Rio de Sangue é um filme de ação que usa o conflito entre garimpeiros ilegais e áreas indígenas protegidas no Pará, região norte do Brasil, como pano de fundo. No centro, há uma história de pertença e conflito familiar que, tal como o ouro, está debaixo da terra, soterrado na lama. Preso a uma visão dos povos originários marcada por misticismo e, ao mesmo tempo, ainda reservando à protagonista branca parte considerável da agência dramática, o filme tenta amarrar várias tramas numa jornada de violência que tinge de carmesim o leito do rio Tapajós.
A câmara sobrevoa o leito fluvial do interior do Pará, enquanto a luz crepuscular se reflete na água, abrindo a cena para o enxame de árvores que tocam o horizonte, antes que uma voz off tome conta da imagem e estabeleça o tom espiritual do que está por vir. O narrador, professoral, explica ao espectador o poder xamânico da mata e a necessidade de a respeitar. A abertura evoca a dimensão espiritual das relações que Rio de Sangue pretende explorar mas que são imediatamente interrompidas por uma desastrosa ação policial de apreensão de drogas na periferia de São Paulo. Somos apresentados a Patrícia Trindade (Giovanna Antonelli), polícia intempestiva que, jurada de morte pelo tráfico, se refugia muito a contragosto em casa da filha Luiza (Alice Wegmann), médica que trabalha com povos originários no Pará, na região Norte do país. À última hora, Luiza precisará de regressar a uma comunidade indígena Munduruku com a qual já trabalha.
A troca de farpas em forma de diálogo entre filha e mãe recém-chegada é áspera, marcada por acusações veladas desde o primeiro encontro. Antonelli, tradicionalmente mais conhecida pelos seus papéis televisivos, é competente na entrega de uma protagonista obtusa e endurecida sem ternura; a atriz transforma diálogos excessivamente diretos e de pouca nuance em ressentimento credível diante de uma filha distante que escolheu um caminho de vida diferente do seu.
Ainda assim, a montagem insiste em alternar o desenvolvimento da trama com cenas narradas em off num tom solene, mesmo quando as próprias personagens poderiam transmitir aquelas ideias de forma menos abstrata. A voz parece conversar sobre outro filme, oferecendo pílulas filosóficas abstratas e espiritualistas de assuntos alheios à ação imediata no ecrã.
Mario (Fidelis Baniwa) é o responsável por essas passagens; um indígena pária que ganha a vida com pequenos trabalhos ligados ao garimpo local desde que foi banido. A escolha gera estranheza porque Baniwa é muito mais eloquente fisicamente: a sua interpretação destaca-se pelas expressões faciais versáteis, variando da raiva à desorientação e tornando ainda mais redundante o facto de ser a voz explicativa do filme. Mario é ágil e assusta-se quando é surpreendido pela prima ao esgueirar-se pela sua antiga aldeia, ou, noutra situação, expõe convincentemente a sua fúria vingativa quando tenta esfaquear Polaco (Antonio Calloni), chefe da empresa de garimpo. Um homem perdido entre dois mundos, cheio de desgosto pela vida e desejoso de sentido de propósito. Levando a sua interpretação às últimas instâncias, Baniwa seria o protagonista silencioso ideal de um western amazónico, em que os seus gestos e olhares reticentes ou ações resolutas seriam suficientes para narrar uma história de redenção, pertença ou simplesmente de expulsão de garimpeiros ilegais de terras indígenas. Apesar de a sua fisicalidade pedir ações, o argumento entrega-lhe explicações. Porque narra ele o filme? Porque foi expulso? Pelo mesmo motivo que a relação de Patrícia e Luiza é má: o argumento não está preocupado em responder. Ambicioso na sua tapeçaria de assuntos, Rio de Sangue acumula fios dramáticos que não termina de entrelaçar.
O tom sisudo de denúncia que o filme outorga perde credibilidade quando somos obrigados a abandonar toda e qualquer verossimilhança pelos tropos médicos consagrados, e o exemplo mais gritante é este: a médica Luiza é obrigada a salvar a vida dos perigosos garimpeiros que mataram toda a sua equipa. Para isso, logicamente, a tradição cinematográfica costuma recorrer a dois caminhos fantasiosos de procedimentos médicos reais: a via aérea de urgência feita com uma caneta ou a descompressão torácica com qualquer objeto pontiagudo que estiver ao alcance das mãos após um ferimento que, a priori, deveria ser fatal. Rio de Sangue escolhe o segundo. Luiza salva a vida de Jadson (Ravel Andrade) após realizar uma nada delicada punção torácica com o que parece ser uma chave de fendas, cuidadosamente submetida à esterilização cinematográfica universal: um banho de cachaça. Toda a odisseia do cativeiro da médica, com a sua vida condicionada aos cuidados do rapaz, exige uma suspensão da descrença que me perdeu progressivamente. Para um filme que se leva tão a sério, a credibilidade naufraga quando arrancar bruscamente uma flecha cravada no lado esquerdo do tórax de um homem pode ser considerado uma medida terapêutica razoável.
Em contraste com esses momentos pouco convincentes, é nas cenas de ação que o filme abandona as suas teses e realmente acerta. A variedade é impressionante: perseguições de carrinhas de caixa aberta em estradas de terra, troca de tiros e flechas à beira-rio, situações de refém, até luta com uso de facas, retratadas com clareza pela câmara, seja próxima ou a média distância dos envolvidos. Alguns planos interessantes de Edenir (Rui Ricardo Diaz), muito bem no seu papel de braço direito do antagonista principal, fazem lembrar a violência gráfica de From Dusk Till Dawn (1996). O enquadramento avança até quase encostar no cano do seu revólver, apontado para a câmara, enquanto o seu rosto permanece discretamente fora de foco.
As cores de Rio de Sangue saem-se melhor sob a luz solar, e felizmente o filme vive à luz do dia. A aridez castanho-amarelada da vida dos campos de garimpo contrasta com a vegetação verde vistosa e húmida do povo originário, entremeada pelas árvores e rios que lhes dão de beber. As cenas noturnas mais convincentes passam-se com iluminação interior ou com luz artificial forte, como quando passeamos brevemente pela pequena povoação que se forma em redor do garimpo, com luzes LED azuis e vermelhas fustigadas por moscas, recortando pequenos bares ou bordéis sujos improvisados.
Rio de Sangue funciona melhor quando se entrega ao género de ação: uma mulher enfrenta um território hostil e inóspito para resgatar a filha, acompanhada de um pária em busca de propósito e redenção perante o seu povo. Os momentos mais fortes vêm da corporeidade dos seus atores, entregues ao papel, como quando Fidelis se protege dos tiros enquanto se deita na caixa de uma carrinha e recarrega rapidamente a espingarda sem levantar muito a cabeça. As coisas perdem-se quando o filme nos pede seriedade sem contrapartida; o argumento não faz questão de aparar tramas que começou a desenrolar, tampouco de aprofundar um par de personagens e, sobretudo, recusa-se a escolher um dos inúmeros tons que deseja assumir.
A indecisão impede Rio de Sangue de alcançar a gravidade que procura. Há um filme de ação divertido soterrado sob denúncias ambientais, conflitos familiares, questões étnico-sociais e inquietações espirituais que o argumento acumula sem conseguir integrar. Quando tenta explicar o que tudo isso significa, abandona o que faz de melhor e perde-se.



















