Marco Bechis recebe o Prémio Humanidade na Mostra de São Paulo: “Cinema é sempre tradução”

Uma menção a Jean-Luc Godard (“não se trata de fazer filmes políticos, mas, sim, fazer cinema politicamente”) ilumina a conversa do ítalo-chileno Marco Bechis com a imprensa, na sua passagem pelo Brasil, horas antes de a Mostra de São Paulo entregar a este realizador uma das suas distinções anuais, o Prémio Humanidade. Nascido em Santiago do Chile, filho de pai italiano e mãe de ascendência franco-suíça, o cineasta e escritor passou os primeiros anos de vida entre São Paulo e Buenos Aires. Em 19 de abril de 1977, aos 20 anos, foi preso pela ditadura argentina e levado para o Club Atlético, centro clandestino de detenção. Deportado por razões políticas, chegou a Milão ainda naquele ano. Antes de ingressar no cinema, trabalhou como professor primário e desenvolveu experiências com fotografia Polaroid e videoarte em Nova Iorque. Em 1982, já em solo milanês, criou a instalação audiovisual Desaparecidos, dove sono?, sobre um campo de concentração na Argentina, um trabalho que anos mais tarde forneceria material para Garage Olimpo (1999). Toda essa vivência ganha uma rota de transcendência, das mais universais, em Ritorno a Buenos Aires, espécie de épico intimista de tons jurídicos que lhe valeu uma indicação ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. O projeto foi idealizado numa parceria com talentos brasileiros, como os produtores Patrick De Jongh, Cibele Amaral e André Ristum, a atriz Paula Cohen e o ator Eduardo Hoy.

Nesta quinta-feira, 22 de outubro, às 18h30, no Cultura Artística, a Mostra exibe a longa-metragem, ali traduzida como Retorno a Buenos Aires, após a entrega do Prémio Humanidade. Filmada parcialmente em Porto Alegre, a longa-metragem conquistou o prémio independente Francesco Pasinetti em Veneza. Na trama, Mariano Guerra (Adriano Giannini) regressa à Argentina após 33 anos em Itália para testemunhar no julgamento dos militares responsáveis pelo seu sequestro e tortura durante a ditadura. Na entrevista ao C7nema, Bechis fala sobre a solidão do artista e do sobrevivente, a construção de uma linguagem cinematográfica própria, a justiça como força militante e os limites da arte perante a polarização política contemporânea. O cineasta também celebra a parceria com produtores brasileiros e a relação duradoura com a Mostra, que já exibiu trabalhos seus e abriu a sua 32.ª edição, em 2008, com Terra Vermelha.

A solidão atravessa Retorno a Buenos Aires: a do sobrevivente de um trauma histórico, mas também a de quem precisa de transformar essa experiência em criação. Que solidão é essa e o que ela carrega de político e de estético?

Essa solidão é, basicamente, a do artista. Se me tornei artista, seja a fazer cinema, a escrever livros e a trabalhar com fotografia, foi porque tinha uma urgência de contar a realidade. Isso significa estabelecer uma comunicação com o público, seja ele pequeno ou grande. A minha solidão não vem apenas do fato de eu ter sobrevivido à violência política. Ela também faz parte da vida de quem transforma a arte em existência. Quando termino um filme, fico sozinho, pensando no que farei a seguir. Não tenho a continuidade de um trabalho convencional, numa empresa ou num banco. Além disso, fazer cinema exige procurar dinheiro permanentemente. Essa solidão atravessa a minha vida e acaba passando para a minha arte. Publiquei um livro, A Solidão do Subversivo, que fala disso.

A sua formação reúne tradições cinematográficas distintas: de um lado, o cinema latino-americano atento à realidade política; do outro, a herança italiana, com realizadores como Francesco Rosi e Elio Petri. Como essas referências se misturam na construção da sua linguagem?

Conheço o cinema político de Petri e Rosi, assim como o de Rossellini, e todos foram muito importantes para mim. A minha linguagem foi-se formando naturalmente, a partir das impressões que acumulei como espectador, desde a juventude. Tenho influências italianas, evidentemente, mas procurei desenvolver uma expressão pessoal. Para mim, a linguagem é prioritária. O cinema é feito de traduções sucessivas. Cinema é sempre tradução. Traduzimos o roteiro em imagens, e depois imagens e sons passam por outra transformação na montagem, até se tornarem o filme. Em cada etapa, procuro referências nos grandes realizadores e nas obras que me tocaram, mas sempre a partir da minha própria sensibilidade e das perguntas que preciso resolver.

Em Retorno a Buenos Aires, a juíza interpretada por Paula Cohen parece encarnar uma justiça que ultrapassa a aplicação fria da lei. A personagem chega a pressionar uma testemunha, numa atitude ilegal, porque acredita que os responsáveis pelos crimes da ditadura precisam de ser punidos. Como concebeu essa figura?

Para mim, essa juíza representa uma ideia subjetiva de justiça. Não é apenas a justiça objetiva, que examina as provas e decide de maneira equânime. Ela acredita que aquelas pessoas cometeram crimes terríveis, que nunca se arrependeram e jamais deram informações às famílias sobre o destino de seus desaparecidos. Por isso, considera que devem receber prisão perpétua. É uma espécie de justiça militante. A personagem é interessante justamente porque é ambivalente: comete um ato ilegal para alcançar aquilo que considera um bem. A presença física de Paula Cohen foi fundamental para tornar essa figura convincente. Eu não queria uma personagem meramente funcional, mas alguém cuja humanidade e contradições estivessem presentes em cada gesto.

O Prémio Humanidade reconhece uma obra que procura compreender o que resta da violência histórica na vida das pessoas. O que significa receber esta distinção no Brasil, numa Mostra com a qual mantém uma relação que atravessa décadas?

Recebo o prémio com muita alegria e gratidão. Há muitas coisas que me ligam ao Brasil e a esta Mostra. Vivi em São Paulo quando era criança, aos quatro anos, e fiz filmes relacionados com o país. Terra Vermelha e o meu trabalho em Mundo Invisível fazem parte dessa ligação, assim como o novo longa-metragem. Por isso, é importante que esse reconhecimento venha do Brasil, de pessoas que fazem cinema e conhecem a minha obra. Entendo que o prémio reconhece a minha linguagem. Para mim, o cinema político é, antes de tudo, uma questão de linguagem cinematográfica, não apenas de discurso.

Os seus filmes parecem interessados não só na violência das ditaduras, mas também na maneira como as pessoas tentam viver depois dela. Num momento em que países sul-americanos enfrentam polarização, divisão e ódio, que lugar pode ocupar um cinema comprometido com a empatia?

Não acredito que um filme possa mudar a história de um país ou determinar o resultado de uma eleição. O que ele pode fazer é colocar questões diante do espectador, que precisa encontrar as próprias respostas. Existe uma responsabilidade nessa relação. Cada pessoa deposita no filme a sua percepção e a sua imaginação; por isso, embora todos vejam as mesmas imagens e ouçam os mesmos sons, cada um acaba por construir o seu próprio filme. Esse processo pode enriquecer a humanidade de quem assiste. A ligação entre cinema e decisões políticas, porém, não é simples. Hoje, as redes sociais têm um papel enorme na formação da opinião e no modo como as pessoas escolhem os seus representantes. Ainda assim, vou continuar a fazer cinema, porque o meu trabalho artístico consiste em entrar em contacto com o público e propor questões.

O novo filme foi realizado em parceria com produtores brasileiros e teve parte importante das filmagens em Porto Alegre. O que essa colaboração acrescentou ao projeto e à sua maneira de trabalhar?

Antes de encontrar os produtores brasileiros, já pensávamos na possibilidade de trabalhar com o Brasil. Depois, houve a inteligência de reunir as pessoas de que precisávamos para realizar o projeto. O mais importante foi a confiança no filme e a maneira como construímos a parceria. A relação foi muito horizontal, sem uma hierarquia rígida entre os participantes. Tivemos uma equipa brasileira de cerca de 70 pessoas nas filmagens em Porto Alegre, onde realizámos aproximadamente 60% do material. Por isso, embora nos documentos a coprodução possa aparecer definida de determinada maneira, o esforço brasileiro foi muito significativo. Sou profundamente grato aos meus parceiros.

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