‘Mulheres Radicais’: sinergias femininas

(Fotos: Divulgação)

Na forte leva documental do Festival do Rio 2023 – já bem defendida por “Utopia Tropical”, de João Amorim, na abertura da seleção competitiva do evento, na sexta -, há uma produção com foco nas artes visuais e no espectro feminista da cultura brasileira que vem despertando a curiosidade e a expectativa do público cinéfilo do evento: “Mulheres Radicais”. A produção traz a grife da editora e jornalista Isabel De Luca no argumento(confeccio nado por Julia Anquier e as montadoras Jordana Berg e Bianca Oliveira) e na produção-executiva. É um filme dela e de Isabel Nascimento e Silva (“De Você Fiz Meu Samba”), que assina a realização com o requinte que lhe vem sendo um engrama autoral.  A sessão de estreia foi neste domingo, às 19h (0h em Lisboa), no Estação NET Gávea, centro nervoso da maratona cinéfila do RJ.  

É um exercício autoral de sinergia, e requinte. Entre 2017 e 2018, uma exposição histórica reuniu 120 artistas plásticas latino-americanas que produziram trabalhos seminais entre os anos 1960 e 1980. A mostra, que dá nome ao filme, revelou, na sua maioria, nomes que passaram a ser reconhecidos e celebrados pela primeira vez. Onze artistas aceitaram participar de encontros inéditos promovidos pelo documentário em Nova Iorque e São Paulo, enquanto a exposição — fruto de pesquisa que durou quase uma década — abria um novo capítulo na história da arte do século XX. 

Essas Mulheres Radicais nunca foram reconhecidas e nem tinham conhecimento umas das outras, embora suas vivências sejam muito parecidas: mulheres, latinas, com experiências de ditadura, prisão, exílio, tortura, violência, censura e repressão vinculadas à situação política, cultural e social vivenciada por grande parte do continente na época”, explica De Luca, em entrevista ao C7nema. “Foram precursoras não apenas por serem mulheres, mas por ampliarem e tensionarem os sentidos tradicionais da arte. Elas inventaram a performance, a videoarte – com modalidades híbridas que misturam dança, teatro – e inovaram no uso do corpo nos trabalhos. Esse recorte é muito poderoso porque nunca foi feito, não sabíamos que era todo um movimento latino de artistas com uma obra que hoje percebemos quase como uma escola, e é radical até hoje”.

Ela e Isabel Nascimento e Silva estiveram juntas no filme sobre viúvas de baluartes do samba carioca que foi uma das sensações do Festival do Rio de 2022 e voltam a combinar talentos. “Existem momentos de total sintonia, mas também tem momentos que a gente discorda. Mas com o tempo, com o respeito e admiração, conseguimos construir um filme a quatro mãos”, diz Nascimento e Silva. “O método que usamos foi um bem básico. Cada uma entregou o que sabia mais. De Luca fez um guião poderoso, escalou um elenco de artistas extraordinárias que tinham trabalhos viscerais e relevantes para história da arte contemporânea. E eu fui para a edição, com a missão de contar essa estória de um jeito dinâmico, irreverente, com uma trilha que emocionasse, um design arrojado. E, também, em algum momento, meti-me no guião e ela intrometeu-se na realização. Mas isso é também trabalho coletivo. E não existe nada que me emocione mais na vida do que as parcerias femininas”.

Essa conjugação de pura covalência foi essencial no trato com as entrevistadas, como explica De Luca ao C7nema: “Desde o início optamos por não entrevistá-las. Elas estavam se conhecendo, e se reconhecendo umas nas outras. O documentário se estrutura a partir do conceito de rede. A primeira artista convidada – a paulistana Lenora de Barros – escolheu livremente outra para entrevistar, e esta, por sua vez, elegeu uma terceira, e assim por diante, numa corrente que nos leva a conhecer, por meio de vivências reais, a arte, o pensamento e os afetos dessas mulheres. E quando colocas duas mulheres para conversar, tudo acontece. Elas choram, riem, trocam confidências, se emocionam. Nós duas começamos a atuar mais efetivamente, para além dessa grande produção que foi juntar essas artistas, a partir do filme filmado: vamos manter a ordem da rede? Vamos subverter? Subvertemos, claro. E minha parceira-xará foi fundamental nesse embaralhamento”.

Vai haver mais uma sessão nesta quarta-feira, às 13h45, no Estação NET Gávea. No feriado, quinta (dia 12), o filme será projetado às 20h45 no Estação NET Rio 3.

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