Ao ouvir o nome do mito parisiense François Truffaut (1932-1984) numa evocação cinéfila do que fez em Olmo, o mexicano Fernando Eimbcke abre um sorriso cúmplice de quem usou a sua própria relação com o audiovisual para criar um balanço geracional com ecos do passado e olhos postos no futuro. O mais recente exercício autoral do realizador de Temporada de Patos (2004) nasceu no Panorama da Berlinale e conquistou destaque (cercado de elogios) em Espanha, no Festival de San Sebastián. Eimbcke concorre na secção Horizontes Latinos com uma narrativa que transpira lirismo truffautiano imagem a imagem, evocando – ainda que inconscientemente – o clássico maior do pilar da Nouvelle Vague, Os 400 Golpes (1959).
“No fundo, a juventude que Truffaut mostrou é semelhante àquela retratada por mim, sobretudo porque os filmes falam entre si ao longo do tempo“, disse Eimbcke ao C7nema, numa celebração da boa fase que o seu país vive nas telas. “Mudou muita coisa para o México, no cinema, quando Amores Perros foi lançado (em 2000), mas a minha cabeça transformou-se em relação ao que a minha nação poderia fazer no ecrã quando vi Sólo Con Tu Pareja, de Alfonso Cuarón (1991). Foi aí que percebi os caminhos que a produção mexicana poderia tomar.“
Mais conhecido por Lake Tahoe (2008), Eimbcke fez Olmo com produção da Plan B, de Brad Pitt. O enredo decorre em 1979, no Novo México, EUA. O protagonista, interpretado por Aivan Uttapa, está preso em casa: é a sua vez de cuidar do pai doente, apesar de ter apenas 14 anos e preferir passar o tempo com o melhor amigo, Miguel. Quando Olmo é convidado para uma festa pela sua bela vizinha Nina, fará de tudo para se libertar das suas obrigações, embarcando numa jornada de travessuras e caos. À medida que a noite se desenrola, poderá acabar por amar o lugar de que passou tanto tempo a tentar fugir: a sua própria casa.
“Não gosto do conceito de family film, que remete para obras feitas para toda a família. O que me interessa são pessoas em conflito com os seus parentes, no momento da descoberta dos desejos, com Eros e Tânatos em choque“, explica o realizador, que contou com a brasileira Carolina Costa como diretora de fotografia. “Como qualquer adolescente, Olmo tem dificuldades com a figura paterna, até perceber que a sua raiva contra o pai surge precisamente num momento de dor.”
No sábado, o júri dos Horizontes Latinos anunciará o vencedor da sua láurea oficial.

