Quentin Tarantino pode não ter conseguido estrear “Reservoir Dogs” na Quinzena dos Realizadores (agora renomeada de Quinzena de Cineastas) em 1992*, mas hoje, 25 de maio de 2023, a secção paralela ao Festival de Cannes fez o seu mea culpa e dedicou grande parte desta quinta-feira ao norte-americano, que além de ter tido uma conversa em palco sobre algumas passagens do seu livro “Cinema Speculation“, apresentou a exibição de “Rolling Thunder”, o filme surpresa da sessão.
E foi por “Rolling Thunder” e o cineasta John Flynn que começou a conversa de Tarantino, que com o seu entusiasmo comum, quando fala da 7ª arte, transmite uma energia que capta imediatamente a atenção da plateia. “Gosto de eletrizar a audiência”, disse a certo momento, referindo-se aos seus filmes. Porém, a frase também se aplica às palestras que dá.
E embora o realizador tenha se sentido tentado em falar um pouco do seu novo projeto, “The Movie Critic”, acabou por não o fazer, adiando assim detalhes mais concretos sobre o enredo baseado num jornalista de pornografia que Tarantino leu enquanto trabalhava como repositor de máquinas de vendas automáticas. O que se sabe é que o filme passa-se no sul da Califórnia, em 1977, com uma personagem semelhante à de Robert De Niro como Travis Bickle em “Taxi Driver” de Martin Scorsese.
Do que Tarantino não se esquivou, tagarelando sem parar, foi da antipatia de Paul Schrader para com “Rolling Thunder”, tal qual o realizador de “Pulp Fiction” tem por “Natural Born Killers” de Oliver Stone. “O Paul Schrader não reconhece este filme como seu, assim como não reconheço a versão de Oliver Stone de “Natural Born Killers”, pelos mesmos motivos“.

Sobre a responsabilidade dos cineastas para com o público, Tarantino referiu não gostar “do compromisso social na arte” e que toda a gente sabe do seu fascínio pela violência, ainda que contextualizada. Como exemplo, o cineasta usou “Era uma Vez …em Hollywood”, quando colocou os assassinos de Sharon Tate a baterem na porta errada: “Escrevi esse filme porque queria salvar a Sharon Tate. Queria que aqueles filhos da p*** fossem dar à casa errada e tivessem de lidar com as consequências”.
Ainda sobre este tema, Tarantino não gosta de ver animais (mesmo insectos) a serem mortos para a concretização de um filme, algo que acontece frequentemente na Europa e na Ásia: “Reconheço, gosto de filmes violentos assim como outras pessoas gostam de comédias, musicais, dramas. Mas há sempre limites: eu, por exemplo, não suporto ver animais a serem feridos ou mortos para se fazer uma cena. Nunca pagaria para ver um filme snuff”. Mantendo coerência no discurso, ele reforçou que nenhuma pessoa é morta para fazer um filme, acrescentando que a criação de cenas de grande violência no grande ecrã “é uma brincadeira de adultos a serem crianças” e que o ato da vingança, que vemos em vários dos seus projetos, “não é uma necessidade”.
Houve ainda tempo para o realizador defender e elogiar Brian De Palma, dizendo que este é um dos realizadores que já lhe provocou maiores discussões na sua vida, algumas das quais onde quase chegou a vias de facto. “Toda a gente gosta do Scorsese e do Spielberg, Ninguém vai falar mal deles e eu não vou ficar do lado da miúda mais popular da escola. Não é isso que estou interessado em fazer. A beleza de falar sobre De Palma é que podemos discuti-lo, fazer debates gigantescos sobre ele“.
Falando sobre John Ford, que definiu como alguém que sempre tentaram “cancelar” ainda antes da “cultura do cancelamento”, Tarantino disse que tem alguns problemas morais com o final de alguns dos seus filmes, mas que não podemos olhar para trás com os olhos de hoje. “Há que ver e estudar como as pessoas eram naquele tempo”.
O Festival de Cannes termina no dia 27 de maio.
* o filme estreou na secção Midnight

