Abel Ferrara: “Acabaram-se os dias de limusinas e champanhe. Os filmes têm de ser feitos com menos dinheiro”

(Fotos: Divulgação)

Depois de uma passagem pelo IndieLisboa, «4:44 Último dia na Terra» chega agora comercialmente às salas. Assinado pelo corrosivo Abel Ferrara, na obra seguimos um casal apaixonado que descobre que às 04h44, mais segundo menos segundo, o mundo vai chegar ao fim e a extinção é uma realidade. Uns fumam o seu último cigarro ainda com a esperança que no último minuto aconteça um milagre. Essa não é a postura do casal, que tal como a maioria da população da Terra, aceita o seu destino: é o fim.

O c7nema teve a oportunidade de falar com Abel Ferrara em Veneza. Aqui ficam as suas palavras: 

A Ideia do fim do mundo é algo que o preocupa?

Não é algo que esteja sempre a pensar. Não estou preocupado com o fim do mundo. Toda a gente pensa na morte e basicamente eu consigo mais dos atores quando paro de dizer que vem aí o fim do mundo às 4:44 e lhes digo “esta noite vais morrer”. Não penses no mundo, pois no final todos morrem sozinhos. Quando dizemos a alguém que às 4.44 ela vai morrer, aí chamamos totalmente a sua atenção.

Partilha das preocupações ambientais de Al Gore?

Quanto tempo podemos lixar o planeta e safar-nos com isso? Não sei. E acho que ninguém sabe. Toda a gente fala dos experts, mas depois as coisas acontecem e pensas… ninguém sabe nada. O mercado de capitais entra em queda livre e os entendidos na matéria não sabem o que dizer. Ninguém tem a mínima noção das coisas. Vejam o que aconteceu no Japão com o Tsunami. Há qualquer coisa que acontece sempre e qualquer coisa pode sempre acontecer. Por exemplo, o mundo até pode acabar como diz na Biblia, quem sabe? Até aquelas previsões matemáticas. Eu não sei se vocês sabem, mas em Nova Iorque anda toda a gente a falar que o mundo vai acabar a 23 de Maio. Toda a gente fala disso. Eu até disse a mim mesmo, «tenho de conhecer o tipo que espalhou esta data e contratá-lo para publicitar o meu filme (risos)…Toda a gente fala disso.

Na verdade, tudo isto é algo que temos de pensar, sem qualquer dúvida. Tem havido tantas civilizações que foram extintas, e até eram bem mais avançadas que nós. Isto faz-nos pensar e voltar atrás. 

Mostrou o filme ao Al Gore?

Não, ainda não. Nós acabámos o filme agora. Vocês foram os primeiros a vê-lo. Não tenho a certeza se ele vai ter uma opinião positiva. Quando escolhi este projeto pensei, “este é o maior pesadelo de Al Gore”. 

Acha que este é um filme que vai fazer as pessoas pensar? Não sobre o fim do mundo, mas como um aviso?

Sobre o facto de ser um aviso não sei. No meu país as pessoas têm uma atitude de pensar que tudo isto é um esquema e o Al Gore está a fazer uma fortuna à conta disso. É como os idiotas que querem ver a certidão de nascimento do Obama. 

Tem que se aceitar o facto que o meio ambiente pode ser destruído e que estamos contribuir para isso. Mas claro, vai chegar a um ponto em que o “relógio ecológico” vai entrar em grande ebulição.

É interessante, mas não entra em muitos detalhes sobre a razão do fim do mundo…

Eu não queria fazer uma análise científica e acho que toda a gente percebe porquê. 

Chegou a fazer pesquisas para encontrar algo que pudesse acabar com o mundo?

Há sempre pesquisa, mas é um filme. Os meus amigos cientistas disseram-me para eu não entrar por aí. Para mim, a série «Twilight Zone» foi tão importante como um amigo qualquer de Stanford. É um filme e não faço ideia do que aconteceria se a camada do ozono chegasse aquele ponto…

O final do filme sempre esteve claro para si?

Sim. O filme chama-se «The Last Day on Earth», por isso eu tinha o fim (risos) Nós tínhamos o final e sabíamos que ia acontecer às 4:44 (risos). Como chegariamos até aí, essa é outra história.

É pessimista com o futuro…

Sou pessimista no sentido de não acreditar, a não ser que sejam apresentados factos danosos, que um filme possa mudar a atitude das pessoas.

Acha que o seu filme pode ter sido mais eficaz que outros de grande orçamento no que diz respeito ao retrato do fim do mundo? 

Depende de quem assistir ao filme. Depende de quantos pessoas veem o filme. Eu não vi o «2012», aliás… vi algumas cenas mas não entendi o seu objectivo. Acho que foi uma desculpa para enviar Santa Mónica para o mar (risos).  Muito CGI. Nem é preciso CGI. Aquelas coisas que vêem no céu no final, na verdade são verdadeiras auroras boreais…

Como é que se arranja financiamento para uma produção como esta?

É incrivelmente difícil e tens de encontrar uma maneira de fazer as coisas sem gastar muito dinheiro. Acabaram-se os dias de limusinas e champanhe. Os filmes têm de ser feitos com menos dinheiro e temos de chegar às pessoas que realmente gostam deles. Não é um grande negócio, aliás, nunca foi. Existe um pequeno grupo de pessoas, como o Johnny Depp, etc, que estão nesse nível, mas todos os outros têm de encontrar a maneira de ganhar a vida a fazer filmes.

 

 

 
 
Link curto do artigo: https://c7nema.net/pexx

Últimas