Entrevista a Charlotte Rampling (atriz do inédito «I, Anna»)

(Fotos: Divulgação)

“I, Anna” é um filme de família. E não só por ter sido realizado pelo filho, Barnaby Southcombe, na sua estreia. Acaba por ser um espaço em que Rampling se sente à vontade e evolui, onde se identifica e mostra que sabe fazer. No filme assume o papel de uma mãe divorciada que regressa a casa no final de uma noite com um tipo rico. Quando entra em cena o detective Bernie Reid (Gabriel Bryne) a investigar um crime brutal percebemos também que ocorreu no apartamento de Anna. À medida que evolui a investigação surge também a hipótese de romance. No entanto, esses pedaços desconexos servirão também para o espectador construir a sua própria história e sobre os segredos de Anna.

Fascinante adaptação intemporal da novela de Elsa Lewin, destinada a prestar homenagem ao novelo emocional dos cinema noir, onde Barnaby Southcombe toca as notas certas do género. Apesar de não estar comprado para Portugal, “I, Anna” ocupa aquele espaço de cinema de género que por vezes sentimos tanta vontade de ver. Por isso mesmo sentimos vontade de falar com Charlotte, a eterna mulher fatal.

Queria começar por lhe perguntar se leu o guião antes de aceitar ser dirigida pelo seu filho?

Li o primeiro esboço que não gostei. Não senti que fosse a escolha certa para o papel. Não me motivou. Entretanto ele foi trabalhar em outros projectos. O guião final acabou por surgir um pouco por acaso, nem sabia que ele tinha estado a trabalhar nele. O resultado era extraordinário. Nesse sentido, a escolha não foi difícil.

O que é que mudou entre essas duas versões?

Mudou o ponto de vista. O primeiro estava muito ligado ao livro; era mais violento, mais brutal. As subtilezas psicológicas não estavam muito bem definidas.

O filme tem um lado psicanalítico da repressão da memória. Sabemos da sua biografia que este tema é muito importante. Terá sido esta também uma razão para avançar com o projecto?

Acho que sim. Este tipo de mistério sobre a vida fascina-me. Até porque é algo de que não sabemos muito. Algo que seja psicologicamente adequado e rigoroso acaba por alimentar uma potencialidade cinematográfica. 

Parte da atmosfera do filme está no seu rosto. Nesse sentido tem expressões fantásticas. Foi para si um desafio encontrar o tipo de expressão certa e discuti-la com o seu filho?

Não, porque nessa altura ela está em completa negação, nem sequer se apercebe que cometeu um homicídio. Tem mecanismos já instalados. O filme acaba por ser feito de uma forma desfragmentada. Seguimos uma personagem no filme através das suas expressões. Mesmo que seja inexpressivo. Mas é assim que eu gosto de trabalhar.

Charlotte Rampling  e Gabriel Byrne

Como foi que surgiu o convite para trabalhar consigo. Foi totalmente profissional?

O Bumby foi educado no meio de um circo. Quando estava a fazer “O Porteiro da Noite”, ele estava numa alcofa. Ele nasceu e cresceu neste meio. E à medida que foi crescendo ia-me visitando no set. Tínhamos uma ligação muito curiosa. O Barnaby era sempre muito cool nos sets. Por isso, quando começou a fazer cinema, depois já do seu trabalho na televisão, percebi que era algo que ele poderia fazer bem. Quando estamos a representar, sou muito profissional. Mas ele também é. É verdade que o filme existe porque somos nós os dois. Mas não podemos fazer nada contra isso. A relação existe, mas ele era o meu realizador.

Sente que descobriu algo sobre si própria, do ponto de vista psicológico, ao fazer este filme? O que estava por detrás daquele controle?

O que está atrás do controle é uma forma de descarregar o controle.  À medida que vamos ficando mais maduros, ficamos mais vulneráveis. Mas temos muito mais informação e conhecimento. Tivemos em ligações, educámos crianças, tudo aquilo que fizemos é um manancial de informação. Mas continuamos a ser um ser frágil, do qual sabemos muito pouco. Isto enquanto seres humanos. O nosso tempo é limitado, haverá um limite biológico. Por isso, a viagem de Anna é muito frágil, porque ela não se lembra do que fez. Quando interpretamos uma personagem assim, acabamos por entrar em lugares muito emotivos e acabamos inevitavelmente por tocar em nós próprios. Mas isso foi algo que sempre quis. Eu quis trazer o meu cinema para esse nível.

Até que ponto foi para si importante o conhecimento que obteve sobre si própria no documentário alemão “The Look, A Self Portrait by Others”? Foi uma forma de terapia? 

Para quem não sabe, foi um documentário que me foi sugerido por um produtor alemão há uns quatro, cinco anos, sobre mim. Aí eu converso com artistas, amigos e colaboradores sobre os meus filmes. Foi algo que me ajudou muito, porque era a minha voz que falava no mundo em que vivi. Eu represento, mas essa pessoa tem de ter uma ressonância em mim própria. É assim que funciono.

 
 
Link curto do artigo: https://c7nema.net/p9ew

Últimas