Estreado no Festival de Cannes, “Rapito” (“Kidnapped“) aborda um dos mais escândalos que a igreja católica viveu, ao contar a história de Edgardo Mortara, um menino judeu que, no século XIX, foi sequestrado para ser criado como cristão.
Apesar da boa receção ao filme na Croisette, em alguns círculos mais conservadores da igreja surgiram críticas e defesas às decisões do Papa Pio IX na época, o que motivou o atual rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, numa carta aberta ao jornal La Repubblica, mostrar a sua preocupação.
Curiosamente, o jornal da Cidade do Vaticano, o Osservatore Romano, já opinou sobre o assunto com um editorial na passada terça-feira, observando que hoje em dia o sequestro de Edgardo Mortara “não poderia repetir-se”, pois “o Concílio II do Vaticano, que durante o início da década de 1960 aproximou a Igreja das necessidades e condições do mundo moderno“, ajudou a mudar a perspetiva ”daqueles tempos em que “todas as crianças batizadas deviam ser educadas sobre os desígnios católicos, mesmo contra a vontade dos pais”.
Recordamos que mesmo com um enorme escândalo na época, o papa Pio IX chegou a ser beatificado pela Igreja Católica, algo que para o realizador do filme foi um absurdo. “Isso não foi só considerado um insulto, mas um crime, para a comunidade judia.”, explicou o realizador Marco Bellocchio em Cannes. “O meu interesse neste filme era contar a história deste rapaz que foi raptado pela Igreja, na figura do papa Pio IX, através do batismo. Este género de raptos eram muito comuns na época. Começaram no século XVI e duraram até 1858 (século XIX), quando aconteceu o caso do Edgardo. Tudo se baseia num princípio associado ao batismo, ou seja: quando és batizado, pertences à igreja e tens de ser educado conforme os seus ensinamentos católicos. O poder da igreja era enorme. As pessoas protestavam, mas era impossível haver uma reversão, pelo menos até ao caso do Edgardo. A razão pela qual o caso do Edgardo trouxe um enorme escândalo foi porque coincidiu com o fim do pontificado e da ligação da igreja ao estado.”.
“Rapito” (“Kidnapped“) tem distribuição assegurada no nosso país, embora ainda não exista data de estreia.

