Cinco anos depois de apresentar no festival “A Favorita”, o grego Yorgos Lanthimos regressou a Veneza, novamente na competição, desta vez com um conto fantástico, baseado no romance homónimo do autor escocês Alasdair Gray, em que o monstro “Frankenstein” é substituído por uma bela e volátil erotomaníaca, Bella Baxter (Emma Stone), que é trazida de volta à vida com o cérebro de uma criança.
Em “Poor Things”, a personagem de Bella Baxter é na verdade Victoria Blessington, uma mulher que se suicida (por afogamento) para escapar aos abusos provocados pelo marido, o general Sir Aubrey Blessington. No entanto, o brilhante e heterodoxo cientista Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe) ressuscita-a, removendo o cérebro do feto que ela carregava e colocando-o no seu crânio, dando à Bella a idade mental e as faculdades de uma criança. Sob a proteção d e Baxter, Bella está ansiosa para aprender e, faminta por conhecer o mundo, foge com Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), um advogado. Livre dos preconceitos da sua época, Bella cresce firme no propósito de defender a igualdade e a libertação.
Apesar do seu cenário vitoriano, Lanthimos afiança que a história é “muito contemporâneo”, pela forma como explora “a liberdade e a maneira como percebemos o mundo” e “a posição das mulheres na sociedade”.

Preenchido com múltiplas cenas de sexo, Lanthimos declarou que era importante não fazer um filme púdico, em particular para respeitar a obra original que adaptou ao cinema: “O sexo é uma parte intrínseca do próprio romance, a sua liberdade sobre tudo, incluindo a sexualidade (…) Foi muito importante para mim não fazer um filme que fosse pudico, porque isso seria como trair completamente a personagem principal”, disse o cineasta, lamentando que Emma Stone não estivesse presente em Veneza para falar sobre o tema.
Após quatro colaborações com a atriz norte-americana, Lanthimos explicou que hoje em dia consegue comunicar com ela “sem ter que explicar ou falar muito sobre as coisas”: “Tínhamos que ter certeza de que Emma não tinha vergonha de seu corpo, da nudez, de se envolver nessas cenas e ela entendeu isso imediatamente. (…) Sentamo-nos com a Emma em algum momento e decidimos que tipo de posição faríamos aqui, que tipo de coisa faríamos lá e o que estava a faltar – a partir das experiências de sexo e dos diferentes desejos que as pessoas têm – a fim de fazer uma representação suficiente dos desejos e idiossincrasias humanas. Era importante para todos nós que isso fizesse parte do filme e não nos esquivássemos disso.”
Ainda assim, para essas cenas, foi requisitada a figura do coordenador de intimidade, um standard em qualquer produção de Hollywood. E se, inicialmente, essa profissão parecia um pouco ameaçadora para a maioria dos cineastas, Lanthimos mostrou ter tido uma boa experiência com Elle McAlpine: “É como tudo. Se estás com uma pessoa boa ao lado, é ótimo e percebes que realmente precisas dela (…) Ela tornou tudo muito mais fácil para todos.”

