Incumbida da missão de apresentar, noite após noite, os filmes em competição da Première Brasil do Festival do Rio 2023, da qual é uma das curadoras, a cineasta Karen Black também entra em campo com um filme da sua autoria (e marca de autor) no evento. Na sexta, às 19h (0h em Lisboa), ela exibe “Helena de Guaratiba” na Estação NET Botafogo 1. Há mais uma sessão da curta-metragem, agendada para domingo, às 21h30, no Estação NET Rio 2.
Classificada como um dos radicais livres da cultura audiovisual brasileira, a cineasta, montadora e pesquisadora mergulha nas águas da Praia de Grumari, no Rio de Janeiro, e nas profundezas de Guaratiba, levando consigo o mito de Helena de Troia. Deslocando-o no tempo e no espaço, numa reflexão sobre o etarismo, a realizadora de “Delete Deleite” (2014) e de “Acossada” (uma produção de 2006, rodado em duo com Karen Akerman) dirige uma das mais aclamadas atrizes do país: a baiana Helena Ignez. Com um enorme culto como estrela desde o desempenho em “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), marco do Cinema de Invenção filmado pelos seu companheiro de vida e de filmes, Rogério Sganzerla (1946-2004), Ignez é respeitada internacionalmente também como realizador, tendo sido premiada em Locarno por “Luz nas Trevas”, em 2010).
“O filme é uma clara homenagem para a Helena Ignez, uma das maiores atrizes do Brasil, tanto no Cinema Marginal quanto no Cinema Novo, respeitada como realizadora também”, diz Karen ao C7. “Aos 80 anos, ela ainda segue criando, com um firme compromisso com a liberdade e pela emancipação feminina. Imagina você ser atriz ali no Cinema Novo, que era um ambiente masculino…”

“Helena de Guaratiba” aposta num elenco plural. Cauã Reymond, Wilson Rabelo e Djin Sganzerla (filha de Helena e também cineasta) integram a trupe dessa produção. As filmagens aconteceram cerca de um mês antes do aniversário de 80 anos de Ignez, que nasceu no dia 23 de maio de 1942. Na trama, ela interpreta Helena, uma senhora de 80 anos que leva uma vida pacata em Barra de Guaratiba, um bairro de pescadores na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Um dia, para escândalo da comunidade, um homem de 40 anos se apaixona por ela, e o casal terá que enfrentar o etarismo e o machismo da sociedade para viver o seu amor.
“A guerra de Tróia foi um conflito por territórios e o bode expiatório foi Helena. Ela levou a culpa e passou a História com grande culpada. Creio que o mito de Helena carrega essa perversidade, essa periculosidade que circunda a mulher. Então, o meu filme se propõe a imaginar a Helena de Tróia velha, fugindo desse destino, da tragédia grega, do destino de ser a mulher mais bela do mundo e de ter causado uma guerra. Só que é difícil fugir do passado”, define Karen. “A Helena de Guaratiba é a Helena de Tróia que ficou velha, mas que há séculos carrega essa culpa que lhe foi imputada. O filme é um pouco uma defesa de Helena. Eu chamei um homem lindo para contracenar com Ignez, o Cauã Reymond. É um filme popular, que tem um coro funk”.

