“Narrativas híbridas são inflamáveis”, diz Lucía Puenzo

(Fotos: Divulgação)

Investimento radical do cinema argentino na seara dos filmes de género, próximo do body horror, “Los Impactados” traz a cineasta, guionista e professora Lucía Puenzo para o Festival do Rio, onde abriu um debate sobre a força da dramaturgia portenha no grande ecrã.

Existem muitos motivos por trás dessa potência audiovisual argentina. Há o facto de termos uma vasta tradição de filmes de ficção na nossa História. Temos uma Lei de Cinema criada em 1994 que protege a nossa produção, com fundos para o fomento. Há, ainda, o facto de nossa educação pública ser boa, com muitas escolas de qualidade que oferta ensino gratuito“, diz Lucía ao C7nema na sede do Festival do Rio, na Glória. “Ainda sinto que a parceria do Brasil com a produção de outros países latinos é pequena“.

Potente e plural no diálogo com os filmes de género, sobretudo nas comédias (“Puan“, “Los Delincuentes” e “O Auge Do Humano 3“), a leva de longas-metragens vindas da Argentina para o Festival do Rio imputa a “Los Impactados” uma tarefa estética árdua de mesclar sci-fi, suspense e melodrama sem perder de vista as trilhas da política sul-americana.

O coração do meu cinema é político e, neste filme, falamos de uma mulher de classe média que prefere viver entre os animais do que numa grande cidade“, diz Lucía, que exibiu “Los Impactados” no Rio nesta quinta-feira, no Estação NET Rio.

Em passagem pelo Brasil, Lucía vai lançar um romance chamado “Os Invisíveis“, que é publicado pela editora Gryphuss. A trama é inspirada em uma curta-metragem da sua autoria, que retrata a desigualdade social argentina e aborda o tema da infância roubada. Vivendo nas ruas, dois adolescentes e um menino de seis anos são recrutados por um ex-policia, para realizar delitos em casas de luxo.

O processo literário consiste em não saber qual é a frase seguinte. O jogo de escolhas das palavras é que move a literatura, uma arte da qual sou muito próxima. Meu marido é escritor e leio muito“, diz Lucía, que tem mais duas sessões de “Los Impactados“: no sábado, às 20h45, no Estação NET Gávea, e no domingo, às 13h30, no Kinoplex São Luiz.


Trata-se da narrativa mais pop da realizadora, que angariou prestígio entre os seus hermanos da América Ibérica pelo seu trabalho como analista de diálogos em guiões e como guionista. “XXY” foi um marco em Cannes em 2007 e ela seguiu numa linha de escrita autoral sobre corpos que não se adequam a normas da Biologia ou das Ciências Sociais (como “Wakolda“). Mas o seu percurso prévio seguia uma montagem morna, sem declives, de raras viragens. Era um cinema acomodado às rotinas do mundo. Só que algo muda – e para melhor – no regresso ao circuito dos festivais, pelos Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, onde estreou.

O processo de montar um filme numa ilha de edição é bem próximo da literatura. Editar imagens é cortar palavras, é saber condensar cenas“, diz Lucía, que adota como protagonista a atriz Mariana Di Girolamo .
Triagem de perversões, “Los Impactados” tem vários elementos em comum com o genial “Crash” (Prémio do Júri de 1996 em Cannes), de David Cronenberg, e com o irmão mais novo desse filme de culto, o igualmente brilhante “Titane” (Palma de Ouro de 2021). o seu objeto é a eletrofilia, o prazer sexual com choques e cargas elétricas. O prazer que a eletricidade pode gerar não é explicitamente discutido. É graficamente provado. Não é uma tese. É cinema, e Lucía sabe dirigir com elegância, dando evidências de destreza no trato com a gramática do sci-fi sobrenatural. Não há misticismo na trama, há hipóteses relativas das leis da Física.

Foi um projeto rodado ao longo de seis semanas com uma equipa de 15 pessoas ns VFX, para fazer os efeitos visuais de forma artesanal“, explica a cineasta, que vai rodar no México a série “Futuro Desierto“, sobre realidade artificial. “Filmo entre fevereiro e março esse projeto da Paramount“.

O mote de “Los Impactados” é uma hipótese que a força de um raio pode mudar a psique das suas vítimas e também do seu organismo. É o que vai ocorrer com a veterinária Ada (papel de Mariana, numa pujante atuação) depois de ser alvejada por uma forte descarga durante uma chuva. A sua mente entra em crise e o seu corpo passa a sofrer sintomas de desconforto. Porém, a descoberta de um grupo (quase uma sociedade secreta) de pessoas que se acidentaram com os espasmos elétricos do céu vai empurrar Ada para uma subcultura cheia de mistérios, mas de alta voltagem erótica.

Os cineatas a que eu me reporto – Bruno Dumont, David Lynch, Michael Haneke, Cronenberg – especializaram-se em um cinema híbrido, entre o género e um debate quase psicanalítico sobre o sexo“, analisa Lucía. “Narrativas híbridas são materiais inflamáveis. A montagem é que encontra o tom preciso“.

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