Vencedor do Urso de Ouro de 1972 por “I Racconti di Canterbury”, Pier Paolo Pasolini (1922–1975) foi poeta, dramaturgo, pensador dos terremotos sociológicos do pós-guerra e ícone da cultura queer. Já era guionista antes de se lançar como realizador, a partir de 1961, com “Accatone”. A sua morte, atribuída a prostitutos, encobre um silenciamento político. A forma de ele se expor, nos écras e em palavras, por vezes desagrava a esquerda tanto quanto incomodava a direita, respingando ainda sobre anarquistas. Sinónimo de transgressão, numa luta ferrenha contra o moralismo, ele passeou pelo Brasil no início dos anos 1970, quando teve um relacionamento com um jovem que o levou à periferia carioca, para uma imersão num Rio de Janeiro das favelas. Esse romance foi recriado pelo poeta e realizador Luiz Carlos Lacerda, mais conhecido como Bigode, no filme “Celebrazione”, que o Festival do Rio exibe nesta terça-feira. Há uma sessão esta noite, às 19h, no Estação NET Botafogo; na quarta, às 17h, no Estação NET Rio 2; e no sábado, dia 14, às 15h45, no Reserva Cultural.

“Existiu a New Left americana, mas Pasolini é a Novíssima Esquerda. Gay e comunista. Pagou caro por isso”, diz Bigode ao C7nema, que acompanhou as filmagens, na Lapa e no Arpoador. “A favela é o Coliseu onde vivem os cristãos perseguidos pelo poderosos”.
Entre o centro do Rio e a praia, ele reinventou a visita do cineasta bolonhês à América do Sul, na companhia da cantora lírica Maria Callas (1923-1977). Zulma Mercadante vive Callas e Erom Cordeiro interpreta Pasolini, numa produção de Cavi Borges, feita em esquema de guerrilha, sem o apoio de editais públicos. “Pasolini tomou posições polémicas, mas sempre corajosas, ao perceber na sociedade uma mudança do fascismo para o consumismo. O primeiro impacto que Pasolini teve sobre mim foi quando vi seu genial ‘O Evangelho Segundo São Mateus’ e descobri um Cristo que trazia a espada e não ‘oferece a outra face’. Era algo que se encaixava bem com o meu olhar de formação comunista”, explica Bigode, também poeta, que prepara o lançamento de dois novos livros: “Labirinto Febril” e “Amorosa Ciência”.
Assistente de realização de figuras-chave como Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), e realizador de documentários (“A Mulher de Longe”) e ficções (“O Princípio do Prazer”), Bigode esboça uma narrativa que procura uma movimentação da câmara operística, delirante e vertiginosa como “Decameron” (Prémio Especial do Júri na Berlinale de 1971). Ele define o Rio de Janeiro que retrata como a metonímia de um país que mata homossexuais.
“Filmei essa produção em referência a uma poética de sangue, discutindo o preconceito contra os quais Pasolini se insurgiu, sendo sacrificado por isso. Esse Rio de outrora foi uma cidade afrodisíaca, libertária, onde um importante intelectual como ele, encontra o amor, mesmo que fortuito e tabelado. Mas que se permite absorver por uma empatia entre duas pessoas culturalmente distintas e, numa espécie de safari social, abre portas do Conhecimento de seu mundo tão distante. Essa viagem foi um intercâmbio de viveres, de poesia”, explica Bigode.
Ao longo dos anos em que trabalhou com Nelson Pereira, como assistente, em filmes como “Azyllo Muito Louco” (nomeado à Palma de Ouro de 1970), Bigode teve um impacto frontal da influência que o neorrealismo teve no cinema moderno brasileiro.
“É a nossa matriz, a nossa fonte de libertação do modelo hegemônico de ação dos estúdios, que fracassaram ao tentar reproduzir as fórmulas do cinema industrial americano, dono do mercado mundial”, diz Bigode.
Fábrica viva de energia, ora trocando impressões estéticas com o diretor de fotografia Matheus Lisbôa Matarangas, ora mirando detalhes técnicos com a diretora de produção Carolina Dib, Bigode inflamava as rodagens com observações sobre a dimensão poética de Pasolini, nos seus escritos e seus filmes. Multiartista, Pasolini se apresentava como “escritor”, tendo escrito poemas e peças e publicado livros seminais como “Amado Meu” (publicado postumamente há 40 anos). Em “Celebrazione”, um poema do realizador de “Salò” (1975), escrito sobre o Rio, norteia a dramaturgia de Bigode. “O texto desses versos compara os meninos prostitutos de Roma com um rapaz que ele conheceu em Copacabana. Há uma analogia entre a pobreza italiana com a das favelas onde foi levado pelo namorado e os dois fascismos – o brasileiro, na sua versão de 1970, da ditadura escancarada, e o italiano, responsável por seu assassinato, na praia de Ostia”.

