Transformado numa espécie de popstar documental depois do sucesso de “I Am Not Your Negro”, nomeado ao Oscar em 2017, o haitiano Raoul Peck preferiu ignorar a fama e rejeitar rótulos, com os pés bem fincados em produções indies, de orçamento baixo, mas de ambição política farta. Tentou como pôde fintar os holofotes, mas caiu nas graças de Cannes com um exercício autoral mais recente, Ernest Cole, Lost and Found (Ernest Cole, Perdido e Achado), que saiu da Croisette com o L’Oeil d’Or, a Palma da não ficção. A sua forma de narrar, amparada na voz de LaKeith Stanfield, segue uma linha investigativa para traçar os bastidores mais violentos (e os mais resilientes) da vida do fotógrafo sul-africano Ernest Levi Tsoloane Cole (1940-1990).
Um livro editado por Cole, “House of Bondage”, já seria uma chave e tanto para que Peck pudesse decifrar o legado. Por sorte, o cineasta descobriu um acervo de 60 mil negativos do artista visual num cofre na Suécia, onde viveu depois de ter registado evidências da violência racial no seu país, em tempos anteriores à libertação de Nelson Mandela.
Na entrevista a seguir, concedida ao C7nema em Cannes, Peck explica a dimensão descolonial das expressões documentais.

A sua via de expressão mais usual é o documentário. O seu título mais recente nesse registo da não ficção estreou em Cannes. O que muda, em termos de produção, para o formato hoje com a demanda das plataformas de streaming?
Há um aumento inegável de procura nas plataformas digitais, mas o critério que baliza a aquisição de um documentário pelos streamings não é estético e, sim, comercial. O que está em alta neste momento são biografias de celebridades e histórias sobre crimes reais, não uma narrativa construída com base em arquivos e inspirada pelo desejo da investigação de linguagem.
Qual é a margem de experimentação – se é que ela existe – para um filme que abraça a militância e a luta contra o racismo como “Ernest Cole, Perdido e Achado”?
Não faço cinema por visibilidade midiática, para fazer sucesso nas bilheteiras. Cinema é um veio que me apareceu como uma exigência dentro das práticas políticas que abracei. O papel que interpreto na arte é o de preservar a História, de recuperar situações que foram dadas como perdidas. O documentário é interessante nessa linha de ação pelo que permite de diálogo com a memória.
Como chegou às fotos de Cole, em especial ao material menos conhecido, exibido pelo filme?
Houve um tempo em que vivi em Berlim, e militei no comité contra o Apartheid na África do Sul, antes da chegada de Mandela ao Poder. Conheci o trabalho fotográfico dele ali. Anos mais tarde, fui procurando pelos detentores dos direitos da sua obra em busca de ajuda para garantir a preservação dos retratos tirados por Ernest. Foi ali que passei a mergulhar na sua obra. O foco que me interessava, para o cinema, não era apenas o resgate das fotos, mas os bastidores delas, aquilo que está por trás de cada flash e de cada clique. Não poderia me atar à pobreza, pois não era esse o objetivo de Cole. Ele queria a condição humana. Para isso, eu precisava falar dele.
A opção dramatúrgica em adotar a narração do ator LaKeith Stanfield amplia a linha tensa da sua estrutura de montagem. Como foi o trabalho com ele?
Eu precisava adotar um dispositivo que imprimisse, no ecrã, a sensação de que Ernest Cole ainda está entre nós, vivo, atuante, participativo. As fotos, mesmo remissivas ao passado, têm um reflexo do presente no que revelam. O facto de haver um acervo secreto, alheio à vigilância do regime sul-africano, poderia levar a película a um formato de suspense, de thriller, o que seria arriscado para a dimensão humanística de que a história de Cole necessitava. Não era o caso de valorizar a descoberta das suas fotos e, sim, dar espaço às suas ideias de expor o que passou pela sua cabeça ao sair da África do Sul para Nova Iorque e encontrar vidas negras nesses dois espaços. Havia racismo nos dois espaços.

