Entrevista a Peter Strickland (‘Katalin Varga’)

(Fotos: Divulgação)

Katalin Varga marcou a estreia na realização do britânico Peter Strickland, que usou uma herança de um tio para financiar um projeto pessoal e bastante fora da norma das produções independentes inglesas.

Este drama de vingança e ódio, passado na Transilvânia, foi integralmente rodado em romeno e húngaro, por um realizador que desconhecia tanto o idioma como o território onde se aventurava.

Katalin Varga foi filmado ao longo de vários anos na Roménia, com um orçamento de apenas 25 mil libras. A equipa chegou a percorrer longas distâncias de carroça, a dormir em sacos-cama e a enfrentar o frio intenso dos Montes Cárpatos.

No filme acompanhamos a história de Katalin, uma mulher que vive e trabalha no campo, cujo marido descobre que o filho Orbán não é dele, mas fruto de uma violação ocorrida anos antes. Repudiada, Katalin parte com Orbán numa viagem pela Roménia profunda em busca do pai biológico, determinada a fazer justiça.

Uma produção longa e sofrida, repleta de dificuldades financeiras, mas movida por um forte espírito de equipa esteve por detrás de Katalin Varga, uma intensa cruzada de vingança ambientada no coração da Transilvânia. A crítica aclamou o filme, que valeu a Strickland uma nomeação para o Urso de Ouro em Berlim.

O c7nema entrevistou o realizador Peter Strickland, que se revelou um apaixonado pelo cinema e um cineasta corajoso, com surpreendente conhecimento sobre Portugal — incluindo a nossa gastronomia.

És um realizador inglês que escreveu um drama de vingança passado na Roménia. O que te inspirou na hora de escrever esta história? Foi pensada para ser passada na Roménia?
A vingança é algo que parece estar tão intrínseco na nossa história que é uma emoção que percorre todos nós. Está presente quando dois miúdos lutam na escola ou quando dois países se bombardeiam mutuamente. O instinto é simples, mas as consequências são complexas, imprevisíveis e podem causar danos muito extensos. Eu queria pegar num tema tradicional, mas empurrar o espectador para uma área de desconforto em termos morais. Em muitos filmes de vingança, o choque vem de o “mau” ser alguém violento e sem escrúpulos. Para mim, o choque é maior quando o apresentamos como alguém decente que ama a sua mulher. Como lidamos com um homem que destruiu a vida de Katalin mas, ao mesmo tempo, faz a sua esposa muito feliz?

Existe um lado pessoal teu nesta história?
As motivações por detrás da história são pessoais, mas não as personagens nem as situações. Este tipo de história é universal.

Qual dirias que é a mensagem final de Katalin Varga: vingança ou perdão?
Não existe uma mensagem. Se o filme parecer que toma uma posição, então falhei como cineasta. Quero que os espectadores decidam por si próprios esse dilema. Eu apenas apresento as personagens de forma neutra, mostrando como reagem e mudam ao longo do tempo, e como as suas ações têm consequências. Todos sabem que a vingança é algo complexo e dinâmico. O cinema deve mostrar essa confusão moral, não simplificá-la.

O filme foi feito com 25 mil libras e uma equipa de apenas 11 pessoas. Quais foram os segredos para se fazer um filme tão bom com tão pouco?
A sorte teve um enorme papel. Eu tinha tempo, energia e frustração, era solteiro e podia andar de comboio, a pé, à boleia, a descobrir a Transilvânia. Também tive a sorte de herdar algum dinheiro. Mas o essencial foi encontrar atores talentosos e trabalhadores que não se importavam com status ou luxos. Como produtor, mantive a equipa reduzida: não precisávamos de maquilhadores, estilistas ou grandes departamentos. Este filme era sujo, natural. Bastava o essencial.

Foi difícil filmar nos Montes Cárpatos?
Não foi assim tão difícil. O maior problema era perdermos tempo, sobretudo nas deslocações. Havia locais que só eram acessíveis de carroça. Foi um desafio físico, mas também das experiências mais divertidas da minha vida. Vivíamos todos juntos numa casa, em sacos-cama, lavávamos os pratos no rio, enfrentando o frio. Felizmente, os atores eram dali e não se impressionavam facilmente.

Foi difícil dirigir atores em inglês quando o filme era rodado em romeno e húngaro, línguas que não compreendias?
Não foi fácil, confiava muito nos atores. Tentei aprender os diálogos, mas havia sempre debates sobre a tradução. Dirigi-os em inglês, o que não era ideal, mas filmar em húngaro era essencial para manter a autenticidade da história.

Foi muito difícil vender Katalin Varga depois de estar terminado?
Sim. Em 2007, com uma cópia mal acabada, fomos rejeitados em vários festivais. Tudo mudou em 2008 quando conseguimos financiamento para uma boa pós-produção. A partir daí, o filme ganhou força, foi distribuído internacionalmente e nomeado para o Urso de Ouro. Aprendi que só se deve “soltar” um filme quando está realmente pronto.

Valeu a pena dar este passo para realizar uma longa-metragem? Mudarias alguma coisa?
Valeu a pena. Adoro fazer filmes e partilhá-los com o público. Claro que há erros e coisas que podia melhorar, mas a experiência e as portas que Katalin Varga abriu compensaram tudo.

Que filmes e realizadores são a tua inspiração?
Gosto de autores obcecados em fazer filmes únicos: Peter Tscherkassky, Stan Brakhage, Jonas Mekas, Jordan Belson, Kenneth Anger. Em longas-metragens destaco The Godfather (Coppola), Raging Bull e Taxi Driver (Scorsese), Shadows of Our Forgotten Ancestors (Parajanov) ou Eraserhead (David Lynch).

O que podemos esperar de Berberian Sound Studio?
É um projeto muito pessoal, baseado em som e influenciado pelo lado mais selvagem da música italiana — Morricone, Berio, Luigi Nono, Bruno Nicolai. O produtor é Keith Griffiths, que também trabalha com os irmãos Quay e Apichatpong Weerasethakul. Planeamos filmar em 2011.

Se Hollywood quisesse fazer um remake de Katalin Varga, aceitarias?
Aceitaria, mas não o realizaria nem o veria. Apenas aceitaria o cheque. Ganho mais a ensinar inglês do que a fazer cinema. Um remake seria uma forma de financiar a minha dedicação exclusiva ao cinema.

Conheces o cinema português?
Conheço Pedro Costa, João Botelho e Manoel de Oliveira. Gostava de ver Juventude em Marcha. Creio que o segredo da longevidade de Oliveira deve estar no azeite! A cozinha mediterrânica é a melhor que há.

Qual te parece o papel da Internet no cinema atual?
É essencial, para o bem e para o mal. Quando comecei, era quase impossível ter acesso a filmes estrangeiros. Agora, qualquer filme pode ser encontrado online. É bom, mas também trivializa a experiência. Antes, a espera e a partilha tornavam a descoberta mais especial.

Katalin Varga estreia a 16 de dezembro de 2010 em Portugal.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/p5qf

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