Marcello Quintanilha vai ao ‘Eldorado’ da BD

(Fotos: Divulgação)

Representado actualmente em ecrãs sul-americanos, em mostras de curtas, com Batalha de Flores — obra extraída pela dupla de cineastas Luis Villaverde e Moira Soares das páginas da sua BD Hinário Nacional —, Marcello Quintanilha, o artista gráfico brasileiro de maior prestígio no mercado editorial de banda desenhada da Europa, tem um novo álbum agendado para 30 de janeiro. Eldorado é o título da publicação preparada pela editora Le Lombard, lançada na esteira dos recentes sucessos do autor, sobretudo Escuta, Formosa Márcia, obra galardoada com o prémio Fauve d’Or no Festival de Angoulême, em França. Trata-se de um thriller que decorre na cidade de Caxias, na região do Rio de Janeiro, conhecida como Baixada Fluminense, onde dois irmãos vivem conflitos num ambiente em que o futebol e o crime se cruzam. É um enredo com o perfume da filmografia dos irmãos Coen — uma alusão recorrente entre os críticos dos desenhos sequenciais de Quintanilha, que já viu a sua obra transposta para o grande ecrã. O Cinema adaptou uma das suas bandas desenhadas mais aclamadas, Tungsténio, num longa-metragem de tonalidade autoral, realizado por Heitor Dhalia.

“O cinema está sempre presente no meu trabalho e não posso, sob nenhum aspecto, dissociá-lo de tudo o que a arte cinematográfica nos deu até hoje como forma de expressão. Mais do que uma revelação, entendo como uma afirmação dessa relação, no modo quase literal como o meu trabalho vem sendo transposto para as telas”, disse Quintanilha ao C7, satisfeito com a trajetória de Batalha de Flores no seu país, neste momento em que Eldorado procura o seu espaço nas livrarias e lojas especializadas em banda desenhada. “A curta está a percorrer o circuito de festivais neste momento, antes de poder ser disponibilizada em alguma plataforma. Talvez isso aconteça no próximo ano. Por enquanto, não temos mais novidades nessa frente.”

Marcello Quintanilha (em foto de Luciana de Oliveira) é hoje o artista brasileiro de banda desenhada de maior prestígio em solo europeu

Questionado pelo C7 sobre a realidade brasileira retratada em Eldorado, Quintanilha é directo e conciso: “Inevitavelmente, o Brasil que me constituiu como ser humano.” A marca autoral da sua estética é o neorrealismo, evidenciado sobretudo na forma como ilustra as metrópoles, sem deixar de lado as suas zonas periféricas e os seus subúrbios. Aclamado pelos seus diálogos curtos, de uma poesia áspera — admirada pelo seu vasto público leitor em trabalhos como Talco de Vidro (2015) e Luzes de Niterói (2018) —, imbui a sua arte de uma nostalgia dolorosa.

“Toda a mobilidade do indivíduo está condicionada a enclaves de deslocamento”, explica o mestre niteroiense da BD. “Articular as premissas do neorrealismo em chave brasileira sempre me interessou profundamente.”

O site oficial da Le Lombard descreve assim o novo trabalho do autor: “Brasil, anos 50. Em Duque de Caxias, Hélcio e a sua família vivem modestamente, mas com dignidade, graças à mercearia que possuem. Mas ele e o irmão, Luiz Alberto, sonham com um destino melhor. Luiz Alberto passa o tempo com o grupo do bairro. Da pequena delinquência ao crime há apenas um passo — que o rapaz não hesita em dar. Hélcio, por sua vez, almeja a realização definitiva, o verdadeiro Eldorado: uma carreira de jogador de futebol profissional.”

“É incrível a forma como o meu trabalho vem sendo compreendido fora do Brasil, sobretudo porque é marcadamente sustentado na cultura brasileira, independentemente de qualquer tentativa de inserção num paradigma supostamente internacionalizado”, explica Quintanilha. “Neste momento, o livro está programado para ser lançado na Bélgica, França e Suíça. Ainda teremos de ter um pouco mais de paciência quanto a outros territórios.”

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