesse. Nunca fui vítima de assédio sexual. Pensava que era bom dizerem-me que eu era bonita ou que tinha um rabo bonito”.
Horas depois de Roman Polanski ter anunciado que iria faltar à cerimónia de entrega dos Césars em 2020 por temer um “linchamento público”, Bardot manifestou o seu apoio ao realizador nas redes sociais: “Felizmente Polanski existe e salva o Cinema da sua mediocridade. Julgo-o pelo seu talento e não pela sua vida privada. Lamento nunca ter filmado com ele. Viva Roman!”.
O Presidente francês Emmanuel Macron — alvo de críticas recorrentes por parte de Bardot ao longo do seu mandato, tendo a atriz apoiado inclusivamente o movimento dos coletes amarelos — reagiu à sua morte descrevendo-a como “uma lenda do século”, sublinhando a sua influência cultural, artística e simbólica, bem como o seu empenho na defesa dos direitos dos animais.
Brigitte Bardot deixa um filho, Nicolas-Jacques Charrier.

