Diego Céspedes leva-nos aos anos 80 e ao deserto chileno para falar de uma estranha epidemia

(Fotos: Divulgação)

Vencedor, em 2018, do Primeiro Prémio da Cinéfondation pela curta “El verano del león eléctrico”, o chileno Diego Céspedes regressou ao Festival de Cannes, agora na secção Un Certain Regard com a sua primeira longa-metragem, “La misteriosa mirada del flamenco”, um drama repleto de humor e elementos coming-of-age que entra em território do western e leva-nos a um lugar e a um tempo diferentes: o Chile, nos anos 80, numa zona mineira no deserto afetada por uma estranha epidemia que todos associam à comunidade homossexual. É neste mundo que uma menina vai ter de lidar com as reticências e preconceitos dos habitantes da comunidade com quem vive.

Diego Céspedes

Creio que o meu filme vai dividir o meu país e não espero, de todo, uma reação consensual. Só por ler a sinopse, vai ser rejeitado por muitos que vão logo dizer que estamos perante um discurso muito woke”, disse Céspedes ao C7nema, em Cannes, recusando qualquer influência direta no cinema de Pedro Almodóvar na construção da sua história e personagens: “Almodóvar não é uma inspiração direta, mas as pessoas associam o meu filme a ele porque este género de personagens já está estabelecido no cinema como parte do seu imaginário. Com personagens gays, travestis e usando o humor e um jogo de cores particular, as pessoas associam logo ao cinema de Almodóvar. Mas o humor do filme é muito chileno. Este humor não é de Pedro Almodóvar, mas das pessoas dissidentes que normalmente apresenta nos seus filmes (…) Mais que influências de outros filmes, esteticamente tentamos estilizar cada personagem associada a uma cor, uma forma de enquadrar. As regras que estabelecemos não vinham de fora, mas de dentro. Nós criamos essas regras e quando planeamos as coisas fomos ao detalhe. Por exemplo, a cor do Flamenco era de tons avermelhados que tinham a ver com a paixão, sangue, contágio. Desta forma, unindo as personagens pela cor, fizemos o mesmo com a composição, a fotografia e o som.”. 

Quando questionado sobre a origem da ideia para o filme, Diego fala em múltiplas fontes, como ilhas de ideias interessantes que se vão juntando num arquipélago. Porém, uma delas tinha particularmente força e vinha de dentro da própria família do cineasta: “Eu e toda a minha família vimos dos subúrbios de Santiago do Chile. Quando era pequeno, os meus pais abriram um cabeleireiro e contrataram algumas pessoas gays. Todos morreram de Sida. A minha mãe ficou com uma visão muito terrível da doença. Muito preconceituosa. A doença e a forma de morrer era terrível. Diziam que bastava tocar em alguém para contraíres a doença. Esse medo era algo interessante para explorar. O mais importante do filme não é tanto o período histórico, mas as relações pessoais entre estas pessoas“.

Sobre a importância do seu filme nos tempos atuais, Diego é perentório: “Estamos num período muito negro da humanidade e acho que estamos a retornar a velhos e horríveis costumes. Cannes mantém firme o seu discurso, não através de uma carta de intenções, mas da seleção de filmes. Isso é muito importante e agrada-me está aqui com o meu filme.

O Festival de Cannes prossegue até dia 24 de maio.

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